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ABSURDO | Colégio Batista de BH posta vídeo com crianças criticando identidade de gênero

O Colégio Batista Getsêmani de Belo Horizonte, postou um vídeo com crianças nas redes sociais, em 28 de junho, criticando a identidade de gênero. A postagem teria sido uma resposta a um outro vídeo, que circulou na internet, em que crianças aparecem em uma campanha por respeito às pessoas LGBTQIA+.

Mafê MacedoEstudante de Psicologia da UFMG

terça-feira 6 de julho | Edição do dia

Foto: Reprodução TV Globo

O colégio conservador cristão, publicou um vídeo em que crianças criticam o que eles chamam de “ideologia de gênero”. Durante o vídeo, uma criança diz que “meu Deus me fez menina” e uma outra fala que “meu Deus me fez menino”. Ao final, ambos dizem várias vezes: “meu Deus não erra”. As crianças também foram instruídas a dizer que há uma imposição da tal ideologia de gênero que “confunde a fé”.

O vídeo foi feito em “Resposta ao Burger King” que no mês do orgulho LGBTQIA+ realizou um comercial que apresenta um caminho para pessoas que dizem não saber como explicar LGBTQIA+ para crianças.

A escola se refere ao comercial como “confusão mental em crianças”.

Com a reação gerada em decorrência da publicação do vídeo, o diretor geral do Colégio Batista Getsêmani, pastor Jorge Linhares, disse que apenas repostou um vídeo que não foi produzido por eles, argumentou ainda que segue os princípios bíblicos e defende a família cristã:

"Nós demos uma resposta como instituição cristã que tem por base a Bíblia Sagrada. A nossa escola toda gira em torno de ensinamentos em prol da família”.

Um dos principais argumentos para censurar o debate sobre gênero é o medo da destruição, pela “ideologia de gênero”, do modelo tradicional da família burguesa, em que o casal é formado por uma mulher e um homem com papeis pré-determinados.

O termo ideologia é definido frequentemente como a transformação de uma ideia em um ideal generalizado: mas neste caso vemos uma utilização incomum da palavra “ideologia”, já que a discussão sobre a sexualidade, gênero e discriminação tem por objetivo acabar com a “ideologia de gênero”. Idealizar um gênero, significa defini-lo e caracteriza-lo, para a partir daí desejar que todos sigam essas concepções. Porém não é isso que o debate almeja.

Então, podemos concluir duas coisas: as pessoas que acreditam e temem a “ideologia de gênero” ou temem a si próprias ou temem algo que não existe. No final das contas quem realmente idealiza algo, são as pessoas que acreditam que existe um formato tradicional de família que deve ser seguida.

As escolas deveriam ser um espaço de debates e reflexões sobre os diferentes temas que cercam a nossa sociedade e a vida da comunidade escolar, um lugar onde o pensamento fosse verdadeiramente livre. Entretanto, colégios como o Batista (que está relacionado a uma das alas mais reacionárias da igreja católica) querem impor uma educação precarizada, onde esses debates fiquem longe do ambiente escolar, como se assim fossem ficar longe da vida de seus estudantes.

Quando o que acontece na realidade é que o debate de gênero não é uma demanda apenas dos movimentos LGBTQIA+ e de mulheres. É uma demanda dos próprios jovens, que levam suas experiências para a escola. Não é o debate sobre gênero na escola ou em qualquer lugar que vai orientar a sexualidade de uma criança, embora possa ter efeito positivo sobre a compreensão e respeito da sua e da dos outros.

Não é apenas no espaço formal da escola que se constituem as identidades dos indivíduos. Essas se constituem num mar de relações formais e informais que o indivíduo vivencia em sua trajetória. E, mesmo as crianças mais pequenas vivenciam experiências que não podem ser controladas ou proibidas pelos adultos, sejam os pais, os professores ou os pastores de plantão.

No Brasil da extrema direita de Bolsonaro que odeia e ridiculariza as LGBTQIA+, onde segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos (estimativa que foi reduzida na pandemia), que só no ano passado houve um aumento de 41% dos assassinatos de pessoas trans, e que os ataques e reformas de Bolsonaro e dos golpistas aprofunda ainda mais a precarização da vida, é ainda mais importante que a escola e a sociedade como um todo debatam temas como esses.

Sem nenhuma confiança em campanhas como a realizada pelo Burguer King no mês do orgulho LGBTQIA+, que se apropriam de nossas pautas para lucrar sem se preocuparem minimamente em de fato contribuir para um mundo em que a LGBTfobia seja superada, nossa luta é pela autodeterminação sexual, pela abolição dos papéis e estereótipos sexuais e pelo direito humano a usar o próprio corpo sem a interferência das instituições sociais e legais do Estado.




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