Teoria

Capitalismo absoluto

Daniel Bensaid, em um dos seus últimos livros, La sonrisa del fantasma, argumenta que a sociedade capitalista foi mercantilizada por todos os poros, que a lógica da mercadoria foi globalmente levada até o fim, seu despotismo reina amplamente, portanto estamos diante do “capitalismo absoluto”.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 31 de dezembro de 2016| Edição do dia

FOTO: The Guardian

Qualquer um de nós pode constatar essa realidade no cotidiano: o capitalismo, ideológica, econômica e “fisicamente” domina todas as esferas da vida, seja direta ou indiretamente [neste a caso através de formas fetichizadas como a ideologia, passando pela religião, pelas diversificadas formas de alienação] e esses elementos, de conjunto, nos marcos de situações não-revolucionárias, onde os oprimidos são hegemonizados pelo discurso do opressor, de que tudo que ele faz é para o seu bem, o resultado final é que prevalece uma relativa passividade na luta de classes.

Na raiz de tudo temos o problema de que os meios de produção estão fora do alcance da classe trabalhadora, estão sob posse daquela mesma poderosa minoria que dirige o Estado e os aparatos ideológicos do poder.

A iniquidade, por conta disso, é inesgotável, a maldade social, a opressão e a injustiça reinam, “o crime compensa”. E, do outro lado do balcão, o desalento, as chamadas “estratégias defensivas” [como as chama Christophe Dejours] se desenvolvem no cotidiano da massa que vive do trabalho, cada um e cada membro da família, buscando sua forma de se manter vivo, sobrenadando, flutuando sem encontrar seu horizonte mais autenticamente humano.

Não por acaso, das três drogas mais vendidas nos Estados Unidos, duas delas são psicotrópicos e antidepressivos. O alcoolismo se alastra em todas as camadas socais. E o horror de perder o emprego já precário, ou de vir a ser lançado na vala comum da miséria ou de ter seu salário atrasado e dividido em não sei quantas parcelas como ocorre com professores e outras categorias no Rio de Janeiro, são temores e sofrimentos reais das grandes massas no dia-a-dia. Tudo isso em uma sociedade onde os ricos vivem melhor que nunca, onde a concentração de renda chega a níveis jamais pensados, onde o capitalismo absoluto e global sufoca a classe trabalhadora [empregada ou desempregada] de maneiras inimagináveis, e as guerras tomam conformações absolutamente reacionárias, ceifando massivamente vida de crianças e adultos inocentes como na Síria. Saúde, água, educação, mobilidade urbana e até velhice e morte são mercadorias. Quanto à honra há muito – tanto na casta política, judicial, como nas elites estatais de todo tipo – é objeto de compra e de venda.

Em suma, tudo obedece à lógica da mercadoria, a própria informação circula na condição de mercadoria [com privatização da mídia, das telecomunicações], o espaço urbano com lazer e condomínios privatizados, a caridade transformada em outro grande negócio, a aposentadoria, os órgãos do corpo humano, a propriedade intelectual, dos genes, da terra, solo, águas, também os ares [com o direito privado de poluir, as “cotas de carbono” etc]. O fato é que chegamos, passo a passo, àquilo que Bensaid chama de um mundo “antropológica e ecologicamente inabitável” e com a “anemia da cidadania e a miséria da participação democrática”. Ou o que H. Arendt chamou de governo como representação vazia de conteúdo [de massa] ou como algo que se aproxima muito mais de um teatro, uma opereta. A “vida democrática no capitalismo reduzida a um teatro de sombras”, no dizer de Bensaid.

O planeta Terra vem sendo francamente demolido, com incessante escalada tóxica lançada sobre os ares, as águas e impregnando tudo que se planta e tudo que se come, lado a lado com a elevação incontrolável das taxas globais de câncer, o que tem tudo a ver.

A expectativa de vida aumentada, sobretudo na classe rica, também em alguns setores pobres, vem sendo acompanhada do amargo sabor de uma velhice cara, amplamente medicalizada, dependente de drogas tóxicas de uso continuado e sendo que boa parte dos que vivem muito, passam seus últimos dez ou vinte anos de vida com problemas de memória, Alzheimer, degradação biológica de todo tipo.
Nessa esfera da saúde pública, por sua vez, a indústria do câncer ganha montanhas de dinheiro, a acumulação do capital nesta esfera – assim como na indústria bélica e de segurança – é intensíssima. Ambas lidando massivamente com a morte e com o sofrimento diretamente como mercadorias e com os humanos como se fossem descartáveis. A indústria das armas, a narcoeconomia e o negócio com diagnóstico de imagem ionizante e tratamento do câncer estão nas alturas. Enquanto isso, a taxa de morte pelo câncer não declina nem com toda essa medicalização e sofisticação do tratamento [tratamento que mais se assemelha a um corredor polonês caríssimo e terrível, como é evidente nas suas sessões de quimioterapia e radioterapia]. Essa realidade percorre todo o capitalismo, do Brasil aos Estados Unidos, onde a real prevenção da saúde, umbilicalmente vinculada ao meio ambiente, fica anos luz aquém do negócio da doença.

A “modernidade capitalista” como a “democracia da eficiência” de Temer ou os regimes xenófobos e fundamentalistas à semelhança dos da França e Estados Unidos, mal escondem seus traços totalitários, de exclusão, de regimes políticos abertamente plutocráticos: como nunca, a democracia capitalista não passa de democracia dos ricos, ou do capital nas palavras clássicas de Lenin.

Carnificinas como a do Congo [seis milhões de mortos apenas nos últimos anos] e a da Síria são guerras de extermínio puro e simples. Carnificinas banalizadas por todos os governos, por toda a grande mídia e, no final, de contas, por toda a esquerda que domina os aparatos sindicais: não se ouve falar em uma só greve, organizada por uma única central sindical para deter a máquina de guerra do seu país que bombardeia o povo árabe há anos, por exemplo. É a cara da barbárie capitalista, a face macabra da iniquidade ampla e irrestrita. Da banalização do mal em todas as modalidades possíveis.

Em tudo isso e em todos os quadrantes estamos diante da mal disfarçada violência do capitalismo, e mais que isso, instituída COM ou SEM revolução. Com ou sem “Guerra Fria”. Violência que espirra das entranhas e da própria natureza do sistema do capital. O Brasil obviamente não escapa: quem não sabe que amargamos uma guerra civil silenciosa nas estradas com seus 30 mil mortos anuais; e na violência urbana, com outro tanto de mortos a cada ano? E a mortandade dentro e fora dos hospitais por doenças superadas, tipo tuberculose, sífilis, lepra, doenças transmitidas por mosquitos? E agora um governo golpista desmantelando os já precários direitos sociais e trabalhistas?

Em outras palavras, seja em situações extremas, tanto quanto na “banalidade da violência cotidiana, nossas sociedades civilizadas são capazes de crueldades inéditas e de barbáries antes insuspeitas” no argumento de Bensaid.

O capitalismo é a banalização da violência iníqua, injusta e implacável.

Portanto a revolução social deve ser parte imperiosa da hierarquia dos povos.
Certamente que os ideólogos da ordem falam que toda revolução é violenta. Pois bem, o mais superficial dos observadores pode enxergar a partir daquela outra perspectiva: com ou sem revolução, a violência borbulha todos os dias, todas as horas, inscrita que está na lógica profunda de nossas sociedades iníquas e injustas.

Longe de favorecer seu desaparecimento, os progressos científicos e técnicos contribuem para massificar e racionalizar essa violência, como já nos alertava W. Benjamin. Esses são os tempos da barbárie do capital. Reacionária em toda linha.
Por outro lado, historicamente, nos processos revolucionários que tentaram por fim a tal iniquidade, processos necessários e justificados política e historicamente, suas mortes em luta nem se comparam ao custo social da simples existência do capitalismo. O capitalismo não cede passagem à justiça e à paz social. Por isso mesmo, a resposta à violência do capitalismo gera uma reação do sistema, invariavelmente, e deste confronto emerge uma violência que, de longe, é menor que a incessante demolição de homens e mulheres perpetrada pelo sistema.

Com a palavra D. Bensaid : “a tomada da Bastilha e a insurreição de agosto de 1792 foram infinitamente menos sangrentas que as guerras contrarrevolucionárias declaradas pela Santa Aliança. A Comuna de Paris foi menos violenta que sua reação versalhesca; a insurreição de Outubro [Rússia] menos que a intervenção estrangeira e a guerra civil imposta; a República dos conselhos da Bavária, menos que as matanças executadas pelos corpos armados de Noske e Ebert etc etc [...] Quem poderá avaliar o que custou à Europa e ao mundo as revoluções alemãs vencidas em 1918 e 1923?”. E a lista é interminável.

E a conclusão, tirada inclusive por Albert Einstein após a II carnificina mundial, segue de pé; dizia ele – no primeiro número da revista Monthly Review - que “existe somente um caminho para eliminar esses graves males [do capitalismo], o estabelecimento de uma economia socialista” na qual se organize o sistema educacional para metas sociais e onde os “meios de produção sejam possuídos pela sociedade e utilizados de uma forma planificada”; ao mesmo tempo em que o mesmo Einstein alertava para os riscos de sua burocratização, já que a economia planificada, dizia, não é ainda o socialismo.

De toda forma, ele não via saída no capitalismo, com sua concorrência ilimitada e conduzindo o mundo a depressões cada vez mais sérias.

A verdade do nosso tempo é que a civilização do capital está historicamente esgotada. Sua implacável lógica de funcionamento, de defesa de privilégios para o capital, de concentração de renda, somente nos pode oferecer mais do mesmo ou pior do mesmo. A era do imperialismo decadente só pode ser a era da mortandade e da marginalização das maiorias, sempre em benefício dos donos do banquete e em benefício de sua pornográfica ostentação. Banquete e pornográfica ostentação cujo custo social a humanidade pode não aguentar, humanidade e planeta, umbilicalmente vinculados. A acumulação do capital afronta os limites ecológicos da biosfera.

A conclusão é clara, para Bensaid: ”O ´capitalismo absoluto´ leva até seu extremo a lógica da mercadoria da qual Marx vislumbrou as consequências macabras. A luta contra o (mau) espírito do capital é por isso mais atual que nunca”.
E deve ser tão tenaz e tão persistentemente estratégica como tem sido persistente e extraordinária a vitalidade e instinto de sobrevivência do próprio sistema.
Estratégia cuja fonte de inspiração passa pela recuperação das lições da Revolução Russa, o grande debate que temos que promover em 2017, nos seus 100 anos. Estratégia que passe pela apropriação crítica da experiência do século XX: o socialismo tem que ser fundado na democracia dos trabalhadores, na sua ditadura proletária ou então não vingará como socialismo.

Ou em outras palavras, o capitalismo, e seu agudo senso de sobrevivência só pode ser vencido por uma estratégia que não se deixe enredar pela burguesia e sua sombra, por “frentes populares” onde a classe trabalhadora e seus órgãos de classe fiquem reféns dos falsos socialistas e bonapartes de todo tipo; em vez disso, que seja uma estratégia que, fundada no chão de empresa e de fábrica, na democracia proletária, organize a essas forças imbatíveis dos trabalhadores para assestar em um país, em seguida em outros, o golpe vitorioso da revolução social e saia vitoriosa do embate. Vitória que somente pode vingar, contra o “capitalismo absoluto”, se temos o proletariado como sujeito político absoluto e aliado das massas pobres do campo e da cidade.




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