Educação

Bolsonaro quer acabar com escolas presenciais para "combater marxismo"

Jair Bolsonaro mostra mais uma vez que não entende nada sobre a realidade do nosso país e tão pouco sobre educação: seu grotesco projeto para educação passa por acabar com a escola tal como conhecemos hoje e oferecer ensino a distância em todas as modalidades (ensino básico, médio e superior), alegando que hoje os pais preferem educar e alfabetizar seus filhos em casa, deixando-os, assim, "longe do marxismo".

Grazieli Rodrigues

Professora da rede municipal de São Paulo

quarta-feira 8 de agosto| Edição do dia

Foto: Sergio Lima/Bloomberg.

Uma educação a distância desde o ensino fundamental abrangendo também o médio e o universitário, evidentemente em defesa da Escola sem Partido e declaradamente contra a liberdade de escolha e o pensamento crítico da juventude: foi assim que Jair Bolsonaro, presidenciável do PSL, se posicionou a respeito da educação que pretende oferecer no Brasil, se eleito.

"Com o ensino a distância você ajuda a combater o marxismo. E você pode começar a fazer o ensino a distância uma vez por semana. Você ajuda a baratear o ensino no Brasil". Se mostrando inclusive mais preocupado com a redução dos investimentos em educação, que hoje já são completamente insuficientes, do que com a qualidade da formação das crianças e jovens, Bolsonaro segue escancarando sua ignorância quando afirma que o problema da educação no Brasil é o marxismo, expressando mais de uma lógica de pensamento de quem não sabe nada sobre o que é a escola - muito menos o marxismo - e fazendo coro com os setores da Direita defensores de uma Escola sem Partido que na prática é uma escola sem pensamento crítico, sem liberdade de expressão e a expressão mais óbvia do que é uma doutrina, moldada pelos padrões militares e religiosos.

O problema da educação nunca foi e nunca será o marxismo, primeiro porque uma escola que se dê a tarefa de apresentar aos estudantes uma visão ampla de mundo, lhes oferecerá contato não só com essa importante teoria, mas também com todas as outras correntes do pensamento, mas na prática o que acontece é que os estudantes não tem contato nem com marxismo ou qualquer outro método de pensamento, apenas os já difundidos pela ideologia dominante. Na contramão disso, a escola pública oferece aos jovens e crianças uma completa desestrutura que, para formar a mão de obra barata mais barata do mercado, diga-se de passagem, sucateia das crianças e dos jovens um direito que deveria ser garantido, de uma educação pública e verdadeiramente de qualidade.

Falta professor, material didático e até papel higiênico nas escolas, os estudantes se amontoam em salas lotadas e a saída para esse problema só é possível por um caminho oposto ao que oferece Bolsonaro.

Sabemos que a realidade dos estudantes da escola pública está longe do que propõe Bolsonaro quando questionado sobre a oferta do ensino à distância: “Pode ser para o ensino fundamental e médio, até universitário. Todos a distância...”.

Educadores, pais e estudantes, nós que somos parte da escola pública sabemos que isso é inviável, primeiro porque no Brasil boa parte dos trabalhadores não só não poderiam educar e alfabetizar seus filhos em casa porque são trabalhadores com jornadas exaustivas de trabalho que tira das famílias inclusive o direito a maternidade e a paternidade, como também porque grande parte dessas mães e pais sequer tiveram acesso à educação básica ou quando tiveram não puderam concluir seus estudos, logo não poderiam oferecer eles mesmos a seus filhos uma educação que também lhes foi negada.

A proposta de Bolsonaro bebe na fonte de reformas como a do ensino médio, pensada à luz da Reforma Trabalhista para desde a escola preparar os jovens para o trabalho precário que os espera, inclusive ambas foram das primeiras aprovadas no pacote de maldades do governo do golpista Michel Temer (PMDB), que aprovou também uma PEC que congelou os gastos da educação e da saúde por 20 anos, dessa também não nos esquecemos, muito pelo contrário, sentimos na pele todos os dias o desmonte de nossas escolas através do cortes de gastos. A BNCC que Temer quer aprovar é também mais um documento pra nivelar por baixo esse ensino precário do fundamental ao médio e que vê com muito bons olhos a educação à distância que valoriza Bolsonaro, isso porque é mais de uma política entreguista que quer dar de bandeja nossa escola pública pras mãos de monopólios de ensino como a Kroton Anhanguera e o Grupo Somos gigantes imperialistas no mercado da educação, nos moldes de Donald Trump por quem Bolsonaro tem grande admiração.

A contradição que não podíamos deixar de apontar é que esses monopólios se fortaleceram nos anos de governo do PT que ofereceram acesso ao ensino superior pra uma parcela gigantesca da juventude que sem suas políticas não teriam de fato ingressado na Universidade, no entanto isso não se deu pela via de ampliar as vagas nas Universidades estaduais e federais, mas sim enriquecendo esses monopólios que já citamos.

Não nos enganemos nem por um instante, a resolução do problema da educação só poderá se dar primeiro pela revogação imediata da PEC dos 20 anos, da Reforma do Ensino Médio e da Reforma Trabalhista, e também tirando todo dinheiro que vai para o bolso dos empresários da educação que seguem enriquecendo enquanto oferecem um ensino superior de péssima qualidade para nossa juventude e assim querem fazer com o ensino médio, transferindo todo esse capital em forma de investimento para melhoria e reorganização das escolas e universidades públicas, para que não falte estrutura, materiais e professores, com garantia de acesso à todos que queiram estudar.

Isso só é possível com um governo oposto pelo vértice ao de Temer ou de candidatos como Alckmin (PSDB) e Bolsonaro, assim como qualquer outros que não se comprometam com o fim do pagamento da dívida pública que saqueia os trabalhadores e seus filhos e filhas na medida em que toda política de austeridade se dá em detrimento se manter o país na mais profunda submissão ao imperialismo enquanto enriquece os grandes monopólios capitalistas.




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