VIOLÊNCIA POLICIAL

Brasil bate recorde de mortes violentas, e só as provocadas pela polícia aumentam em 20%

“Anuário Brasileiro de Segurança Pública” aponta que 14 pessoas são mortas pela polícia por dia.

quinta-feira 9 de agosto| Edição do dia

Com o aprofundamento da crise econômica por que passa o Brasil, os índices de violência, sobretudo nas grandes cidades, têm aumentado a níveis alarmantes. Para se ter uma ideia, houve um aumento de 8% nos causos de estupro e de 6,1% nos de feminicídio. No que se refere aos assassinatos, houve um crescimento de 2,9%; e no que tange especificamente aos assassinatos cometidos pela polícia, o aumento foi de 20,5%: foram mortas 5.144 pessoas a mais por policiais civis e militares, em serviço ou não, em relação a 2016.

O Anuário é elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – uma organização sem fins lucrativos – e reúne dados das polícias de todos os estados brasileiros. Na falta de iniciativa semelhante por parte do Estado, mais ocupado em assassinar do que em contar o número dos seus mortos, o documento é utilizado como fonte oficial. O presidente da ONG explica ao site G1 esse fato como sendo decorrente das “novas dinâmicas do crime organizado”, da política de segurança pública, “que tem feito várias vítimas” e dos “erros do sistema prisional”. Mais que um diagnóstico, Renato Sérgio de Lima identifica o que são apenas sintomas, decorrentes do conjunto de ataques do Estado para fazer com que os trabalhadores, a juventude e o povo, sobretudo os pobres e negros, paguem pela crise, nem que seja por meio do extermínio.

Não surpreende em nada que o Rio de Janeiro seja, também por conta da intervenção federal, o estado brasileiro em que a polícia mais matou: 6,7 para cada 100 mil habitantes. O Rio é seguido pelo Amapá, com taxa de 6,6, e por Pará e Acre, cada um com 4,6. Também não é à toa se, por um lado, a polícia matou mais, ao passo que, por outro, morreu menos: são os já citados 20,5% de aumento contra uma queda de 4,9% no número de policiais mortos, em serviço ou não.

Como bem identifica Simone Ishibashi em sua reflexão sobre se seria a polícia uma aliada dos trabalhadores nas greves de servidores da Saúde e da Educação do Rio de Janeiro em 2016: “a função da polícia é proteger a propriedade privada, os capitalistas e sua ordem […]. Sua função social, portanto, é a manutenção violenta da ordem elaborada em prol dos ricos, contra os trabalhadores e os pobres. Não ensinam, como os professores, não salvam vidas, como os trabalhadores da Saúde. O ‘produto’ do seu trabalho, sobretudo em grandes cidades como o Rio de Janeiro, é bem explícito: crianças, mulheres, trabalhadores e jovens negros e pobres humilhados cotidianamente e assassinados.”

Assim, não é por acaso que à medida que a crise orgânica se aprofunda, sem sinais de resolução e às portas de uma eleição que já começa fraudada, os números só aumentem, chegando, no caso do Rio Grande Norte, a escandalosos 111% a mais de pessoas mortas pela polícia em 2017 quando se confronta com as taxes 2016.

Tendo isso em vista e num contexto em que um partido político como PSOL abre as portas para policiais, é salutar retomar as palavras de Leon Trótski durante os anos de 1930, quando o revolucionária respondia em seu “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” ao argumento da social-democracia de que a repressão policial deixava de ser um problema na medida que militantes seus entravam para polícia. Como bem sintetiza Trótski: “[...] um trabalhador que entra para a polícia deixa de ser um trabalhador, passa a ser um agente fardado da burguesia”.

Nesse sentido, cabe perguntar: se um trabalhador que entra para a polícia passa a agir a serviço da burguesia, o que dizer de agentes fardados da burguesia sendo estruturados como militantes de um partido político de esquerda? Naturalmente, eles não se despem da farda tampouco da ideologia burguesa, como num passe mágica, como parece oportunamente acreditar o PSOL, especialmente no Rio de Janeiro.

Por isso mesmo é oportuno lembrar que a morte brutal de Marielle Franco, vereadora do PSOL na cidade do Rio de Janeiro, não só não foi devidamente esclarecida como, ainda, as investigações estão nas mãos dessa corporação criminosa, corrupta e assassina, como mostram os números da pesquisa.

Ainda não há números oficiais que avaliem esse primeiro semestre de 2018, mas a tomar pela situação que se apresenta aos nosso olhos, com claro crescimento da violência policial, o Estado brasileiro está rumo a um novo recorde. E cada um de nós, da classe trabalhadora, da juventude, mulheres e homens negros, tem um alvo apontado para sua testa, e essa constante ameaça cresce a cada novo episódio da continuidade do golpe e seus desdobramentos com cada nova ação do Judiciário e sua casta política.




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