Internacional

VIOLÊNCIA POLICIAL NOS EUA

Baltimore e a outra cara da "democracia" imperialista

A revolta nas ruas de Baltimore exigindo "Justiça para Freddie Gray", o jovem afro-americano assassinado pela polícia, lembrou as imagens de Ferguson, meses atrás. Em ambos os casos, não se trata de "policiais interagindo com indivíduos" como refletia o Presidente Obama. É a expressão da verdadeira cara da "democracia" imperialista dentro de casa

sexta-feira 1º de maio de 2015| Edição do dia

Foto: EFE

O presidente Barack Obama condenou a violência "sem sentido" em Baltimore e esclareceu que os ativistas devem ser tratados "como criminosos". Depois refletiu que "temos visto muitos exemplos do que aparentam ser policiais interagindo com indivíduos, em especial afro-americanos, muitas vezes pobres, de formas que geram perguntas inquietantes. Assim, o primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos referia-se às reclamações de milhares de manifestantes exigindo "Justiça para Freddie Gray", criminalizando os jovens afro-americanos e reduzindo a uma "inquietante interação" o que na verdade é uma política de Estado, o racismo.

Se os bombardeios, invasões e intervenções norte-americanas tem sido a expressão mais gráfica da política exterior imperialista durante anos, a revolta dos jovens afro-americanos se dá contra a opressão imperial dentro de casa, como o explica o artigo Ferguson: ¿el fin de la ilusión posracial?.

Isto foi evidenciado em Ferguson. Os manifestantes diziam "Estão fazendo em casa o que fazem lá fora" em referência às invasões no Oriente Médio ou "vocês vão atirar em nós? Aqui é a faixa de Gaza?" quando a Guarda Nacional, que tinha militarizado a cidade, se preparava para reprimir.

Aqui presenciamos as imagens de tanques ingressando naquela pequena cidade e policiais equipados para a guerra. O denominado "Programa 1033", do Departamento de Defesa dos Estados Unidos estabeleceu a transferência do material militar restante do Exercito às Polícias locais. Segundo a Agência de Logística desse órgão, só durante 2013, foram transferidos equipamentos militares equivalentes a 449 milhões de dólares.

Segundo uma análise do New York Times, desde o ano 2006, os departamentos de polícia adquiriram 435 veículos blindados, 533 aviões, 93.763 metralhadoras e 432 caminhões blindados resistentes a bombas.

Os recursos utilizados na chamada "guerra contra o terrorismo" giram hoje contra aqueles setores que questionam a desigualdade social e o racismo.
A verdadeira força de ocupação foi vista por milhões no mundo e chegou a criar vínculos "virtuais" de solidariedade que uniam Ferguson com Gaza, que nesse momento era bombardeada por Israel.

Estados Unidos bombardeiam Paquistão com Drones (aviões pilotados a distância). Esses bombardeios, que são parte da política de guerra no Oriente Médio, tem causado, segundo o site thebureauinvestigates.com, a brutal cifra de 290 mortes de civis e 64 crianças, de 2009 até 2012.

Mas esse número é menor do que os 313 afro-americanos que foram assassinados nos Estados Unidos, segundo o site Ocuppy.com, pela polícia ou outra força da ordem em 2012. 40% deles tinha entre 22 e 31 anos. O site ProPublica foca nos jovens de 15 a 19 anos e conclui que os afro-americanos, nesta faixa etária, tem 21 vezes mais possibilidades de serem assassinados pela polícia.

A taxa de desemprego é o dobro entre a comunidade negra (12%) que entre os brancos (6%). A população carcerária estadunidense é integrada por indivíduos afro- americanos em 37%, mas constituem só 12,6% da população em geral. 28% das residências negros vivia na pobreza em 2011, quase o triplo do que as residências de brancos. A pobreza só reforça a discriminação: por exemplo, entre as pessoas que não completam o ensino médio, 20,5% dos negros estão desempregados, entretanto, a porcentagem não chega nem à metade (9,7%) entre os brancos.

A magnitude desses números aumenta se levarmos em consideração que, ainda que seja a primeira minoria, a população afro-americana nos Estados Unidos representa só 13% do total.

Para se ter uma ideia de como o racismo afeta a qualidade de vida dos afro-americanos, podemos ver um estudo da WAVE entre jovens de distintas cidades do mundo, que conclui que " aos adolescentes em Baltimore e Johannesburg (África do Sul), apesar de estarem localizados em países mais ricos, comparativamente, obtiveram resultados piores em saúde (que Ibadan ou Nova Delhi as outras cidades consideradas na mostra) e tendiam a perceber a sua comunidade de forma mais negativa", e continua "em Baltimore, que se localiza na nação mais rica do mundo e a 65 Km da Casa Branca, os adolescentes mostraram consideravelmente, altas taxas de problemas de saude mental, drogas, violência sexual e gravidez na adolescência.

Estes dados mostram como, mesmo com as grandes conquistas em direitos civis que obtiveram as mobilizações da década de 1960, o racismo é uma parte fundamental da política implementada pelas classes dominantes na América do Norte. Como se explica no artigo "Ferguson: ¿El fin de la ilusión posracial? "A vitória de um presidente negro foi um acontecimento de um grande peso simbólico. Obama virou um emblema das aspirações da comunidade afro-americana, filha da escravidão, e presa da violência e da discriminação racial. Mas a chegada de Obama ao poder foi uma expressão da ascensão e da cooptação de uma elite minoritária negra presente na classe dominante e o establishment político, e não da superação do racismo




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