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Biscuit: crônicas de uma aeroviária [Parte 2]

Mateus Castor

Biscuit: crônicas de uma aeroviária [Parte 2]

Mateus Castor

Meus pés na espuma vermelha

Não estava mais ansiosa como a patricinha, agora tinha ficado emputecida como aquele velho de merda que tinha me chamado de vadia por minha incapacidade de controlar as chuvas que atrasaram seu voo. Queria ter respondido que eu não era a porra de São Pedro para desfazer as nuvens e xingado-o de velho broxa. Não estava mais com cabeça para brincar de psicóloga ou médica, apenas me concentrei em sentir raiva e atuar no automático, como uma máquina, fazendo todo o procedimento do Check-in. As 12h de trabalho, com apenas um lanchinho de 15 minutos e duas idas ao banheiro eram o ápice da escrotidão daquela merda de empresa. Até minha distração interna de catalogar passageiros, a qual a Goltam não podia simplesmente arrancar porque acesso aos meus pensamentos em si eles não tinham, foi estragada. Não me sentia puta assim há um tempo, lembrando que minha escala do que é sentir ódio foi conjurada por uma profissão que consiste muito em sorrir para quem te cospe.

Eram 23h quando fui solta para descansar e voltar na manhã seguinte alimentada, maquiada, sorridente, pronta. Era final de ano e todos viajavam, menos nós cuja função era dar toda a assistência necessária para que algumas fatias da população possam viajar nos aviões limitados e controlados pelas linhas aéreas, que tem toda a liberdade para destratar passageiros que descontam sua raiva em nós.

De maneira súbita fui tomada por uma avalanche de pensamentos, alguns embarcavam e me abarcavam, aterrizavam e me aterrorizavam, tudo agora, de uma vez. Se eles fossem aviões e minha cabeça um aeroporto, um desfile de colisões de aeronaves, de acidentes fatais, explosões e incêndios tomariam conta de tudo. Veria pedaços de corpos pelo chão, cabeças rolando com suas máscaras devidamente bem colocadas. Uma chuva de braços, pernas, troncos e entranhas sem respectivos donos, soltas, caindo em uma chuva de sangue. Não conseguia pensar nas espuma calmante das ondas na Bahia, que em um último suspiro de vida chegam até seus pés e desaparecem engolidas pela areia.

Não tenho amargura de quem tem o direito de voar. Só que sentia uma inveja visceral e ela me corroía. Esse pecado bíblico que se apoderava de mim, por momentos, me fazia desejar que essas pessoas vivessem o mesmo que eu, e não que eu vivesse o mesmo que elas. Que viessem se humilhar comigo. A régua do distrato constante sempre tende a medir para baixo, nos fazendo procurar culpados ao alcance dos olhos. Os verdadeiros responsáveis nunca pisaram em um Check-in e estão mais preocupados com os investimentos e ânimos do mercado. Eu deveria viver o mesmo que essas pessoas. Elas deveriam viver muito melhor do que isso. Nem todos abarrotados de bagagem são uns desgraçados, alguns são pessoas legais. Já até ganhei presente de um casal porque os ajudei a remarcar um voo.

De novo aquela sensação, aquela quentura no estômago e esse respirar pesado no peito. Não era Covid, era um desespero de sentir sua existência escapando de seus próprios dedos. O ar pesa, entra e sai com dificuldade. Em uma explosão de sentimentos, a energia tomou conta e me expulsou do meu corpo. Me olhei de fora, por fora, olhando para o espelho sujo de dedos, envelhecido e embaçado, do banheiro dos funcionários, olhava no fundo dos meus olhos. Olhei para mim como desejava olhar para o líder que me mandou ficar quase até meia-noite, para a patricinha, para o velho. Encarei meus olhos numa postura de desafio, sem recuar, como eu costumo recuar com os passageiros estúpidos. Era necessário reagir. O objeto da vontade estava em formação, a vontade não sabia se iria transformar-se em choro ou de riso. O formigamento pelo corpo ainda se decidia se escolhia pelo desespero ou pela euforia.

Estou sozinha no banheiro. Observo minha volta com os olhos arregalados e atentos, como alguém prestes a cometer um furto, em busca de qualquer sinal de vida que possa me pegar no flagra. Um olhar perdido, sem rumo, em busca de qualquer coisa. Era preciso reagir e estava disposta a não olhar para o chão. As ondas da praia eram de um vermelho espesso, passageiros boiavam, um deles, como um peixe ferido e sem força, é levado pela maré em minha direção. O corpo é levado por uma onda suave mas consistente, a espuma perde a suavidade e transformasse em bolhas de sangue, o rosto tocava os meus tornozelos, devidamente mascarado, me pergunta com aquele olhar típico do passageiro grosseiro:

“Vai demorar pro voo sair, em?”

Escapo daquele inferno, estou de volta ao banheiro. Olho para a lata de lixo e sinto um impulso correr os meus nervos, um desejo indescritível pela sujeira. Enfio minhas mãos no latão em busca de máscaras usadas, pego uma por uma. Máscara de tecido, das estampas mais fofas, confeccionadas provavelmente por bolivianas em regime de trabalho semi-escravo, máscaras cirúrgicas que antes se restringiam a face do doutor e agora são usadas por auxiliares de limpeza, máscaras para todos os gostos, de todos os tipos. Às olho como veneração, como se estivesse olhando para meu próprio filho que a parteira acabara de colocar nas minhas mãos, ainda ensanguentado e molhado, passo minha língua nelas, passo minhas mãos pela pia de mármore com pintinhas cinzas e pretas, pela torneira, pelo secador automático e levo meus dedos à boca, chupando um por um, como se estivesse fazendo o sexo mais carnal.

Olho em volta, ninguém entrou, o ponteiro dos segundos do relógio mexeu menos do que os dedos de uma mão, olho de volta para o espelho como uma criança assustada que busca amparo após levar um tombo, sem ter noção de como avaliar a gravidade da situação. Desato em choro, me tranco na cabine. 15 minutos se passam, corro para não perder o ônibus. Aceno, o motorista para, já nos conhecemos.

- Boa noite, Amanda! - Me cumprimenta com seu sotaque baiano e sorriso acolhedor.

Boa noite Seu Ademar! - Respondo com um sorriso, sentindo ainda uma adrenalina eufórica percorrer meu corpo. Não fui visitar o Arthur para ver se a patricinha embarcara ou não.

Esperei alguns dias antes dos resultados dos testes sanguíneos, de ISTs, etc, chegassem. Não havia contraído nada, estava livre de hepatite, herpes, o que quer que seja. Apenas não havia escapado de uma praga, a Covid. Finalmente, o descanso. Continuei a sonhar com a espuma branquinha das ondas massageando os meus pés.

A tristeza

- Moça, pode me mostrar o RG, por favor - Disse o motorista daquele ônibus, de uma empresa “parceira” da Buser, o Uber do transporte rodoviário de longas distâncias.

Pode ser a carteira de motorista? - Havia tirado a carteira há 2 anos, embora não tivesse nunca comprado um carro.

Pode - respondeu automaticamente enquanto eu mostrava já a carteira pois sabia a resposta. Ele fingiu que leu e comparou os dados com a lista que tinha e disse - Pode subir.

Não mediram minha temperatura, nem pediram qualquer comprovante de vacinação ou teste, embora eu tenha me vacinado conforme o calendário e testado positivo há 5 dias. Não estava tossindo, nem com dificuldade de respirar. Senti perfeitamente o gosto da coxinha oleosa, borrachenta e cara que comprei na lanchonete do terminal. No aeroporto, nunca gastaria meu VR com uma coxinha, lá ela era cara não só pela inflação geral no país, mas por ser uma coxinha de elite, coxinha de aeroporto.

Duas máscaras dos tipos mais indicados, bem colocadas, e muito álcool em gel iriam proteger os outros passageiros dos ônibus. 500 mil pessoas haviam morrido, não era só uma gripezinha, então me isolaria mais naquela viagem do que teria feito em casa. Não contei a ninguém da minha família que havia sido infectada, disse que fui escalada para trabalhar em outro Aeroporto, na Bahia. Eu tinha ainda 10 dias de licença médica e jamais as desperdiçaria.

Nos terminais rodoviários não havia gritos e surtos de passageiros. As pessoas sentavam, por horas a fio, em seu canto, sonolentas e à espera. Não havia grosseria aparente, pareciam pessoas habituadas e sem necessidade de babás indicando tudo que deveria ser feito. Mas não era apenas mais um dia, era primeiro de janeiro de 2022. O aquarela de sobrancelhas, olhos e testas formavam desenhos não muito comuns no aeroporto, fiquei intrigada. Coloquei meu dom para trabalhar. Por meia hora estive focada em catalogar os sentimentos de cada rosto coberto por uma máscara, em especial das espécies mais raras no aeroporto e tão abundantes lá, me sentia desbravando um novo ecossistema, já que não pegava um ônibus há anos devido a pandemia. Os tecidos que, em diferentes graus de eficiência, protegiam uns aos outros de possíveis rajadas de metralhadora, caiam e mostravam as narinas, as vezes levantavam e mostravam o queixo, algumas máscaras eram colares e protetores de pescoço, cotoveleiras, mas a maioria usava corretamente. Máscaras desbotadas, com fiapos e linhas que demonstravam o uso repetido. No aeroporto, as máscaras brilhavam assim como a vestimenta refinada de quem lá frequenta para viajar.

- O mainha, o ônibus tava com o ar condicionado quebrado e cancelo! Feliz ano novo! Sim… Sim… Chego em dois dias, como que tão os primo? - Falava um homem, já na faixa dos 50 anos.

As sobrancelhas estavam tensas e não mudavam sua posição estática, mais baixas nos cantos e mais alta no centro, seguravam os olhos que quase caiam do rosto, marejados. As rugas da testa me lembravam os desenhos na praia, formados pelas marolas que já morreram, quando a maré baixa chega ao ápice.

- To levando o presente de natal da senhora, certeza que vai gostar! O que? Eu disse que tô levando um presente, mainha - repetiu.

Lembrei do velório virtual que minha família organizou três meses atrás, meu tio lembrava esse senhor. Minha avó, assim como a mãe do tiozinho, era levemente surda, assim como ele fazia ao telefone, era necessário conversar gritando com carinho. Senti que um nó se formava em meu estômago, espinhento e dolorido, foi subindo até chegar a garganta, nó cego, que nem a unha desfaz. Engoli de volta. A maré cheia ameaçou meus olhos. Me recompus rapidamente.

Ele já era um homem de meia idade, a mãe deveria estar na faixa dos 80 anos. Assim como eu fazia nos meus atendimentos, aquele senhor tinha a completa capacidade de esconder suas verdadeiras emoções no tom de voz. Passava carinho e ternura. Mas seu rosto era de uma profunda tristeza e as lágrimas escorriam lentamente, até serem absorvidas pela máscara que cobria seu rosto. Há alguns milhares de quilômetros de distância, ele podia, contudo, dar a liberdade do desamparo aos nervos de seu rosto, em troca de uma voz disciplinada, que procurava abraçar a mãe pelo telefone.

No aeroporto encarar muito os passageiros e a chefia é chamar ao duelo, aqui, acabou sendo um convite à conversa. Mantive a distância, senti um frio na barriga, um medo. Fiz questão de ficar próxima à porta arejada. Quem chora normalmente esconde, chorar em público é sinônimo de fraqueza e vergonha, mas aquele senhorzinho queria desabafar da mesma maneira que a patricinha da semana passada. De fato, foi uma conversa. Me disse que era auxiliar de limpeza no metrô, e não poderia ir no dia que havia prometido porque foi convocado no final do ano, pois havia ficado de licença por 15 dias na metade do ano passado devido à Covid. Com vergonha, mentiu para a mãe de 80 anos e disse que o ônibus tinha estragado. Era um mentiroso como eu era.

Nos despedimos. Os passageiros em minha volta passavam muito tempo conversando no telefone, com a máscara abaixada, gritando, sorrindo, fazendo vídeo chamada, mandando beijos, dizendo que já chegariam. Uma melancolia triste, um sorriso choroso. Pela primeira vez dei a atenção devida a mais esse tipo de passageiro, comum nos terminais, raro nos Check-ins, extinto na chefia.

Havia muito menos funcionários também, o controle no embarque e desembarque ficava nas mãos sobretudo do motorista. Fazia questão de ficar a pelo menos 2 metros de distância de cada pessoa. Fugia de qualquer ser que aparentava mais de 50 anos, eu só queria o mar. Minha família ficaria bem em casa, sem conviver diariamente com uma adoentada. Não iria perder mais um, precisa fugir de casa. Descanso, uma fuga, um assassinato. Não estava interessada em encontrar uma definição para minha viagens de férias. Azar da patricinha que decidiu ir de avião para o Caribe, de ônibus não teria esse problema. Não sentia o cheiro da fumaça dos ônibus que chegavam e partiam, de olhos fechados, sentia o cheiro do mar.


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Mateus Castor

Estudante de Ciências Sociais da USP e professor
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