Sociedade

ECOLOGIA/MARXISMO

Chapada dos veadeiros: a grande devastação

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 31 de outubro| Edição do dia

Mais de uma vez o Esquerda Diário tem levantado o debate ambiental em uma perspectiva da classe trabalhadora. E tem apelado para os setores mais sensíveis ao problema ambientalista, no sentido de estimular a discussão mais estrutural, mais fundada na crítica programática contra a “mãe de todas as devastações ambientais”, o capitalismo.

Temos especialmente chamado a atenção para a importância do diálogo entre a preocupação ambiental dos setores mais rebeldes com a abordagem marxista da ecologia.

Nestes dias, o exemplo da Chapada dos Veadeiros é tragicamente terminante, nesse sentido, da necessária crítica estrutural ao problema ambiental no capitalismo.
Estamos vivendo a pior seca [mais de 6 meses sem chuva] e o mais grave e mais generalizado incêndio naquela região, que constitui a maior reserva mundial de cerrado e que abriga e alimenta três aquíferos fundamentais para o abastecimento de água potável do Brasil, o Guarani, o Urucaia e o Bambuí. E estamos diante da devastação de uma das áreas mais bonitas, mais preservadas [relativamente] e que sofreu um incêndio que levou quase toda a reserva embora.

O coração da reserva abarca 64 mil hectares [ao menos até julho passado] dos quais 30% foi destruído nessa queimada, mas somando os demais incêndios ao longo do ano, temos 82 mil hectares comprometidos. Mais do que a reserva, portanto. O famoso Vale da Lua, conhecido local de turismo ecológico foi devastado, por exemplo.

O diretor daquele Parque Nacional fala em 10 anos para uma regeneração da região, mesmo que o verde da vegetação rasteira volte a aparecer na próxima chuva.
Por sua vez, a grande mídia não deu a devida dimensão dessa tragédia, ao mesmo tempo em que a imprensa de esquerda repercutiu de forma absolutamente insuficiente; os partidos políticos de esquerda, idem.

No entanto, um colunista liberal da grande mídia mais prestigiada aqui de Brasília conseguiu ser mais contundente. Sua fala:

“O cerrado abriga as nascentes de oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras e responde por um terço da biodiversidade do Brasil, com 44% de endemismo de plantas. Por seu lado, a redução desse bioma vai alterar os regimes de chuvas, impactando não só o agronegócio, mas a existência da própria capital do país. A situação é mais calamitosa no norte de Minas Gerais, que pode, em menos de duas décadas, se transformar em deserto, inviabilizando economicamente mais de um terço de todo o estado. O desmatamento, a monocultura e a pecuária intensiva, em conjunto com as condições climáticas adversas, já levaram a pobreza e a miséria a mais de 142 municípios mineiros, o que já afeta mais de 20% da população do estado.

[...] O que garante de fato a produção agrícola e a pecuária no Brasil é o equilíbrio ambiental. Sem ele não há formação de chuvas por evapotranspiração e, por conseguinte, não há água para plantas e animais, inviabilizando tudo. A destruição do cerrado trará repercussões catastróficas para o país. Segundo cientistas que há décadas estudam o bioma, nessa região as raízes atuam como gigantescas esponjas, absorvendo as águas das chuvas e levando-as a recarregar os aquíferos, favorecendo a maioria dos grandes rios da América do Sul, Guarani, Urucaia e Bambuí alimentam desde as represas de São Paulo até o próprio Rio São Francisco.

Especialistas alertam que o incêndio que devasta agora o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, considerado o maior de todos os tempos, trará sérias consequências para o abastecimento dessas reservas subterrâneas. O caminho das águas vai das raízes esponjosas para os lençóis freáticos e desses para os aquíferos, num ciclo sem fim. Nesse caso e mais uma vez, os cientistas estão de acordo com a sentença: a destruição do cerrado significa a destruição dos rios em curto espaço de tempo, sendo que a reposição da vegetação original e diversa é tarefa impossível. A destruição da vegetação levou ao desaparecimento de abelhas e vespas nativas, fundamentais para o processo delicado de polinização das plantas, impedindo sua reprodução.

A situação alarmante teve início ainda nos anos 70, com a expansão das fronteiras da agropecuária sobre o cerrado. No caso da crise hídrica que afeta o Distrito Federal, a utilização das águas subterrâneas para a irrigação da lavoura no entorno da capital vem prejudicando a recarga dos aquíferos, o que agrava, ainda mais, a escassez de água na capital. Como na natureza tudo parece interligado em um sistema harmônico, a insuficiência na recarga de água dos aquíferos prejudica as próprias nascentes, que começam a desaparecer, uma a uma, num efeito em cadeia, o que compromete gravemente o abastecimento de córregos e rios.

A cada ano aumenta o número de municípios pelo interior que declaram situação de emergência por causa da falta de água. Este ano foram 872 nessa condição. O que os latifundiários do agronegócio não compreenderam ainda é que, com a destruição do cerrado, toda a atividade agropastoril desaparecerá junto. Nem a criação de caprinos será viável nesse cenário de destruição. Estamos todos, conscientemente, destruindo o chão sob nossos pés”. [Correio Braziliense, 20/10/2017 p. 11, Opinião].

Naturalmente, da mesma forma que certo movimento ecológico, também o jornalista conclui que “nós” somos os culpados dessa calamidade ambiental. Ou seja, não existem classes sociais, nem o latifúndio do agronegócio e a burguesia industrial que são donos do parlamento e controladores dos diferentes governos capitalistas que se sucedem. Fica sempre claro que a lengalenga do “cada um faz a sua parte” não morre facilmente, equalizando o dono dos meios de produção com o cidadão comum, despossuído.

Nem poderia ser diferente, já que todos os aparatos ideológicos do poder capitalista precisam, invariavelmente, dissimular os verdadeiros culpados pela alteração climática local e mundial [que promove secas sem precedentes como essa que se abateu sobre o centro-oeste e a Chapada] e também a responsabilidade social e ecologicamente criminosa dos donos do agronegócio.

A tragédia desse incêndio no maior bioma de cerrado do Brasil, e talvez do mundo, é mais uma demonstração escandalosa do quanto o capitalismo vem alterando o clima, ameaçando o planeta com todo tipo de devastação e barbárie, e sinalizando – para quem puder ver – que o custo social e ambiental do capitalismo pode vir a ser letal para a vida humana no planeta.

Nem o clima está mudando para pior por acaso e nem muito menos o agronegócio vai se conscientizar algum dia [como blefa o jornalismo liberal]. A verdade é que a permanência dos capitalistas, sua obsessiva acumulação do capital, vai nos trazer cenários humanos e de degradação da natureza, das águas, com cores ainda mais sinistras. É preciso por na pauta o debate crítico contra a delirante possibilidade de um suposto “capitalismo verde”. A lógica do capital é necessariamente destrutiva.

E a escolha política dos vários governos brasileiros, de assumirem a condição de sócio menor do imperialismo, de reprimarizar e desindustrializar o Brasil também necessariamente leva a cenários como esse que vive a Chapada dos Veadeiros e todo o bioma do cerrado. Que alguém aponte alguma saída que não seja o controle sobre os grandes devastadores. Alguma saída que não seja o confisco das multinacionais do campo e da cidade e seu controle e planificação pelas massas trabalhadoras. Tentem demonstrar o contrário. Tentem demonstrar que se a situação segue a dinâmica recente, nossa marcha não será para o abismo. Essa é a discussão que precisa ser incorporada pelo ambientalismo progressista, não-burguês, não oportunista.

O modelo do agronegócio tem que ser questionado até o a raiz. O modelo de produção de alimentos também: esse que se apoia nos venenos ambientais e na pecuária confinada, baseada em grãos e não em pastagens orgânicas.

É importante também o diálogo com o movimento verde mais simplista que sonhava em se refugiar em “santuários” como a Chapada, vivendo em suas comunidades isoladas do mundo do agronegócio, da exploração da classe trabalhadora, imaginando que existe, no mundo dominado pelo capital, algum canto onde se refugiar contra a crescente barbárie capitalista. Não existe. Ou existe cada vez menos.

O debate necessário deveria ser levado adiante pelo movimento sindical, pelos partidos que se proclamam de esquerda ou socialistas, que deveriam pautar ativamente a tragédia anunciada de Mariana [MG] e, agora, essa que está sendo a maior devastação ambiental da história do centro-oeste.

Sem que as organizações dos trabalhadores e seus partidos assumam esse debate em uma perspectiva realmente emancipatório o futuro é sombrio... A revolução proletária precisa voltar à pauta.

Sequer os incêndios que ciclicamente atacam a Chapada dos Veadeiros, a Chapada Diamantina, para citar apenas dois exemplos, são tema para o governo: na Chapada dos Veadeiros, as chamadas “brigadas de proteção” não contavam, previamente a esse incêndio, com mais de 28 funcionários, todos precarizados [contrato de 6 meses] e sem a menor condição de prevenir nada. Ou os movimentos ambientalistas sérios e os órgãos independentes dos trabalhadores reagem ou seguiremos nessa marcha insana e ecocida.

E, por último, mas não menos importante, já se sabe que esse incêndio veio quando estranhamente a época do auge dos incêndios naturais tinha acabado e nos marcos de uma bronca de proprietários agrários da Chapada, em litígio contra a ampliação da reserva natural da Chapada, decretada em julho por Temer. E, portanto, curiosamente, o incêndio – que parte da imprensa denuncia como criminoso, citando suposto motoqueiro com galão de gasolina na beira da estrada - veio a eclodir no bojo de um intenso litígio judicial contra a ampliação do Parque Nacional. Em meio à disputa por terras de parte de grandes tubarões e seus interesses escusos.

Mais uma vez a política, mais uma vez a luta de classes, mais uma vez a necessidade premente de que o movimento operário, os movimentos sociais e os partidos que se localizam à esquerda – inclusive o PSOL, que se declara socialista – passem a pautar e politizar esse debate, desenvolver propostas, lutar por elas, apontando para o alvo certo, o grande capital do campo e da cidade.

[Crédito: Foto de Cristiano Borges site O Popular de Goiânia]




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