SEMANÁRIO

Bolívia: luta de classes e posições estratégicas

Matías Maiello

Bolívia: luta de classes e posições estratégicas

Matías Maiello

A irrupção do movimento de massas é contagiosa. Isso pôde-se ver essa semana na importante jornada de paralisação e mobilizações massivas que atravessaram a Colômbia. A militarização, o fechamento de fronteiras e toda a campanha de Iván Duque para espalhar medo fracassaram. Trabalhadores, estudantes e setores populares tomaram as ruas do país. No Chile, enquanto continua a trama para impor uma constituinte fraudada, juntamente com a repressão - cujos métodos estão cada vez mais expostos - e a perseguição política, uma ampla vanguarda protagonizou esses dias importantes jornadas de luta e mobilização, e se prepara uma nova greve geral.

Sem dúvida, a Bolívia marcou os enfrentamentos mais agudos da luta de classes. Nesta semana, a grande protagonista foi a resistência ao golpe. Enquanto os parlamentares do MAS de Evo Morales se dedicaram a negociar as formas de validar o golpe, e com a direção da Central Obrera Boliviana (COB) ligada ao golpismo, um importante setor de vanguarda de camponeses, trabalhadores, jovens e povos nativos, com epicentro em El Alto - onde chegou uma comitiva de apoio de milhares de agricultores de Norte Potosí - combinada com pontos de resistência na cidade de Cochabamba, protagonizou heroicas jornadas de luta que marcaram um primeiro limite aos golpistas na relação de forças.

Tratam-se de processos de luta de classes que atravessam diferentes momentos, mas que, ao que tudo indica, chegaram para ficar. Diferentemente do ciclo anterior na América Latina, em que as situações se modificavam evolutivamente, à direita ou à esquerda, o atual cenário regional está marcado por giros bruscos nas relações de força. Insurreições das massas que podem dar lugar a situações revolucionárias, ou serem desviadas, ou até dar lugar a saídas reacionárias, assim como golpes cívico-militares - como o que vemos na Bolívia - que acabam despertando uma resistência heroica e que, em perspectiva, representam a possibilidade de choques revolucionários / contra-revolucionários.

Nesse cenário, uma das encruzilhadas que passa por muitos processos atuais é como superar o estado de ações de resistência ou atos de extrema pressão. Uma das grandes armadilhas nesse caminho é que a classe trabalhadora que controla as “posições estratégicas” que fazem a sociedade funcionar (transporte, grandes indústrias e serviços) se encontra dividida e amarrada por diferentes burocracias que, com exceções específicas, impedem que essa força seja capaz de quebrar decisivamente a ordem burguesa, e intervenha diluída no “povo” em geral.

Na Bolívia, se tomarmos como referência a COB, sua direção permaneceu lisa e plenamente orbitando o campo golpista. No entanto, um setor da população da cidade de El Alto - que reúne trabalhadores precários, formais, por conta própria e determinadas áreas de composição camponesa - com enorme instinto e retomando velhas tradições e a experiência de lutas emblemáticas como a “guerra do gás” de 2003 foi em busca de pontos estratégicos capazes de romper a resistência dos golpistas, como a usina de hidrocarbonetos de Senkata. Levantou, dessa maneira, uma importante lição de estratégia.

Senkata como ponto de inflexão da resistência

Em um artigo anterior, nos perguntávamos: se em outubro de 2003, com a luta em Senkata e sua fábrica de distribuição de combustível, o desabastecimento, a deflagração da greve geral, os bloqueios camponeses etc. terminaram tirando Sánchez de Lozada, o quanto o governo golpista de Áñez se sustentaria com uma greve assim? No contexto de condições muito mais adversas do que há 16 anos - com a COB endossando o golpe, o MAS negociando com Áñez, as classes médias na calçada em frente e muitos dos protagonistas da época desmobilizados - na semana que passou, embora não tenhamos visto um desdobramento como aquele de 2003, sim tivemos uma pequena grande mostra, de fato heroica.

A planta de Senkata, de Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB), localizada no distrito 8 de El Alto, é um ponto estratégico. Dela depende o abastecimento de gasolina e gás liquefeito de todo o departamento de La Paz, onde se concentra o centro político e uma parte considerável da população e da atividade econômica do país. Não por coincidência, na “guerra do gás”, o governo de Sánchez de Lozada buscou com todas suas forças (polícia e exército) romper o isolamento de La Paz e reabrir o abastecimento de combustível, desbloqueando a planta de Senkata. Essa ofensiva, realizada nos dias 11 e 12 de outubro daquele ano, teve que enfrentar a enorme resistência do povo de altenho, junto com os mineiros de Huanuni e os camponeses. Apesar da repressão que deixou um saldo de pelo menos 26 mortos, a operação militar foi derrotada, o aumento das características insurrecionais se aprofundou e se estendeu aos bairros populares de La Paz. Poucos dias depois, Sanchéz de Lozada cairia.

Na semana passada, o fantasma de Senkata voltou a pairar sobre a cabeça dos ocupantes do Palacio Quemado, neste caso do governo golpista encabeçado por Áñez. O bloqueio que havia se erguido, incluindo profundos buracos sobre a rodovia para impedir a passagem de caminhões, representava diretamente uma ameaça de desabastecimento e rompeu com a imagem de “normalidade” que pretendia criar o governo golpista para estabilizar-se. Na terça-feira 19, centenas de militares e policiais acompanhados por tanques, helicópteros e veículos militares reprimiram duramente o bloqueio que mantinham os vizinhos altenhos. A resistência se fez sentir, os enfrentamentos se espalharam a todo o Distrito 8 e ganharam apoio de vários outros distritos de El Alto durante grande parte do dia. Somente com uma enorme escalada repressiva, que deixou um saldo de 9 mortos, o governo conseguiu remover 50 tanques de gasolina e 10 caminhões com botijões de gás liquefeito (o necessário para pouco mais de dois dias de consumo “normal” em La Paz) escoltados por 10 tanques militares, aviões do exército disparando contra a população, cerca de 25 caminhonetes policiais e veículos de inteligência.

No dia seguinte, milhares de pessoas chegaram de diferentes pontos de El Alto a Senkata, onde se desenvolveu um enorme encontro aberto onde se organizaram uma coluna de manifestantes que vinham de Potosí e os representantes das 20 províncias de La Paz. Este encontro votou por aclamação a renúncia da autoproclamada presidenta Áñez e um chamado a todo o país para lutar contra o golpe. Na quinta-feira 21, uma multidão se mobilizou de Senkata até La Paz carregando seus mortos. O exército e a polícia se encarregaram de reprimir, mostrando o desprezo racista da ditadura. Enquanto isso, escavadeiras avançavam contra os bloqueios na zona de Senkata para liberar o caminho que leva à usina de combustíveis, enquanto outros distritos se somavam aos bloqueios em El Alto e se radicalizaram as medidas.

Os parlamentares do MAS utilizaram a relação de forças imposta por essas ações (que não existia há uma semana) para negociar com o governo de fato, legitimá-lo e aceitar eleições “acordadas”, traindo a luta para derrotar o golpe. Finalmente, no sábado, o despacho da usina de Senkata conseguiu ser normalizado. No entanto, isso não remove a lição de estratégia que deu a resistência e o bloqueio de Senkata.

Posições estratégicas

Do ponto de vista da luta contra o golpe na Bolívia, o bloqueio de Senkata mostrou um exemplo concreto da força do movimento de massas atuando sobre pontos estratégicos para trabalhar - alterar - a relação de forças. A própria burguesia, pela boca do jornal Página Siete, se lamentava “por que não se construiu [desde 2003] uma nova usina ou ao menos uma de emergência?” e exortava a não “seguir contemplando que a usina de Senkata seja utilizada para asfixiar La Paz”.

Nesse caso, os habitantes de El Alto tiveram que partir exclusivamente dos bloqueios, de fora da usina, no caso adverso onde ninguém menos que a direção da COB se encontrava no campo do golpismo. No entanto, ao colocar a importância de controlar esses pontos estratégicos, serve para exemplificar a dimensão do potencial para a luta de classes que tem a classe trabalhadora ao deter “de dentro” todas as “posições estratégicas” fundamentais na produção, distribuição e nos serviços. Nesse sentido, Senkata mostra em um exemplo pontual o tipo de força em geral - não limitada a esse ou aquele ponto estratégico - que potencialmente tem a classe trabalhadora de paralisar, por exemplo, na Bolívia, toda a indústria do gás, a mineração, os aeroportos etc. Obviamente, quanto mais pontos estratégicos consiga afetar simultaneamente, mais decisiva será a força empregada pela classe trabalhadora.

Em seu livro Posição estratégica e força de trabalho, o historiador John Womack define em relação à classe trabalhadora que: "’dentro do processo produtivo’, suas ’posições estratégicas’ [são] quaisquer que permitam a alguns trabalhadores determinar a produção de muitos outros, seja dentro de uma empresa ou em toda a economia" [1]. Dessa forma, trata de conceber as posições que são capazes de paralisar o mais número de outras na cadeia do processo produtivo. Sua definição é circunscrita às relações trabalhador-patronais [2], mas não é difícil transferi-la ao poder da classe trabalhadora para a luta de conjunto contra os capitalistas e seu Estado. Claro que as “posições estratégicas” podem ser utilizadas de forma corporativa, mas também podem ser uma força tremenda para desenvolver a hegemonia operária em uma luta contra o todo o regime capitalista.

Partindo dessas “posições estratégicas”, Womack declara que: “Se desaparece a força de trabalho, [...] abre-se um vazio que nenhuma outra força (sem ser trabalhadora) pode preencher [...] Somente a negação trabalhadora tem tal força definidora, tanto crítica quanto decisiva” [3]. Trata-se de um elemento fundamental a destacar após a enorme proliferação de abordagens no estilo do “pós-marxismo” de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe no último período, abordagens que caricaturam o lugar da classe trabalhadora na estratégia marxista sob a denominação de “essencialismo da classe trabalhadora”. Mas também contra quem, reivindicando-se do marxismo revolucionário, sustém visões dogmáticas/metafísicas da classe trabalhadora ou que, inversamente, veem o movimento operário simplesmente como mais um movimento.

Certamente, o uso de posições estratégicas, mesmo se é definitório, como em uma greve geral política, põe em questão quem detém o poder político, mas não pode dar uma resolução por si só a essa questão sem uma insurreição que garanta a passagem do poder das mãos da burguesia para as do povo trabalhador. No entanto, também é verdade que ao manter essas posições estratégicas, por serem fundamentais para a produção e a reprodução da sociedade, a classe trabalhadora se torna um ator potencialmente central para a articulação de uma ordem alternativa capaz de substituir a ordem capitalista. Tanto por sua capacidade para controlar a produção, os serviços, o transporte etc. como para constituir um poder independente capaz de aglutinar o povo explorado e oprimido, como são os conselhos de delegados eleitos por unidade de produção (empresa, fábrica, escola, campo etc.), assim como para a organização da autodefesa. Durante os processos revolucionários dos últimos 150 anos, tem se dado exemplos de sobra a esse respeito.

Portanto, não ver o papel fundamental das posições estratégicas é não pensar na perspectiva de uma revolução, mas no máximo em movimentos de pressão extrema. Justamente o que mostra o golpe militar na Bolívia é a necessidade cada vez mais premente de pensar em termos estratégicos.

Legitimando o “Estado aparente”

Na Bolívia, com base em processos enormes, como foram a “guerra da água” do ano 2000 ou a “guerra do gás de 2003, teve lugar o processo mais profundo e expressão máxima do ciclo de governos “pós-neoliberais” que atravessou a região até agora no século XXI. Pois bem, segundo García Linera, sob os governos de Evo Morales, se havia avançado em superar o que ele chamou, seguindo René Zavaleta, o “Estado aparente”. Em suas palavras: “Chamamos Estado aparente a ação deliberada dos governantes e de sua institucionalidade para criar um apartheid social. [...] A Bolívia foi um exemplo, até 2005, de Estado aparente. Um Estado construído contra os indígenas, contra a indianidade, contra a cultura e contra a maioria dos povos indígenas”.

Diante disso, se iludia com avançar na construção de um “Estado integral” que “gradualmente deixa o monopólio da coerção e vai igualando material e realmente a sociedade”. Assim, na Bolívia, segundo Linera: “Do Estado aparente ainda não diríamos que se construiu um Estado integral: se construiu um Estado plurinacional que reconheceu a diversidade das instituições, a diversidade das culturas, a diversidade das civilizações e das regiões e está construindo um senso de universal, um sentido de unidade integral”.

No entanto, se há algo que demonstrou o golpe cívico militar, é que aquele “Estado aparente”, longe de ser superado, foi conservado pelos governos de Evo Morales. Estava agachado, esperando o momento oportuno para emergir com seu ódio de classe, com seu clericalismo fundamentalista, com seu racismo, queimando wiphalas. A conciliação de interesses dentro do Estado burguês com os Camacho e os grandes capitalistas que dominam a Bolívia foi exposta como o que era, uma ilusão.

É esse “Estado aparente” o que agora o MAS se dispõe a legitimar com o acordo com os golpistas. Mas é da derrota definitiva do golpe, do desenvolvimento da heróica resistência popular, de sua extensão, de sua organização independente, de sua autodefesa, que podem surgir os contornos de um verdadeiro poder alternativo das grandes maiorias operárias, camponesas e indígenas.

O Estado burguês - que pesa a García Linera e a muitos outros - não é um instrumento neutro que pode ser utilizado para perseguir os interesses das maiorias, mas sim tem um caráter inevitavelmente classista, começando por suas forças armadas. Na Bolívia, foram consideradas aliadas durante 14 anos, equipadas, envolvidas nas políticas sociais e, finalmente, em 10 de novembro mostraram que Evo Morales era um simples inquilino do Estado que sempre teve seus donos.

Mais uma vez na história, contra ilusões como as de Linera, voltou a se demonstrar aquilo que repetiam até o cansaço Marx e Engels, e que reiterou Lenin em O Estado e a revolução: “todo Estado é uma ‘força especial para a repressão’ da classe oprimida. Portanto, todo Estado não é livre nem popular [4]. Trata-se de uma conclusão que vai muito além da Bolívia e que, na América Latina, toda a chamada “esquerda popular” faria bem em refletir. O novo ciclo de luta de classes que atravessa a região merece isso.

Estado e revolução

As rebeliões que vem atravessando vários países da América Latina e do mundo, embora em si mesmas sejam insuficientes para resolver os grandes problemas estruturais e políticos que colocam sobre a mesa, abrem um caminho. Levantam a necessidade de que a classe trabalhadora intervenha fazendo uso de toda sua força. Não porque tenha um suposto caráter “ontologicamente” revolucionário, mas porque detêm todas as “posições estratégicas” fundamentais. E o que o faça com seus próprios métodos, o da greve geral, das coordenadoras e dos piquetes de autodefesa, na perspectiva erguer organismos de auto-organização de massas (conselhos) e milícias que sejam o sustento de um novo poder verdadeiramente alternativo ao do Estado capitalista.

A questão é como os processos não se esgotam em reformas cosméticas ou sendo canalizados ao interior dos regimes instituídos por meio de alguma variante política burguesa, do contrário, abrem a possibilidade de constituir uma nova ordem social - que está longe dos regimes “socialistas” burocráticos que levaram a becos sem saída no século XX - não simplesmente anticapitalista em geral, mas com governos de trabalhadores (ou operários e camponeses) baseados na auto-organização das massas, que podem puxar o freio de emergência e deter o curso catastrófico em que o capitalismo conduz a humanidade. Não existe uma força imparável na história que garanta esse resultado, ou algo parecido. Sem lutar pela construção de fortes partidos revolucionários, não apenas nacional, mas internacionalmente, que lutem por essa perspectiva, dificilmente pode se transcender o terreno das boas intenções.

Com essa convicção, impulsionamos a rede de jornais La Izquierda Diario e intervimos com nossos companheiros e companheiras da Liga Obrera Revolucionaria - Cuarta Internacional (LORCI) na Bolívia nos combates e nos cabildos de El Alto, propondo um programa para derrotar o golpe, ou no Chile com o Partido de Trabalhadores Revolucionarios (PTR) na linha de frente do movimento, impulsionando a auto-organização, enfrentando as perseguições do governo por levantar um programa contra Piñera e por uma Constituinte verdadeiramente livre e soberana sobre as ruínas do regime. Com eles, intervimos coletivamente todos os dias, ombro a ombro, desde o PTS da Argentina e de nossas organizações irmãs em diferentes países. Procuramos prefigurar, ensaiar, na medida de nossas forças, a ação do que seria um partido revolucionário internacional, já que uma organização revolucionária assim não surgirá em um tubo de ensaio, mas ao calor dos próprios combates que esse novo ciclo de luta de classes começa a colocar na ordem do dia.

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FOOTNOTES

[1Womack, John Jr., Posición estratégica y fuerza obrera, México, FCE, 2007, p. 50.

[2Para uma crítica da abordagem de Womack, ver: Albamonte, Emilio y Maiello, Matías, Estrategia socialista y arte militar, Bs. As., Ediciones IPS, 2017, p.79 e ss.

[3Womack, John Jr., ob. cit., pp. 51-52.

[4Lenin, V. I., El Estado y la revolución, Bs. As., Ediciones IPS, 2019, p. 23.
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Matías Maiello

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