Internacional

OPINIÃO

Bolívia e uma visão comparativa com o “progressismo regional” do Brasil e da Venezuela

sábado 11 de abril de 2015| Edição do dia

Após as recentes eleições na Bolívia, onde o MAS de Evo Morales perdeu estados e municípios estratégicos, se instalou uma feroz batalha pelo significado da derrota. Como ler estes resultados à luz das experiências da Venezuela e do Brasil?

Neste terceiro artigo referente às eleições pretendemos seguir uma pequena comparação da situação eleitoral e pós-eleitoral da Bolívia com dois países que são referência do “progressismo” latino-americano, a Venezuela de Maduro, em crise, e o Brasil “emergente”.

Como já afirmamos, a partir da derrota do MAS nestas eleições pode-se evidenciar, contraditoriamente, a fortaleza relativa do regime instituído após a aprovação da nova Constituição Política, o que hoje se conhece como Estado Plurinacional da Bolívia.

Esta relativa fortaleza que tem permitido ao prefeito eleito de Cochabamba, um conhecido direitista que participou ativamente no levante direitista de 11 de janeiro de 2007, hoje retornar ao poder estatal pelo mecanismo do voto, contrasta, por exemplo, com a tremenda crise econômica e política vivida na Venezuela.

O que explica resultados tão diferentes na evolução dos “progressismos” venezuelano e boliviano? Como se deve recordar, a Bolívia, desde a “guerra da água” em abril de 2000, iniciou um ciclo de levantes que passou pela insurreição popular de Outubro de 2003 até a queda do governo de Carlos Mesa, em 2005, demolindo o que se conheceu como o regime da “democracia negociada”, isto é, acordos parlamentares que garantiam a governabilidade e a estabilidade necessária para aplicar o conjunto dos planos neoliberais durante quase três décadas.

Com o início da transição que conduziria Evo Morales ao governo, abre-se uma nova situação, caracterizada pelo que se definiu como o “regime partido”, ou seja, a virtual divisão do país entre um ocidente com ampla hegemonia do MAS, no qual o movimento de massas depositava suas expectativas de mudança social, e um oriente com hegemonia das direitas regionais que exigiam autonomia diante do forte centralismo que caracterizou a vida estatal e política boliviana, numa tentativa de assegurar posições que barrasse a suposta supremacia “indígena” comunista. Nos dois lados, as correntes políticas antagônicas contavam com legitimidade e também legalidade, o que alimentava os choques permanentes e as três tentativas de levante direitista, como os acontecimentos de La Calancha, nas portas da Assembleia Constituinte em Sucre, em 2006, depois a ação de Cochabamba em janeiro de 2007 e, finalmente, o massacre de Porvenir, setembro de 2008, no qual dezenas de manifestantes foram alvo de tiros vindos de uma ponte, com um saldo de 15 camponeses assassinados.

Estes sinais de guerra civil, produto deste massacre, se expandiu com a mobilização espontânea de trabalhadores e camponeses, armados com o que tinham em mãos, até Santa Cruz com um primeiro choque na região de El Pailón e várias horas de enfrentamentos. Isto obrigou o MAS e a direita regional a reescrever os artigos polêmicos da Constituição para evitar um salto na mobilização independente com consequências imprevisíveis. Finalmente, firmaram o acordo em 21 de outubro de 2008, permitindo a aprovação da Constituição e o surgimento de um novo regime de domínio burguês, o chamado

“Estado Plurinacional da Bolívia”.

Ainda que o MAS de Evo Morales tenha surgido como expressão distorcida da mobilização popular “a partir dos de baixo”, isso o tornava muito mais vulnerável às exigências das organizações populares, o que levou o estado-maior deste partido, Evo Morales e Garcia Linera, a um acelerado giro à direita, a uma negociação constitucional na qual as classes dominantes garantiriam suas propriedades, a segurança jurídica às empresas e ao latifúndio. Será a forte luta de classes precedente que obrigará todas as formações políticas a firmar os acordos de outubro de 2008 e estabelecer, não sem contradições, uma espécie de “pacto de La Moncloa” à moda boliviana, que é o que se evidencia hoje como uma institucionalidade “democrática” cada vez mais sólida, já que não depende apenas da saúde do partido do governo.

Diferente deste processo, a Constituição bolivariana da Venezuela, longe de ser o resultado de um acordo com os personagens do velho regime do “punto fijo”, como foi na Bolívia, é a resultante da decisão bonapartista de Chavez, com respaldo de massas e do exército. Esta “imposição”, para dizer de alguma maneira, onde as classes dominantes resistem a ver a administração do poder estatal sem sua direção e sem suas “opiniões”, é o que tem provocado a persistência da luta política entre as duas expressões políticas e de regime diferenciadas, inclusive com a violência expressada pela oposição, como vimos nas chamadas “guarimbas” [distúrbios violentos] durante 2013.

Por outro lado, o crescimento econômico da Bolívia durante os últimos anos, assentado no boom de preços das matérias-primas, permitiu a ascensão de alguns setores médios que começam a ver no fenômeno da corrupção uma ameaça a esta bonança econômica. Entretanto, diferente do Brasil, onde suas novas “classes médias” ocupam as ruas, na Bolívia este rechaço se expressou no voto contra os representantes do governismo, contrastando com os 60% obtido por Morales nas eleições de 12 de outubro passado.

Os diversos representantes do chamado “progressismo” latino-americano vivem processos diferenciados: uma Dilma fortemente questionada pelos escandalosos casos de corrupção, um Evo que ainda tem importante respaldo, mas já se vê o divórcio entre o “chefão” e o restante do partido, o que é uma debilidade estratégica, e a enorme crise vivida no governo de Maduro. No entanto, está evidente que o ponto em comum que estamos assistindo é o ocaso destes fenômenos políticos, ocaso que muito provavelmente se acelerará ao tornar-se mais palpável o efeito da queda dos preços das matérias-primas e a chegada da crise a estes países. Fica, como questão fundamental, preparar os setores avançados dos trabalhadores e do povo para as novas tarefas que a realidade começa a preparar em nosso continente.




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