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Bolsonaro Filho tenta criticar Karl Marx com fake news e livros mentirosos

Em recente sessão da Câmara dos Deputados, a qual integra a patética figura de Eduardo Bolsonaro, policial federal e filho de Jair Bolsonaro, ensaiou uma crítica a Karl Marx no ano em que se comemora o bicentenário do revolucionário alemão. O resultado foi um atroz espetáculo de afirmações fundamentada em livros que distorcem a história, trazem dados falsos e todas mentiras reacionárias para atacar o comunismo e toda ideia de liberdade.

quarta-feira 13 de junho| Edição do dia

Em recente sessão da Câmara dos Deputados, a qual integra a patética figura de Eduardo Bolsonaro, policial federal e filho de Jair Bolsonaro, ensaiou uma crítica a Karl Marx no ano em que se comemora o bicentenário do revolucionário alemão. O resultado foi um atroz espetáculo de afirmações fundamentada em livros que distorcem a história, trazem dados falsos e todas mentiras reacionárias para atacar o comunismo e toda ideia de liberdade. Argumentos dignos de uma corrente de WhatsApp mal feita, elaborada por um blogueiro de direita de quinta categoria.

Além de render inúmeras pérolas, o breve - porém profundamente perturbador - discurso do parlamentar nos dá uma janela interessante, não só para o “funcionamento” de sua mente, como para o conjunto dos argumentos mais vulgares que a direita usa para atacar o comunismo (todos, previsivelmente, tão eficazes quanto um balão de chumbo).

Bolsonaro começa seu discurso com uma ode a ninguém menos que Olavo de Carvalho, a quem ele chama de “maior filósofo brasileiro vivo” (sic), e prossegue pra uma citação de seu livro. A partir daí dá-se o tom de uma prosa tragicômica em seu nível de ignorância histórica. Ele repete um dos “argumentos” mais previsíveis vindo dele, o de que “o comunismo matou 100 milhões de pessoas”, que falha em vários níveis.

Primeiramente, na citação que ele lê, Olavo de Carvalho fala em “100 milhões de dissidentes”. Isso é notável porque além dessas cifras exóticas serem, famosamente, falaciosas (a fonte mais creditável dada é o Livro Negro do Comunismo, onde o título fala por si só) a ideia de “dissidente” implica que os mortos seriam todos inimigos do regime, executados a mão, e não pessoas mortas de fome ou na guerra, como, de fato, ocorreu na Rússia Revolucionária justamente porque pós tomada do poder em 1917, todos os países imperialista se juntaram para derrotar a classe trabalhadora russa impondo anos de guerra somado ao isolamento econômico de uma país com desenvolvimento industrial atrasado.

Por isso que para Leon Trotsky e Lenin, os dois principais dirigentes da revolução, é imprescindível que o processo revolucionário se expanda internacionalmente, porque o comunismo não se trata de socializar a miséria que o capitalismo impôs ao desenvolvimento de vários países atrasados, mas sim de usar toda a capacidade produtiva humana para sairmos do “reino da necessidade, para o reino da liberdade”. E só é possível atingir a liberdade comunista acabando com a dominação capitalista internacional e assim libertando a imensa maioria da população, que o capitalismo condena a barbárie e a exploração, enquanto só 1% fica com toda a riqueza.

Claro que para Eduardo Bolsonaro não há problema nas incontáveis pessoas que morrem no mundo pela miséria, guerras, acidentes de trabalho, falta de acesso a saúde, fruto de abortos clandestinos e milhares de outros exemplos que só existem porque vivemos num sistema de exploração que ele defende. Mas obviamente o problema é “esse comunismo”, Bolsonaro no alto da sua ignorância fala sempre do “comunismo”, de conjunto, como uma espécie de espírito, mostrando o quão a-histórico é o conteúdo da fala. Descontente em só parecer ignorante, ele avança na citação para falar que esses supostos “100 milhões” seriam mais mortos que todos os terremotos, furacões, epidemias, tiranias e guerras dos últimos quatro séculos.

Para qualquer leitor minimamente informado, isso em si já é absurdo, mas vale aqui ressaltar, só para boa medida, as crônicas epidemias de fome da Índia durante domínio colonial britânico, e que elas, sozinhas, sujam as mãos do império britânico com o sangue de cerca de cinquenta milhões de indianos. O fato de Bolsonaro realmente acreditar na citação do livro, deve servir de testemunho, que quem pretende falar de história ali é um homem tão completamente ignorante, que desconhece qualquer evento histórico que não os ditos a ele por charlatões como Olavo de Carvalho.

Se ainda se precisa de convencimento para que se tenha total convicção do baixo nível intelectual com o qual se lida aqui, o deputado segue para dizer “(...) o exemplo vivo de Karl Marx hoje em dia, que é o de Lula (?!?!)”. A simples ideia de que Lula teria qualquer coisa a ver com Karl Marx, marxismo, ou o comunismo, prova que o sujeito não entende nada de qualquer coisa de que esteja pretendendo falar. Se humilha ao provar tão flagrantemente que não sabe o mais básico, mais fundamental, tão simples que uma criança entenderia, justamente sobre o que ele mais diz combater: o “comunismo” (talvez justamente por isso use “comunismo”, “socialismo”, entre outros, intercambiavelmente ao longo da fala).

Lula governou e quer seguir governando para os capitalistas, se orgulhava de dizer que no seu governo nunca os banqueiros lucraram tanto. O governo petista se apoia na falsa concepção de conciliação de classes, onde supostamente “todos ganham”, onde obviamente os capitalistas ganharam muito e os trabalhadores puderam ter um pouco mais de acesso ao consumo enquanto o trabalho precário e terceirizado se estendia.

Seguindo seu calabroso préstito de estupidez, o congressista do Partido Social Cristão fala, então de Gramsci, mostrando claramente que não mais entende do autor marxista que o contido em sua página na Wikipédia. Tenta repetir o conto do “marxismo cultural” (outro disco quebrado da direita) segundo o qual o comunismo (sempre o mais vago possível) estaria se infiltrando nas instituições de ensino para dominar o mundo. Além de plenamente falso - ainda mais em uma conjuntura com tamanha tendência à repressão de ideias de esquerda e revolucionária não só na política como no meio acadêmico – tal acusação não mostra senão um porco entendimento acerca da obra do autor italiano sobre a hegemonia cultural, a qual certamente Bolsonaro nunca leu.

A fala não poderia terminar de outra maneira senão com mais uma mostra do quão mal o deputado entende o comunismo, afirmando a fome na Venezuela ser resultado da extinção da propriedade privada (sic), mas principalmente com um aceno final a Olavo de Carvalho e ao youtuber Nando Moura – únicas duas fontes que ele consegue lembrar – para que fique claro: Eduardo Bolsonaro, nada diferente do que acontece frequentemente com seu pai, perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado.

A questão é que o Comunismo defendido por Karl Marx que pressupõe uma ideia de mundo onde a exploração capitalista não é a última forma possível de organização social, e que as capacidades produtivas humanas são ilimitadas e poderiam garantir abundância de recursos a todos, se não fosse o atual sistema dividido em classes onde uma detém toda a riqueza e outra é obrigada a vender sua força de trabalho para sobreviver.

Com os anos de stalinismo, que foi a burocratização da Revolução Russa, devido ao isolamento e à derrota dos processos revolucionários internacionais, a ideia de Comunismo sofreu uma contra-ofensiva dos países imperialistas igualando o Comunismo ao Stalinismo, a ditaduras ou a ideia de países que passaram por revoluções deformadas, com direções guerrilheiras e não fruto da auto-organização da classe trabalhadora, como foi em Cuba, ou em processos de mobilização de massas que levaram ao poder lideranças populistas ditas de esquerda, onde “se socializa a miséria”.

Para a direita reacionária a questão é misturar tudo em argumento sem história e irrigar com uma série de debates morais, ou seja, quem matou mais. Sobre isso Leon Trotsky desenvolve no seu texto “A moral deles e a nossa”, que não há debates morais desligados dos interesses de classes, nem uma moral universal humana, sempre debates que são colocados nesses termos servem para encobrir posições políticas. Valeria perguntar a Bolsonaro o que ele acha dos LGBTs que são assassinados por conta das ideias reacionárias que ele compartilha, ou se ele se importa tanto com os negros mortos no Rio de Janeiro nas mãos da polícia que ele adora.

Trotsky desenvolve essa questão, peço licença aos leitores para uma citação mais longa para terminar o texto: “Posto em condições ’normais’, o homem ’normal’ observa o mandamento: ’não matarás’. Mas, se mata em condições de legítima defesa, o tribunal o absolve. Se, pelo contrário, cai vítima de uma agressão, seu assassino será condenado à morte. A necessidade de tribunais, bem como da legítima defesa, deriva do antagonismo dos interesses. No que se refere ao Estado, em tempos de paz ele se limita a legalizar a execução de simples indivíduos, para, em tempos de guerra, transformar o ’não matarás’ em mandamento diametralmente oposto. Os governos mais ’humanos’, que em tempo de paz ’detestam’ a guerra, em tempo de guerra fazem do extermínio do maior número de homens o primeiro dever de seus soldados.

As normas da moral ’geralmente reconhecida’ conservam no fundo um caráter algébrico, isto é, indeterminado. Elas exprimem apenas o fato de que o homem, em seu comportamento individual, está ligado a certos normas gerais, já que pertence à sociedade. [...].

A causa dessas normas universalmente válidas serem vazias é que, em todas as circunstâncias importantes, os homens têm um senso muito mais imediato e profundo de seu pertencer a uma classe do que de seu pertencer à ’sociedade’. As normas morais ’obrigatórias para todos’ adquirem, dentro da realidade, um conteúdo de classe, isto é, um conteúdo antagonístico. A norma moral é tanto mais categórica quanto menos é ’obrigatória para todos’. A solidariedade dos operários, especialmente nas greves ou por detrás das barricadas, é infinitamente mais ’categórica’ que a solidariedade humana em geral.

A burguesia - cuja consciência de classe é muito superior, pela sua coesão e intransigência, à do proletariado - tem interesse vital em impor sua moral às classes oprimidas. Por isso mesmo, as normas concretas do catecismo burguês são mascaradas com a ajuda de abstrações morais postas sob a égide da religião, da filosofia, ou daquela coisa híbrida que se chama ’bom senso’. A invocação das normas abstratas não é um erro desinteressado da filosofia, mas um elemento necessário ao mecanismo da luta de classes. Fazer ressaltar essa tramoia, cuja tradição tem milênios, é o primeiro dever do revolucionário proletário”.




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