CHE GUEVARA/50 ANOS

Che Guevara 50 anos depois: porque está vivo

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 18 de dezembro de 2017| Edição do dia

Che é reivindicado por toda aquele/a que luta por uma América Latina emancipada, não mais oprimida e nem explorada pelo capitalismo e finalmente libertada pelas mãos do seu próprio povo.

Nossa geração foi comovida pela grande revolução cubana naqueles efervescentes anos 1960 e a reação do imperialismo, bloqueando Cuba comercialmente, invadindo Cuba, tentando assassinar por incontáveis vezes a Fidel Castro e perseguindo e assassinando o Che há 50 anos atrás, são marcas inapagáveis do nosso tempo: a revolução cubana sacudiu a América Latina ao vencer uma das nossas ditaduras corruptas [redundância] da nossa região e desenvolver sua política anticapitalista e anti-imperialista. Também o imperialismo sentiu o impacto profundo quando as massas se levantam, em armas, contra a iniquidade do sistema dominante.

Che é um herói revolucionário do nosso tempo, e mais importante ainda, é que procuremos ter clareza prática daquilo que continua atual no seu pensamento.
O vídeo, abaixo reproduzido, do dirigente do PTS argentino Christian Castillo desenvolve algumas pistas essenciais nesse sentido.

Uma delas é o significado histórico da própria revolução cubana como uma evidência “material”, histórica, de que nenhum país latino-americano pode se emancipar do imperialismo por etapas, isto é, primeiro fazemos uma revolução democrática, “radicalizamos” a democracia [burguesa], procuramos desenvolver o mercado interno, e, mais adiante pensamos na revolução socialista. Não existe esse etapismo, tão proclamado por quase todos os partidos comunistas [PCs] da nossa região e que segue presente, reciclado como uma espécie de “estratégia não-declarada” das esquerdas de mais visibilidade, por exemplo, no Brasil.

Lembrar Che, dentre outras coisas, significa isso, ter essa clareza sobre o processo revolucionário no nosso continente em termos do argumento de que se não conquistamos uma república socialista, com os trabalhadores no poder, não será possível planificar a economia para as massas [e esse foi um argumento que Che usou em seu discurso naquela célebre reunião da Aliança para o Progresso],, isto é, se os principais meios de produção, indústria, banco, a terra, seguem todos em mãos privadas nada acontece; e a própria Cuba sem isso, hoje não passaria de um Haiti. Não há progresso social por fora da encampação dos meios de produção decisivos.

Outra mensagem inseparável desta é a qualificação que Che faz sobre as burguesias da nossa região [no seu discurso da Tricontinental]: não passam e jamais passarão de vassalos menores do grande capital imperialista.

Na nossa perspectiva, são avaliações atuais e inclusive não devidamente assimiladas por toda a esquerda marxista. A burguesia no nosso país segue pagando uma dívida pública sem fim ao imperialismo, continua fundando a economia no capital imperialista, segue concentrando a terra nas mãos dos barões do agronegócio, o que deveria levar à conclusão – por parte de qualquer esquerda consequente - de que a revolução, também por aqui, não inclui qualquer etapa transitória, de “aliança com a burguesia”, “democrático-popular” ou como se queira chamar.

Che também era um internacionalista, entendia perfeitamente ao capitalismo como um sistema mundial, lutou na África, na Bolívia, defendia transformar o mundo capitalista em vários Vietnãs e que o sistema somente poderia ser vencido mundialmente, nunca em um só país.

Nossa homenagem ao Che não nos torna, no entanto, guevaristas.
Como argumenta Castillo, nem a estratégia guerrilheira [do partido-exército] é a saída para a América Latina e tampouco o campesinato pobre pode ser tomado como o sujeito central. E estes são alguns elementos para ampliar e atualizar o debate sobre o Che quando o homenageamos ativamente nos 50 anos do seu desaparecimento pelas mãos da CIA.

O sujeito político da América Latina continua sendo o proletariado encabeçando os pobres urbanos, o campesinato pobre e os povos originários. E a estratégia, que outra pode ser senão a soviética, de Lenin e Trotski, na qual a classe trabalhadora, do campo e da cidade, desenvolve órgãos de autoatividade de massas, luta pelo poder a partir daí e dirige a economia, contra todo tipo de burocratização política? Aliás, o próprio Che, em sua evolução política, foi compreendendo, em alguma medida, a questão da burocracia soviética, começou a denunciar seu papel nefasto, embora não tenha, obviamente, chegado às lições de A revolução traída, obra incontornável de Trotski sobre o tema.

Todo revolucionário consciente reivindica o grande líder revolucionário Che Guevara, o homenageia nesses 50 anos do seu desaparecimento, e procura reviver suas lições de internacionalismo revolucionário, anti-imperialismo, de desprendimento revolucionário. E, em especial, sua convicção de que não temos qualquer saída emancipatória etapista, pelas mãos políticas de alianças com a classe dominante da América Latina, seja qual for o nome que tome essa ilusão recorrente por certa esquerda. Esquerda que, inclusive, também homenageia Che, mas sem levantar até o fim as bandeiras – algumas aqui citadas – do próprio Che.

Confira o argumento de C. Castillo de anos atrás, pronunciado no parlamento argentino, tão atual ontem como hoje, em defesa do legado do Che, no vídeo abaixo [em espanhol nítido].




Tópicos relacionados

Che Guevara   /    Revolução   /    América Latina

Comentários

Comentar