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Biscuit: crônicas de uma aeroviária [Parte 1]

Mateus Castor

Biscuit: crônicas de uma aeroviária [Parte 1]

Mateus Castor

Meus pés na espuma branca

O olhar daquela patricinha estava distante, embora suas palavras tivessem um direcionamento claro à minha pessoa. Após 3 horas, abandonando aquela imensa fila que exalava tédio, pressa e relapsos de raiva, a mocinha veio me perguntar quanto demoraria mais. Aquela mesma infernal pergunta, repetitiva, repetitiva e repetitiva, que recebia todo santo dia.

Eu me fiz a mesma pergunta, mas não poderia, jamais, responder aquilo para ela, seria um alívio cômico e sarcástico para minha alma que levaria a algum tipo de punição da chefia. Preparei mentalmente meu discurso e, com uma voz calma e assertiva, menti. Aquela mesma resposta, repetitiva, repetitiva e repetitiva eu dava todo santo dia. O trágico é que ela tem, ainda que seja um quadro reduzido de funcionários, vários uniformes azuis para correr atrás. Eu não posso ficar perguntando insistentemente para ninguém que horas meu turno vai acabar, da mesma forma que uma criança ansiosa faz no carro, questionando se já estão chegando no resort de férias.

Só posso afirmar que eu sentia a mesma ansiedade que ela e suas amigas diante do tempo que se arrasta com teimosia. O intervalo de minuto à minuto marcava o mesmo intervalo em que eu buscava o celular para olhar as horas, fazia isso porque todos os funcionários já faziam naquela altura do campeonato, sedentos para correr direto para viagens de 2 horas no ônibus até a Zona Norte ou os bairros de Guarulhos, afinal estava chovendo muito e a Dutra congestionada. Eu já estava na terceira hora extra e só desejava ir para casa, a patricinha levemente descabelada, assim como eu, só desejava curtir suas férias no Caribe.

Se todo santo dia eu gastasse o tempo que eu passo dentro de um ônibus dentro de um avião, a centenas de quilômetros por hora, eu poderia morar na Bahia. Chegaria em casa, mesmo que fosse às 21h sendo que deveria sair às 17h do trabalho, e iria lá sentir as fracas marolinhas massageando meus pés, no vai e vem do mar, para descansar a mente após mentir algumas centenas de vezes sobre o quanto iria demorar tal voo. Diferente da mãe impaciente, que pode gritar para o filho impaciente calar a boquinha que pergunta a cada 5 minutos se já estão chegando, eu poderia aliviar meu estresse na espuma branca, em contraste com a escuridão do mar na praia, após um dia de trabalho, poderia ouvir o silêncio. Era final de ano e todos meus sonhos acabavam na melodia do quebrar das ondas. Acordei dia 31 de dezembro com o barulho metálico e agudo do meu despertador para fazer possível as viagens de algumas pessoas, assim como outros milhares de funcionários do transporte.

Fumaça preta

Hoje fiquei com essa maldita função no Check-In. A maioria que caminha a passos rápidos e vigorosos na minha direção, como se aquilo fosse fazer o avião decolar mais rápido, normalmente aproveita para descarregar em mim a frustração acumulada na fila. A patricinha me preservou, para minha surpresa, expressou somente angústia. Fiquei agradecida, porém chamou minha atenção à distância de seu olhar; tratando-se de olhares, tornei-me especialista, já que nos treinamentos de como nos portar com passageiros sempre é repetido sobre a necessidade de manter contato visual, ainda que com cuidado para não parecer invasivo, assim mostramos que a empresa se importa com os passageiros. Ainda que sabemos que, a depender do herdeiro de dois ou três imóveis que se acha o descendente dos próprios Bandeirantes, olhar bem nos olhos, pupila a pupila, é correr o risco de questionar sua superioridade inata.

Para ser sincera, tornei-me especialista em observar as expressões dos olhos, a intensidade das piscadas, a altura e posição das sobrancelhas, o movimento de contrações e relaxamentos dos músculos da testa. Nariz, bochechas, boca e queixo estavam cobertos pela máscara, então o ritmo da respiração e variações da movimentação torácica também ficavam no meu radar. Passei a estabelecer o desafio de avaliar o humor de passageiros na primeira fração de segundo em que olhava para seus olhos como a empresa sugeria, muitas vezes era necessário desviar o olhar para baixo e mantê-los lá no chão, pois, a depender do passageiro, demonstrar atenção poderia ser um convite ao desafio, um chamado à briga, da mesma maneira que os cães se comportam. Muitos desses passageiros na verdade eram cachorros de donos muito mais endinheirados que não precisavam pegar fila no aeroporto. Tinha orgulho em ter uma alta taxa de sucesso quando analisava os estressados e histéricos, os amargurados e solidários eram mais difíceis de catalogar por serem poucos.

Mas o olhar da patricinha tinha uma diferença, não era apenas como se me ignorasse como pessoa. O passageiro ordinário consegue exigir sua completa atenção, calma e respostas para todas as perguntas, mas na mesma tacada consegue preservar uma completa e fria impessoalidade, que todo funcionário que presta serviços ao público de qualquer tipo conhece bem. Ela mantinha um contato visual e puxava assunto enquanto reclamava da demora. Com ela passei cerca de 5 minutos ouvindo, enquanto a média de interação baseada em perguntas ríspidas e respostas educadas durava 10 segundos, salvo as não tão raras exceções dos que chegam espumando pela boca, 3 minutos em média. Na verdade, ela parecia querer matar seu tédio de alguma forma, admitiu que tinha discutido com uma das colegas sobre qual seria o primeiro passeio que fariam, mergulho no recife ou passeio em dromedários, por isso decidiu sair da fila.

Onde ela se encaixava? A estupidamente grossa? Nem perto. Amargurada? Também não. Solidária? Nem pensar, ela me tratava como se eu fosse um Twitter, no qual ela podia depositar seus pensamentos, não era uma conversa.

- Sabe querida, eu já tentei trabalhar com público presencialmente, mas sem chance - pausa de cerca de 2 segundos, leve arqueamento ao centro das sobrancelhas, respira - prefiro trabalhar com as minhas publis no insta! Haha!

- Sim… - Minhas respostas, quando não relacionadas à horários, bagagens, etc, se limitavam a palavra única, na tentativa de terminar a conversa, acontece que eu mantinha o tom agradável da minha voz, o que deve tê-lá encorajado a continuar o monólogo.

- Cheguei a ajudar no salão de casamento do meu pai recebendo convidados, mas não deu certo - me atento para suas olheiras. Não deveriam estar naquele estado para uma menina endinheirada.

- Suas amigas estão acenando para você… - comentei.

- Nós vamos ficar 20 dias juntas e mesmo assim elas não suportam ficar sem mim! - Retrucou rindo, momento em que abaixou a máscara branca, em um reflexo natural para segundos de alívio, enquanto aproximou seu torso de mim para que a tela do seu Iphone ocupasse quase toda minha visão -.Agora faço a gestão das redes de todos os 15 salões de eventos da minha família. Não preciso ficar em pé toda hora igual você, guardo energia pra academia! Hahah…

De uma flauta de som melodioso, claramente falso e forçado, mas melodioso, a delicada patricinha transformou-se em um carro velho soltando fumaça preta, pegando aos trancos e barrancos. A risada foi interrompida de súbito por uma tosse avassaladora, aquela que busca arrancar o ar dos andares mais baixos do pulmão, ar que simplesmente já foi totalmente extraído nas três primeiras tosses. Um som grave, que sobe rasgando a garganta e faz a pessoa adotar expressões semelhantes a da ânsia de vômito.

Uma pausa para recuperar o ar normalmente desnecessária quando são tosses alérgicas pairou, ainda que por um tempo ínfimo.

- Está tudo bem? - Reagi no automático. Olhava para o relógio, ansiosa para ir embora.

- Nossa, esse resfriado tá chato já! Mas nada vai estragar meu rolê! - Respondeu, ofegante como se tivesse corrido do Check-in B até o E..

Como eu pude ser tão burra? Ela não podia ser catalogada como a grossa, a amargurada e nem a passageira solidária, não era a perdida também. Quem poderia ser, então? Era óbvio. Levei mais tempo do que deveria para saber qual personagem incorpora aquela mocinha. Os do seu tipo, normalmente demoro uns 30 segundos para descobrir, um pouco mais do que os solidários, porque é necessário me atentar à cadência da respiração.

Ali naquele posto, eu não precisava decidir se seria médica ou psicóloga, como tentei fazer nos 2 anos de cursinho, eu era as duas. A patyzinha foi embora, constrangida, sem dizer tchau. Estava envergonhada não por atirar uma mortífera bomba de saliva no meu uniforme, mas porque uma tosse daquela mais parecia com a de um brutamontes barbudo. Com certeza sofreu algum tipo de bullying na escola por isso. Meu diagnóstico para aquela moça foi de Covid-19.

Olhei para o meu celular, 15 minutos para ir finalmente embora. Liberdade!.

Eu também senti vergonha. Fiquei envergonhada e frustrada com a minha lerdeza. Semana passada havia acertado o diagnóstico de vários passageiros adoentados, que foram impedidos de entrar no avião após fazerem os testes rápidos no embarque, caso não apresentassem os resultados de um teste prévio. Todos os dias eu pedia para meu colega Arthur, que trabalhava no embarque, para ver as filmagens que ele tinha acesso com seus colegas da segurança, procurava nas imagens essas bombas humanas que desejavam curtir o tempo livre ou ir para reuniões de negócios. Gastava 5 minutos na velocidade rápida, para identificar meus passageiros nas filas dos voos, lá na salinha de segurança.

Em alguns era visível o chilique por ser impedido de embarcar. Batendo o pé no chão, apontando, ameaçando. Atitude que se fosse de um funcionário reclamando das condições de trabalho, cara a cara com um CEO da Goltam, seria atacado pelos seguranças, gás de pimenta, demissão e processo na certa. Minha taxa de acerto dos adoentados era de 65%. Arthur me achava doida e dava sempre uma gargalhada com as minhas comemorações por cada acerto. Eu não ligava, até gostava, porque queria um dia chamar ele para tomar uma cerveja.

- Amanda, você não vai poder ir embora ainda, querida - disse baixinho o líder no canto da minha orelha - Peço que vá para a cabine agora


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Mateus Castor

Estudante de Ciências Sociais da USP e professor
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