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CINEMA

Cinema e racismo nos Estados Unidos: A volta de Spike Lee

quarta-feira 14 de novembro| Edição do dia

Imagem: Nos Bastidores

Texto de Celina Demarchi, traduzido do Semanário La Izquierda Diário

São os anos 70 e Ron Stallworth (John David Washington) é o primeiro afro-americano a entrar na Polícia de Colorado Springs, Estados Unidos. Para superar a desconfiança e o preconceito dos companheiros e ganhar um lugar à força, propõe ao chefe que faça alguma tarefa como infiltrado. E então o enviam a fazer tarefas de espionagem aos Panteras Negras. Ao mesmo tempo, Stallworth decide se infiltrar na KKK para obter informações de suas atividades e para isso se faz passar por um branco via telefone. E então pede a um amigo judeu, Flip Zimmerman (Adam Driver), para que se infiltre em seu lugar.

Baseado em uma história real, Lee, (Faça a coisa certa, Malcom X) volta ao cinema com a história de um policial apolítico. Com uma linguagem crua, de traço forte, super racista e chocante, o diretor narra a história deste policial negro que se infiltra na KKK para denunciá-los.

Distanciado do estilo dramático de Malcom X, Lee elege o sarcasmo, o tom irônico para evidenciar o racismo. Com diálogos e cenas cômicas, toma a licença de contar uma história trágica de forma humorística. Desde a cena em que Ron se apresenta como candidato para entrar à força, o filme é uma comédia. O cineasta mostra as personagens da KKK com um estilo grotesco, caricaturesco e isto talvez ameniza o perigo que esta organização significou e significa para as pessoas afro-americanas nos Estados Unidos.

Com referências ao Blaxploitation - filme sobre a exploração negra, de um movimento cinematográfico dos anos 70 que teve como protagonista a comunidade afroamericana -, o filme levanta questionamentos morais, sobre as contradições de ser negro e viver nos Estados Unidos e sobre a questão da identidade. Aparecem também os caso de Flip, que entra em crise e reconhece que sempre ocultou que é judeu, algo que Ron não poderia saber, ou o questionamento que Patrice (Laura Harris), ativista do Black Power, faz ao protagonista pelo fato de ser negro e policial.

Como se não bastasse, Lee vai mais além e avança sobre os mitos fundacionais do cinema norte-americano que, através de Hollywood, colaborou com a segregação. E faz isso através da cena na qual a KKK se reune para ver a projeção de O nascimento de uma nação (1916), filme pioneiro no desenvolvimento da linguagem cinematográfica, como também de um racismo feroz. Ou então quando critica O vento levou fazendo referência a que os negros sempre servem aos brancos.

Até aqui o grande Lee mantém sua tensão típica de um filme policial e denúncia em cada cena o racismo e a supremacia branca.

Mas também há outra leitura. As cenas no Departamento de Polícia delineam aos agentes como se fossem um grupo de amigos que riem da KKK e que irão tentar, ao final, salvar à ativista Black Power, Patrice, com a qual o protagonista começa uma relação. Algo pouco crível nos Estados Unidos dos anos 70 (e no de agora), onde a polícia era (e é) o braço armado do poder político super racista e que saia (e sai) a caçar ativistas afro-americanos. Neste ponto Lee entra em contradição, lava a cara da polícia, a salva como instituição e a embeleza.

Segundo um estudo elaborado pelo diário britânico The Guardian, os jovens negros tem nove vezes mais chances de serem assassinados pelas mãos da polícia, mais que qualquer outro estadunidense. A comunidade negra conta com a taxa de mortalidade mais alta, um a cada 65 jovéns negros morrem assassinados pela polícia. É aqui onde a história contrasta com a realidade.

Neste sentido, vozes críticas se expressaram nos Estados Unidos questionando o filme. O cineasta Boots Riley, que recentemente estreiou Sorry to Bother You, uma ótima comédia anticapitalista com jóvens negros como protagonistas, publicou um ensaio de três páginas criticando o título de Infiltrado na Klan. Este coloca, por um lado, que a história está falsificada, já que o verdadeiro Ron Stallworth teria se infiltrado por anos em organizações negras radicais e a parte da KKK seria uma anedota menor. Riley escreveu:

“É uma história inventada na qual suas partes falsas tratam de fazer um policial, o protagonista, um lutador contra a opressão racista. Isso enquanto o assunto do Black Lives Matter segue atual, e isto não é uma coincidência. Há um ponto de vista por trãs disso.”

Para além das críticas, o filme está conquistando uma ampla audiência.

No entanto, para fechar seu filme, Lee escolhe violentas cenais documentais que mostram claramente o uso da força policial a serviço do poder de turno, na brutal intervenção policial em Charlottesville, em agosto de 2017. Onde se pode ver a presença de David Duke, que foi o guru da KKK e que aparece no filme.

O diretor adverte sobre o estado real da supremacia branca, a violência racista e a opressão sobre a comunidade afro-americana, redobrado agora com Trump no poder.

As imagens finais “gelam os ossos”, tiram o riso que minutos antes se instala nas bocas. As cenas mais delirantes se transformam em sinistras e Lee consegue por em foco a situação atual, golpeando sem piedade o espectador que até então poderia ter se deixado relaxar.

Trailer:




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