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Audiência pública com reitor e Ocupa IFCS: O que o DCE-UFRJ está esperando para sair do imobilismo?

Desde segunda-feira (13) estudantes dos cursos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCS-UFRJ) ocupam o corredor do gabinete da direção do curso de Ciências Sociais. A maioria dos estudantes ocupantes se reivindica independentes de qualquer força política e denominaram a ocupação como um “movimento apartidário”.

sexta-feira 17 de junho de 2016| Edição do dia

Os ocupantes demandam uma medida emergencial para a alimentação dos estudantes e em longo prazo demandam a providência de um bandeijão para os campi da UFRJ no Centro.

Além do bandeijão e das medidas emergenciais de alimentação, os ocupantes demandam cotas raciais nos cursos de pós-graduação, manutenção da Bolsa de Acesso Permanência (BAP), acesso wi-fi para todo o prédio e expansão do Bilhete Universitário.

A ocupação do gabinete da direção chamou atenção e os ocupantes fizeram com que a reitoria fosse ao IFCS e realizar uma audiência pública com os estudantes sobre as principais demandas nessa quarta-feira (16).

Leher dialoga, mas nossa vitória apenas virá da organização estudantil independente da reitoria

O reitor Roberto Leher começou seu discurso saudando o movimento e reivindicando as ocupações dos secundaristas do Chile, Paraguai e do nosso país, pois segundo o reitor os ocupantes estão “se apropriando do espaço público”.

Como não era de se esperar, o discurso de Leher foi o mesmo da audiência pública feita no ano passado sobre o orçamento da universidade. Reiterou que o drama da assistência estudantil é reflexo dos cortes do governo feitos nas verbas direcionadas a UFRJ, indicando que não há condições de manter a universidade sem uma estrutura e programa de permanência estudantil adequado à nova realidade da composição social da UFRJ.

Pois segundo Leher, a UFRJ, nesses últimos anos, incorporou uma quantidade de estudantes equivalente a Universidade Federal de Santa Catarina sem ampliar a permanência estudantil, e isso seria a principal causa dos problemas relacionados à assistência, sem contar os ajustes que dificultam ainda mais.

E como falar em ajustes sem citar a conjuntura nacional, a reitoria defendeu a tese da “onda conservadora” e de que vivemos a ascensão do fascismo na sociedade. Reiterou que além das demandas estruturais, é importante colocar um eixo político na luta, pois o drama da assistência estudantil na UFRJ é consequência direta do retrocesso político pelo qual o país passa atualmente sob o governo golpista de Temer.

Colocaram-se como uma reitoria “militante”, que já estavam debruçando sobre a maioria das demandas e que desde o início estavam lutando contra o impeachment, se colocando em defesa da democracia e pela educação pública. Compararam sua gestão com a anterior e disseram que “foi o tempo em que nós tínhamos uma reitoria que não os ouvia” e chamou os estudantes a se unificarem na luta com eles, “trabalhando em conjunto com a reitoria”.

Quanto às demandas dos ocupantes, a reitoria prometeu se comprometer com a medida emergencial da alimentação, oferecendo como proposta mais viável a cooperação com restaurantes nos arredores da região, indo contra a demanda estudantil do ticket-refeição e do fornecimento de quentinhas, essa última demanda alegaram que necessitaria de possuir um operativo mínimo e estrutura adequada para distribuir as quentinhas. Em médio prazo o reitor se prontificou a reiniciar as obras paradas do restaurante universitário do campus da Praia Vermelha daqui a um mês.

A reitoria, questionada por uma estudante sobre a demissão de terceirizadas da FND, disse que reconhecia o sindicato dos terceirizados e os apoia, mas colocou que é impossível a efetivação das terceirizadas sem concurso porque a lei proíbe a UFRJ de realizar isso. Esclareceu aos estudantes que “não tem mudança possível sem mudar as normas do Estado” e que o Estado restringe a autonomia universitária.

Questionada por um estudante da Escola de Música se a reitoria tinha planos para providenciar quentinhas para sua instituição, a reitoria alegou que “quentinhas para a Escola de Música não é tecnicamente viável”. Por fim, a reitoria defendeu que suas prioridades no meio desse mar de problemas são a ampliação do restaurante universitário e da moradia estudantil.

Os ocupantes realizaram nessa sexta-feira (17) uma assembleia para debater sobre as demandas pautadas pelo reitor nessa audiência pública.

Apesar de toda a fala bonita e “militante” da reitoria, nós estudantes não podemos criar ilusões nessas instâncias universitárias, que representam todo o retrocesso democrático em que nós vivemos. Não podemos esquecer que um dos pontos mais importantes da candidatura de Roberto Leher à reitoria ano passado foi a realização de uma nova Estatuinte para a UFRJ, substituindo a atual, herdeira da ditadura militar e profundamente antidemocrática.

Como o reitor quer que trabalhemos em conjunto se o mesmo não move uma palha para democratizar de fato a universidade, fazendo com que cada voto para reitor valha por pessoas e não por categoria, ampliação das bolsas permanência e controle estudantil em relação a transparência sobre os custos, investimentos e distribuição de bolsas permanência da UFRJ.

Quase com um ano de gestão, a reitoria só se moveu quando os estudantes resolveram agir e conseguir colocar o reitor para dialogar com os estudantes foi uma conquista da ocupação do IFCS.

Movimento Ocupa IFCS e a necessidade de assembleias de base impulsionadas pelo DCE

Apesar do rechaço sectário dos ocupantes em construir o movimento junto com as diversas organizações políticas – alegando que essas mesmas organizações aparelhariam a ocupação e que o DCE é um instrumento ineficiente e engessado para impulsionar a luta dos estudantes – esses estudantes mostraram que apenas ações mais radicalizadas fazem com que a reitoria nos ouça e negocie conosco.

No entanto, o DCE segue sem chamar uma assembleia geral para colocarmos em ação propostas que levem ao fim desse drama causado pela ausência e cortes na assistência estudantil. Nós, do Faísca Anticapitalista e Revolucionária-UFRJ, não achamos correto o sectarismo que a maioria dos ocupantes tratam com todas as forças políticas da gestão proporcional do DCE, apesar de acharmos completamente compreensível o sentimento “anti-DCE” justamente pelo imobilismo em que o diretório da maior federal do país se encontra.

Também não concordamos com os métodos organizacionais da ocupação, em que as deliberações são feitas pelas comissões e não por assembleias de base. Para nós, o modelo de “assembleia consultiva” às dez horas da noite é antidemocrático por excluir boa parte dos estudantes que também se sentem contemplados pelas demandas, e ao mesmo temo mostra como essa estratégia não faz massificar o movimento, pois o comando de delegados deveria ser eleito em assembleias por curso. Uma maneira mais eficiente e democrática para agregar todos os estudantes.

Em nossa opinião também é um erro propagar que o movimento é “apartidário” quando em efeito ele é contra partidos. Isso afasta as pessoas mais do que ajuda a somar ao movimento. Contraditoriamente o movimento chama todos a participarem, mas seguindo com assembleias consultivas, vão na contramão de ter uma estratégia para massificar o conflito. E essa é a necessidade hoje: colocar de pé através de delegados eleitos em assembleias de todos os cursos, um comando de representantes eleitos e revogáveis de todos os cursos, que possam preparar uma luta à altura do que os ataques exigem.

Nós, do coletivo Faísca-UFRJ, seguimos apoiando a justa e legítima causa dos companheiros do Ocupa IFCS, pois suas demandas contemplam o conjunto dos estudantes, e exigimos que o DCE realize uma assembleia geral para impulsionar uma grande luta pela permanência estudantil, confluindo nesse sentido com os diversos setores em luta atualmente em defesa da educação e contra o governo golpista de Temer, principal inimigo do movimento estudantil.

Não podemos alimentar esperanças nessa “reitoria militante” e devemos apenas acreditar nas nossas próprias forças. Nós não vivemos em uma bolha à parte da sociedade e os problemas que passamos na universidade são expressão da atual conjuntura nacional. Nesse ponto a reitoria está correta, a luta pelas demandas estruturais não devem estar desvinculadas de um eixo político, senão ela não avança.

As paralisações de cursos e ocupações das reitorias da USP, UNICAMP, UNIPAMPA, UNESP e a luta dos secundaristas servem de exemplo para nós em como agir para conseguirmos vencer e esses métodos de luta nos passaram uma lição: apenas a radicalização é o caminho para pressionarmos e derrotarmos reitorias e governos.

E nesse ambiente de ascenso de lutas radicalizadas da juventude no país inteiro, o DCE não pode ficar parado como se nada estivesse acontecendo. Nós do Faísca acreditamos que o DCE é um instrumento necessário de luta dos estudantes e ele não pode ser descartado ou negado. A gestão dele é o obstáculo. Nesse sentido, ao contrário dos ocupantes do IFCS, exigimos que o DCE participe dessa luta e impulsione, como órgão representativo dos estudantes, uma assembleia geral para democraticamente deliberarmos propostas para a ação contra a retirada de direitos e ataques do governo golpista de Temer.




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