Política

Bem menores que o 15M, atos mostram um Bolsonaro menos isolado mas com margem de manobra precária

O ato desse domingo, 26 de maio, convocado como uma mobilização pró-Reformas bolsonaristas, foram bem menores que os do 15 de maio. A composição baixa é incomparavél em números com os atos de duas semanas antes, daqueles que rechaçavam as medidas de cortes nas universidades e a reforma da previdência, que somaram mais de 1 milhão dispostos a derrotar Bolsonaro nas ruas.

segunda-feira 27 de maio| Edição do dia

Neste dia 26 era possível se provar o nível de capacidade de mobilização de um Bolsonaro que passou as últimas semanas um tanto isolado frente ao Congresso, judiciário e militares. Frente à composição que o ato deste dia 26 teve em algumas das principais cidades brasileiras, é conveniente perguntar quais os efeitos que essas marchas podem ter no rumo da política nacional. Mas antes de chegar aí, vale a pena vislumbrar o tamanho do contraste.

Em Brasília, capital do país, apesar do esforço inflacionário dos jornais burgueses, as imagens não podem mentir. Vistos de cima, os manifestantes pró Bolsonaro eram um pequeno punhado de camisas amarelas em meio da enorme Esplanada dos Ministérios, que há poucos dias foi tomada pelos milhares que lutavam pela educação e contra a reforma.

Em São Paulo, uma das cidades com o maior ato do 15M, era possível ver no mar de pessoas algumas ilhas de completo vazio, bastante diferente da jornada nacional de oposição, que inundou a avenida e, vista de cima, era interminável:

Em Belo Horizonte, o maior ato de oposição aos cortes na educação, a polícia dizia oficialmente 30 mil manifestantes pró Bolsonaro, já que a pequena Praça da Liberdade acomodou com folga os “manifestantes”, tornando difícil sustentar essa afirmação:

Ainda que no Rio de Janeiro e em São Paulo as manifestações foram relevantes, não capazes de reverter que nacionalmente tenha sido de conjunto atos que não pesam favoravelmente a favor de Bolsonaro de forma qualitativa. Mesmo retirado o caráter facista da convocação - com temas como fechamento do Congresso e do STF - Bolsonaro careceu de um número de apoiadores que o mostrasse mais forte do que aqueles que se opõe aos ataques de seu governo.

A título de exemplo, o Rio de Janeiro teria a composição social mais “amigável” para Bolsonaro, com um peso político enorme de militares, forças de segurança, igrejas evangélicas, todos atores que convocaram fortemente, o que mesmo assim não criou uma massa satisfatória. Explicitou a debilidade do bolsonarismo no seu bastião, mostrando que a tentativa de compor uma mobilização mais ampla, com o conteúdo exclusivo de pró-reforma, ainda que tenha mostrado uma capacidade pequena de mobilizar a sua própria base, explicita sua incapacidade de ampliar um auditório do tamanho que era necessário, frente ao enorme peso do 15M.

Bolsonaro sai dos atos pior do que entrou?

Os atos certamente ajudam Bolsonaro a se mostrar menos isolado do que parecia durante a última semana, se consideramos que os especialistas em botar a direita na rua - MBL, por exemplo - se negaram a convocar a mobilização. Entretanto, o “fôlego” que essas marchas podem dar é pequeno e precário, ao custo de abrandar a pauta.

Em seu twitter, Bolsonaro dá uma clara retrocedida em seu tom anterior. Se antes suas linhas eram gastas desafiando o poder do Congresso e separando-se dos políticos, pelo tamanho dos atos ele foi empurrado a ser parte desses políticos de quem antes se separava, reafirmando sua retomada às mesas de negociação e sua disposição ao bom e velho toma-lá-dá-cá. Esse tweet é certamente um recuo parcial, um flerte para que o Congresso volte à mesa de negociação, depois das ameaças de Maia de criar um novo texto de Reforma da previdiência. Isso não significa que Bolsonaro não vá seguir com seu discurso já encardido de “nova política”, base de sua eleição e, até agora, do apoio popular que lhe resta.

Isso significa dizer que o fato de que houve gente nas ruas faz com que Bolsonaro saia com algo na mão para negociar, mas esse conjunto de fatores - e o mais importante, ter sido muito menor que o 15M, tendo os dias 30 e 14 adiante - deixam ao Executivo uma margem de manobra pequena. A grande pauta que unifica todas as forças do governo - contra a classe trabalhadora, a juventude e os setores mais precários do país - adquire enorme peso, como pauta de destaque durante todo o dia, e diante das opiniões patronais de que "já passou" a reforma, é preciso reafirmar a necessidade que os próximos atos que se organizam de todos aqueles que rechaçam os cortes na educação e a reforma da previdência, precisam demonstram uma enorme força organizada, e unificada, de estudantes e classe trabalhadora contra esse ataque que é a mãe de todas as reformas desse governo, sem nenhuma confiança ou passividade de que pelo tamanho reduzido dos atos pró-Bolsonaro poderíamos “ficar tranquilos”.

As mobilizações do 15M demonstraram que já existe disposição de luta para enfrentar as medidas mais reacionárias do governo com mobilizações de massas nas ruas. Para potencializar essa perspectiva, é necessário organizar assembleias de base que construam uma grande paralisação nacional, que coloque milhões de estudantes e trabalhadores nas ruas unindo a luta contra os cortes à educação com a luta contra a reforma da previdência.

Não obstante, as burocracias políticas, sindicais e acadêmicas do PT (mas também vinculadas ao PCdoB e ao PDT) se esforçam por manter o controle burocrático das manifestações e impedir uma unidade real nas ruas da luta dos trabalhadores e estudantes.

A partir do Esquerda Diário e da militância do MRT, no movimento estudantil e em distintos sindicatos, nós batalhamos para desenvolver a auto-organização de estudantes e trabalhadores unidos para superar os obstáculos impostos pelas burocracias políticas e sindicais da CUT, da CTB, além da UNE.

É mais que urgente unificar estudantes e trabalhadores para batalharem em comum contra os cortes na educação e contra a reforma da previdência. Para bloquear o caminho das novas negociatas que se farão sobre os ajustes neoliberais contra as massas, no interior da disputa entre o "bonapartismo imperial" de Bolsonaro e o "bonapartismo institucional", não podemos deixar que as direções burocráticas das entidades sindicais e estudantis negociem nosso futuro. Precisamos exigir da UNE e das centrais sindicais um sério plano de organização para que o dia 30/5 e a paralisação nacional de 14/6 - que não foram unificados por essas direções burocráticas - sejam demonstrações contundentes de força contra a reforma da previdência, defendida pela direita e os militares nesse 26/5, e os cortes na educação.




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