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Candidato do PT firma acordo contra legalização do aborto e “ideologia de gênero” para ganhar apoio cristão

Fazendo coro com a direita, Dimas Gadelha, candidato a prefeito do PT na cidade de São Gonçalo, se posicionou contrário à legalização do aborto e outros pontos fundamentais que sustentam institucionalmente a opressão contra as mulheres, negras e LGBTs e vão contra a histórica luta internacional das mulheres pelo direito de decidir pelo próprio corpo. Direitos como esse são rifados em nome da governabilidade e do pacto com o Estado burguês.

terça-feira 24 de novembro de 2020| Edição do dia

No município de São Gonçalo, o segundo maior do estado do Rio de Janeiro, ocorrerá uma disputa de segundo turno entre um candidato bolsonarista do avante, capitão Nelson, e um candidato do PT, Dimas Gadelha. Nesta disputa o capitão Nelson, ex-oficial da polícia militar, tenta mobilizar o apoio dos setores mais conservadores a partir do já batido discurso reacionário do bolsonarismo, que ataca mulheres, negros e minorias, tentando reviver todo arsenal de mentiras e boatos que já foi usado na campanha de Bolsonaro em 2018. Ao se ver atrás nas pesquisas eleitorais, sua campanha intensificou o reacionarismo, distribuindo materiais em que afirmava que o PT era "a favor do aborto da ideologia de gênero e da doutrinação nas escolas".

No entanto, longe de polarizar com essa campanha ultrarreacionária, na verdade o partido dos trabalhadores fez coro com ela. Seguindo a mesma trajetória de seu partido, que em outros lugares chegou a fazer frentes com bolsonaristas, o candidato Dimas Gadelha assinou no último dia 18 uma carta destinada à igreja cristã da cidade se comprometendo a, caso eleito, ser contrário à legalização do aborto e à “ideologia de gênero” e “doutrinação” nas escolas. Na carta ele diz: “Eu, Dimas Gadelha, católico, candidato a prefeito na cidade de São Gonçalo, venho através dessa carta, firmar meu compromisso com os valores defendidos por Deus, pelo Evangelho, pela família [...]”; ao ler isso, podemos pensar que se trata de um texto escrito por uma figura da extrema direita, no entanto esta é uma carta de um integrante do PT, partido que diz estar ao lado da luta das mulheres, mas que historicamente firma acordos com a base religiosa conservadora que ataca diretamente este setor.

É um brutal ataque às mulheres, que no governo Bolsonaro, que conta com a emblemática Damares Alves, em meio a um ascenso do reacionarismo, que comete atrocidades contra os trabalhadores e a população oprimida, como o escandaloso caso da menina de 10 anos, grávida, vítima de anos de estupro por parte do tio que foi perseguida e atacada pela extrema direita cristã liderada por Sara Winter, por realizar o procedimento do aborto previsto pela lei, um candidato membro do PT se posicione contra direitos básicos, parte da luta histórica das mulheres, se apoiando em visões individuais, em nome de ter o apoio de setores religiosos para poder ser eleito.

A luta pelo direito ao aborto também foi abandonada em acordos com as Igrejas e a bancada fundamentalista nos 13 anos de governos petistas, que, mesmo quando contou com uma mulher na presidência, nunca legalizou esse direito. Pelo contrário, Lula selou o acordo Brasil-vaticano e Dilma escreveu uma “Carta ao povo de Deus”, na qual afirma que quer manter a legislação atual que criminaliza o aborto, sendo pessoalmente contrária a esse direito.

Segundo dados do Ministério da Saúde, todo os anos ocorrem no país 1 milhão de abortos induzidos. Desse total, 250 mil mulheres acabam hospitalizadas devido a procedimentos inseguros durante a interrupção voluntária da gravidez. Na sua grande maioria são mulheres negras e pobres, pois são as mulheres que não podem pagar por procedimentos em clínicas de alto custo que dentro da ilegalidade são as mais “seguras”. As estatísticas revelam que o aborto clandestino é a quarta causa de morte materna em nosso país e é realizado, em sua maior parte, por mulheres que já tiveram filhos (67%) e declaradamente ligadas a uma religião (56% católicas e 25% evangélicas).

Como já escrevemos aqui Estado e Igreja são assuntos que não devem se misturar, a igreja é a instituição que cumpre um dos principais papéis na manutenção da opressão contra a mulher, garantindo uma sustentação bastante fundamental ao pleno funcionamento do capitalismo. Por isso devemos nos inspirar na maré verde Argentina e lutar pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito, a educação sexual nas escolas e contraceptivos gratuitos, contra a ridícula campanha de abstinência sexual de Damares Alves, lutando pela separação da igreja e do Estado pela libertação das mulheres das amarras do patriarcado.




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