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PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Cais do Valongo declarado Patrimônio Mundial: monumento da barbárie que tentaram apagar

No último dia 9 de Julho, o Cais do Valongo foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. O Cais foi redescoberto em 2011, em obras de reforma da região – a sua candidatura à patrimônio mundial foi protocolada em 2014.

Carolina Cacau

Foi candidata a vereadora do MRT pelo PSOL em 2016, é estudante da UERJ, membro do Centro Acadêmico de Serviço Social e professora da rede estadual

segunda-feira 10 de julho| Edição do dia

Foto: Luiz Souza/SuburbioRJ

O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer.

(Walter Benjamin. Teses Sobre o Conceito de História, 1940.)

O Brasil é o maior país negro fora da África. Aqui aportaram cerca de 4 milhões africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX. Por volta de 60% desses escravizados chegaram à Colônia, depois ao Império, através do Cais do Valongo. O contato do Cais do Valongo com seus pés, arrancados à força de sua terra, foi o primeiro com as novas terras desses escravizados. Muitos morreram durante a escravização no continente africano, nas feitorias, na travessia do Atlântico. Também após aportarem em terras novas, ao lado do cais, onde erram enterrados em valas comuns no Cemitério dos Pretos Novos.

O Cais do Valongo simboliza profundamente o esforço das elites políticas em apagar a história do povo negro. Foi soterrado com asfalto pela reforma urbanística de Perreira Passos em 1911 que tinha como um de seus objetivos expulsar a população negra e pobre do centro do Rio e destruir as referências à cultura negra. Mas, em 1843, foi nome foi reformado para receber a futura Imperatriz, e o local passou a se chamar Cais da Imperatriz.

O cinismo das autoridades

Em nota oficial, o governo Temer afirmou que o Cais “remete a um dos mais graves crimes perpetrados contra a humanidade, a escravidão” e se disse “satisfeito” com a notícia. Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro celebrou a noticia em seu Instagram. Trata-se de do mais alto grau de cinismo e demagogia. O circuito “pequena África”, que abarca o Cais do Valongo, o Cemitério dos Pretos Novos, a antiga alfândega e arredores, já vinha sofrendo com falta de verba na prefeitura de Paes e hoje enfrenta profundo descaso da prefeitura.

O governo Temer, que fechou a Secretaria de Promoção e Igualdade Racial, tem como único motivo de existência a implementação das reformas trabalhistas e previdenciária que, caso aprovadas, afetarão profundamente a população negra brasileira, que tem os índices de expectativa de vida e ocupam os cargos mais mal remunerados e insalubres.

O racismo é parte integrante e fundamental do capitalismo. A casta parasita de políticos burgueses trata de manter a ordem capitalista. No Brasil, e em todos os países onde há negros, isso significa reprimir brutalmente a população negra. Paes posta foto no Instagram mas sob seu comando a PM do Rio e UPP assassinaram milhares de negros, em sua enorme maioria jovens, roubando seu direito ao futuro.

Honrar a história dos nossos antepassados!

Os pés que tocavam o Cais do Valongo, assim como os demais escravizados, articularam resistência à sua escravização de diversas maneiras. O Cais simboliza essa parte dessa força. Se rebelando no cotidiano do trabalho, fugindo, organizando quilombos, locais de manifestação religiosa, rodas de capoeira, entre tantas outras formas de resistência apavoravam as elites e a nascente burguesia local, pois colocava em xeque toda a estrutura escravista.

O título de Patrimônio Mundial do Cais do Valongo valoriza a memória dos escravizados, e se dá em uma situação política e social de profundas transformações na maneira como se entende o racismo no Brasil, sendo cada vez mais difícil amenizar seus efeitos profundos ou até mesmo negar sua existência.

A luta contra a escravidão fez parte da vida dos escravizados. A burguesia e as elites seguem dirigindo um país profundamente racista. É necessário arrancar o controle político de suas mãos e colocá-lo em nossas, em um combate anticapitalista e antirracista.

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