Teoria

NOVO LANÇAMENTO ISKRA EDITORIAL

Brasil: ponto de mutação - um livro vermelho

Acaba de sair pelas Edições Iskra uma coletânea de artigos teóricos e críticos escritos pelo grupo de jovens autores marxistas que está à frente do semanário Ideias de Esquerda – suplemento teórico que sai aos domingos no portal Esquerda Diário.

terça-feira 7 de maio| Edição do dia

Acaba de sair pelas Edições Iskra uma coletânea de artigos teóricos e críticos escritos pelo grupo de jovens autores marxistas que está à frente do semanário Ideias de Esquerda – suplemento teórico que sai aos domingos no portal Esquerda Diário.

Organizado por Edison Urbano, mestre em História Social pela PUC-SP e graduado em engenharia pela Escola Politécnica da USP, o foco do livro recai nas eleições de 2018 – as mais manipuladas da história recente. Como anunciado no título, trata-se da crise do regime de 88, captada pelos articulistas num momento de grande expressão, conjugando teorias como bonapartismo, tomada de Trotski, e crise orgânica, emprestada de Gramsci, entre outras, e introduzindo uma leitura original do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff no Brasil ao qualificá-lo de golpe institucional. É também bastante original – além de precisa – a caracterização dada ao regime que marcou o último período no Brasil: bonapartismo judiciário. Antes de ser parlamentar, como querem alguns, ou “clássico”, como gritaram aqueles que depois deram legalidade às eleições que levaram Bolsonaro ao poder, o golpe ocorrido no Brasil na esteira da queda da presidente transferiu para as mãos do judiciário – STF à frente – o comando do Estado.

Graças à seleção e à organização cuidadosas de Urbano, assim como ao conjunto dos autores, os artigos não estão ligados simplesmente por uma temática comum, tampouco se sucedem cronologicamente – como sabemos, os tempos, em períodos como os que vivemos, nem sempre correspondem a um dia após o outro. Antes, contam, como se anuncia logo no sumário, uma história em três partes: a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República, os atores ocultos que influíram no processo e os focos de tensão, hoje chamados por alguns setores da esquerda de “cortina de fumaça”.

Por isso é tão importante não só as análises desenvolvidas em cada parte do livro, que por si só já fariam as vezes de útil documento histórico, como o é o quadro completo que oferecem. O conjunto dos artigos traz duas narrativas sem desenlace: a primeira, a posteriori, dos três atos do teatro macabro que foram as últimas eleições; a segunda, do porvir, bastante incerto, é verdade, que emerge como projeção daquilo que foi e do que diante dos nossos olhos acontece.

O posfácio do sociólogo argentino Matías Maiello, que assina ao lado de Emílio Albamonte a autoria de Estratégia socialista e arte militar, a ser lançado em breve pela Iskra, traz a necessária contextualização da crise brasileira no cenário maior da crise internacional e com a fundamental perspectiva da luta de classes, especialmente como esta se desenrola na França.

É também de Urbano o texto que encerra o livro, no apêndice, assim como o seu texto de abertura. Os títulos de ambos são perguntas instigantes que nos coloca o autor: “Regime em ponto de mutação?” é a primeira; “Qual caminho, para qual resistência?”, a segunda. A resposta à primeira é indefinida devido à sua própria natureza, já que o processo possivelmente se desenha aos nossos olhos neste exato momento; a segunda remete a um debate de estratégias que só adquire cada vez mais importância. Nesse sentido, ou seja, para dar uma resposta ao “enigma da esfinge” a nos estrangular, as reflexões contidas em cada um dos artigos são pistas valiosas.

Simone Ishibashi, pesquisadora de economia política e internacional, aborda com profundidade a influência da guerra híbrida e das fake news nos rumos do pleito; o sociólogo Iuri Tonelo detém seu olhar sobre o bolsonarismo no artigo “Ação e reação”, enquanto Daniel Matos analisa em seu artigo “Bonapartismo ou fascismo” a natureza desse regime. Dois dos aspectos mais decisivos na dinâmica atual da situação são analisados pelo historiador Thiago Rodrigues, que aborda o papel dos “militares fora dos quartéis”, e pelo cientista político André Acier, que antecipa o controle do Judiciário sobre Bolsonaro.

Num contexto em que os direitos estão sob constante ataque, Odete Cristina compara o papel da resistência das mulheres contra Bolsonaro ao fenômeno que ocorreu nos EUA no dia seguinte à eleição de Trump; enquanto os professores Danilo Magrão e Mauro Sala examinam os desatinos do “Escola sem Partido”. É também nesse âmbito que a socióloga Fernanda Montagner descreve as contradições entre o bolsonarismo e o papel estrutural da burocracia nos sindicatos; que o pesquisador de literatura, teatro e psicanálise Fernando Pardal trata do papel da questão LGBT nas estratégias eleitorais; e que Daniel Alfonso, historiador e organizador do livro Questão negra, classe operária e marxismo no Brasil, analisa a eleição de Bolsonaro como um “choque à direita” nas relações raciais no Brasil.

O projeto gráfico do multiartista Juan Chirioca é um capítulo à parte. Em fino diálogo com o conteúdo, cada artigo é anunciado em sua página de abertura por imagens de diversos artistas gráficos, enquanto a capa é a síntese perfeita do regime que se transforma, com o mérito adicional de causar incômodo aos nossos olhos acostumados às tintas carregadas da polarização, algumas vezes acrítica e certamente redutora, que marca nossos tempos.

O livro já está à venda na Casa Marx livraria, em frente ao Metrô Vila Madalena, das 12h às 18h, no valor de R$ 25,00. Mais informações, você encontra na página da livraria no Facebook, ou com a equipe do Esquerda Diário, também via Facebook..




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