RACISMO

Babu: racismo e subjetividade negra no capitalismo

O ator Babu Santana que ficou conhecido por seu papel como Tim Maia, tem sofrido com diversos episódios de racismo dentro do maior reality show do Brasil, o BBB, que vem repercutindo através das redes sociais.

quarta-feira 11 de março| Edição do dia

O reality tem aberto diversos debates nas redes sociais, como questionamentos à relação abusiva, machismo, assédio e racismo, expressão do esgotamento na sociedade, sobretudo da juventude negra, mas também do conjunto dos trabalhadores, da opressão de gênero, racial e da miséria do capitalismo.

Durante o começo do programa, o machismo de um certo grupo de homens da casa levou as mulheres a se unirem contra eles e eliminá-los do programa no famoso “paredão”. Nessa treta toda, Babu ficou ao lado das mulheres e chegou a declarar: “Chegou a hora das mulheres terem voz. Então, quando a gente não entende um questionamento delas, cala a boca e escuta. Mesmo que você esteja contrariado, peça desculpa e vá refletir, porque é muito difícil sair da posição de privilégio. O feminismo nunca buscou a supremacia das mulheres, é igualdade" Elas defendem acertadamente as pautas feministas, mas a partir de uma perspectiva que exclui a dimensão da classe social, o que faz com que elas mesmas olhem de um ponto de vista equivocado tanto as pautas dos homens trabalhadores quanto a dos negros.
Isso reflete em atitudes pouco sensíveis com as questões raciais referentes ao Babu, ainda que ele tenha expressado alguma posição machista, algo que deve ser combatido em todas as circunstâncias,assim como o racismo, para elas a luta contra o machismo se torna exclusivamente contra os homens, não contra o capitalismo e o patriarcado, esses sim, a principal fonte da opressão das mulheres, da misoginia, da violência de gênero e do racismo.

Subjetividade negra no capitalismo

Tal perspectiva acaba deixando de lado as questões raciais quando se trata de Babu, um homem negro e gordo, que foi taxado de agressivo, assustador, ranzinza, grosso e difícil de conviver por elas, só por questioná-las sobre a limpeza e organização da casa. Inclusive, elas mesmas optaram por um “jogo de perseguição” ao próprio Babu a fim de eliminá-lo do programa em prol de uma “boa convivência”. Enquanto Daniel, um homem branco amigo delas, que a todo momento descumpre as regras, comete diversos erros o que gera punições para todo o grupo e não ajuda nas tarefas da casa é visto por essas mesmas mulheres com um olhar de compaixão, de uma pessoa sem “maldade”, de um menino novo que não tem atenção com as coisas, atrapalhado, engraçadinho, mas ainda sim muito querido.

As atitudes racistas com Babu não param por aí, ainda houveram participantes que tiveram a coragem de dizer coisas absurdas como: “Ele tem cara da xepa”, “não vejo ele no vip”, “de onde ele vem as pessoas brigam por comida todo dia?”, “vou colocar o babu no VIP pra ele arrumar a cozinha”, “ou a gente põe ele no paredão e ele sai e come o que quiser”, “se você colocar o Babu no vip me manda pra xepa”, esses foram alguns dos comentários racistas ditos por participantes que dizem defender essa “boa convivência” e que para uns telespectadores podem parecer não ter nada demais, mas escondem por trás de seus preconceitos uma visão de Babu extremamente racista e inferiorizada.

Certamente, todas essas atitudes e comentários preconceituosos e racistas nada tem a ver com o fato desses participantes do programa estarem inclinados a um jogo que preze pela “boa convivência”. Construir a imagem do negro como agressivo, grosseiro, distante do mínimo de racionalidade que um ser humano pode ter, mas justamente seu oposto, um ser animalizado que carece das faculdades humanas que o permitem conviver em plenitude na sociedade, ao mesmo tempo desprovido de qualquer sentimento, e nesse sentido, completamente desumanizado, é parte da imagem do negro que a ideologia do racismo constitui para engrenar o modo de produção capitalista. É por isso que se tem um olhar complacente e de compaixão com Daniel, e não com Babu, porque a todo momento foi necessário que o negro se visse dessa forma, não apenas inferiorizada como se fosse um ser humano de segunda categoria, mas também desprovido de qualquer capacidade humana que o fizessem desfrutar da vida em todas suas potencialidades.

O que incomoda a nós negros, é o fato de que se remontamos outros períodos históricos, sobretudo, desde o surgimento do capitalismo, vemos que essa imagem do negro desumanizada sempre existiu. Era porque nos queriam como escravos antigamente e agora nos querem como escravos assalariados, trabalhadores submissos aos seus patrões, sem coragem de enfrentá-los, resignados à exploração e indiferentes ao racismo. Imaginem só Babu, um trabalhador que começou a trabalhar com 16 anos que como ele próprio disse já fez “43 filmes, mais de 15 novelas, mais de 20 peças” que não tem nada a ver com a imagem inferiorizada que o capitalismo criou para ele e que esses participantes do reality reproduzem, um potencial incrível e cheios de qualidades, se visse dessa maneira frente àqueles que realmente lucram e mantém o racismo, os capitalistas. Grandioso naquilo que toma como detalhe em sua vida até seus objetivos maiores como ator, orgulhoso de ser negro, sem essa imagem passiva e inferiorizada, potente em cada mínima coisa que faz, audaz e perspicaz em todas suas decisões, mas não apenas para se satisfazer pessoalmente e individualmente, mas para enfrentar esse inimigo de igual pra igual, numa batalha de vida e morte até o último negro se libertar de seus grilhões.

“Ela me olha igual minha ex-patroa”

Babu chegou a comentar com seu amigo de confinamento que o olhar de Marcella, uma das participantes que querem eliminá-lo do programa é “igual ao da sua ex patroa”, o que é mais uma prova de como nessa sociedade degradante do capitalismo a subjetividade do negro é alvo de inúmeras formas preconceito, inclusive algumas delas transmitidas pelo olhar, algo que só nos negros conseguimos sentir. Fato é que o racismo estrutural e o preconceito racial engendram formas subjetivas e psicológicas que causam no negro diversos traumas e inseguranças que vez ou outra reaparecem com um nível de vivacidade espantoso como o caso do Babu notar pelo olhar preconceituoso e racista de Marcella, a mesma forma como sua ex-patroa o olhava, certamente com um sentido de reprovação e inferioridade. Essas são definitivamente marcas que o racismo, mas sobretudo o capitalismo, pode deixar em nós profundamente, são nossas cicatrizes que devemos lidar todas as vezes que nos enfrentamos com a polícia, com o preconceito racial, com nossa solidão, na relação de trabalho com os patrões e toda miséria que o capitalismo pode nos oferecer como a precarização do trabalho, a disparidade salarial entre negros e brancos, o desemprego, etc.

No entanto, essa forma sútil, mas ao mesmo tempo bastante profunda que o preconceito racial existe na sociedade capitalista se apoia em outra ideologia racista que historicamente tentou apagar o racismo e o passado escravista brasileiro, conhecida como a democracia racial. Desde sua criação foi contraposta a ideia de ser um mito, o mito da democracia racial, por não traduzir a realidade de um Brasil profundamente marcado pela escravidão, a desigualdade racial e econômica. Por outro lado, repercutiu até os dias de hoje na subjetividade da classe trabalhadora que muitas vezes não se vê como negra e sim como “mestiça” por conta de seus fenótipos e cor de pele, mas que ao ser confrontada com a realidade concreta, deixa evidente que essa mesma parcela da população que ainda sofre com o racismo, o preconceito racial e as heranças sociais e econômicas deixada pela escravidão, são partes inseparáveis de suas vidas.

Em sentido complementar, a ideologia da democracia racial ao afirmar que não existe mais racismo pelo fato da população brasileira ser constituída por “brasileiros”, “miscigenados”, e não por negros, para tentar apagar essa contradição bastante explosiva da maior população negra foda África, preparou o terreno para que a burguesia apoiada no racismo explorasse ainda mais as massas negras. Por outro lado, na sociedade brasileira criou-se uma forma não menos racistas de reproduzir o racismo, como por exemplo através de olhares, onde o racista não precisa necessariamente ofender um negro com uma injúria racial, mas sim transmitir de maneiras diferentes o preconceito racial atrelada àquela visão inferior e desumanizada do negro como ficou evidente no desabafo de Babu ao seu amigo dentro do programa. Isso inclusive, fica ainda mais evidente nos papéis que Babu fez ao longo de sua carreira, mesmo ganhando o prêmio de melhor ator do Cinema Brasileiro com o filme Tim Maia em 2015, Babu fez em novelas da Globo, papeis de “arrombador”, bêbado, capanga, homem mal encarado, assaltante, traficante de armas, “coisa ruim”, assaltante de ônibus. Esses personagens protagonizados por um homem negro deixam clara essa marca da sociedade racista brasileira que reforça através de um estereótipo extremamente preconceituoso e racista de personagens degenerados a imagem negativa do negro. Além disso, esses personagens destinados a Babu pela própria Globo escancara a verdadeira posição da emissora que apoiou o golpe institucional, a reforma da previdência, as tropas brasileira no Haiti e ocupação de favelas pela UPP. Decerto ela está ao lado dos patrões, dos capitalistas e dos racista e não do nosso, dos trabalhadores, dos negros e das negras.




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