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VIOLÊNCIA POLICIAL

Assassinato de 5 pessoas por policiais no morro do Alemão é visto como heroísmo pela PM

Neste domingo (15), ao menos cinco pessoas foram mortas após um confronto com policiais militares no complexo do alemão no Rio de Janeiro. Segundo a PM em seu Twitter, os feridos eram criminosos e foram levados ao hospital Getúlio Vargas mas, segundo a secretaria estadual de saúde, os feridos deram entrada no hospital já em óbito.

Kelly F. Alonso

Professora da rede pública de São Paulo

segunda-feira 16 de julho| Edição do dia

No Twitter, a corporação chamou os policiais envolvidos na ação de "guerreiros" e "heróis", e os assassinados de "bandidos". Fossem ou não, jamais saberíamos, de modo que os cadáveres não terão direito a um julgamento, cabendo a última palavra aos seus próprios homicidas.

A segurança pública do estado do Rio está sob intervenção federal desde 16 de fevereiro. O interventor é o general do Exército Walter Braga Netto, que nomeou como secretário de Segurança Pública o também general do Exército Richard Nunes.

Dados divulgado no fim de junho pelo Observatório da Intervenção, formado por especialistas independentes, dizia que o número de tiroteios tinha subido 36% nos quatro primeiros meses da intervenção em comparação aos quatro meses anteriores - de 2.355 para 3.210. A Secretaria de Segurança não se manifestou sobre o balanço, que usou informações do aplicativo Fogo Cruzado.

Uma das frases de um dos PMs em seu twitter foi “Somente nessa ação, quantas vidas eles ajudaram a salvar”. A polícia, ao contrário do que coloca a mídia burguesa que expõe o trabalho dos policiais com o mote de “combate às drogas”, serve na verdade como aliada do tráfico de drogas e é simples essa verificação.

Segundo os dados da própria polícia, foram encontrados com os “bandidos” dois fuzis de guerra, uma granada e duas pistolas. E é inevitável a pergunta, onde os traficantes conseguem essas armas que por lei, devem estar de posse somente do exército brasileiro ou dos policiais militares? Quem trafica essas armas? Como elas saem do exército ou das delegacias? Se ousarmos responder essa questão, ficará evidente que a corrupção dentro da polícia como instituição é comumente praticada e gera grandes lucros para policiais, milícias e traficantes. A “guerra as drogas” resulta em não mais que uma guerra aos pobres e uma desculpa para não legalizar as drogas e desmantelar o tráfico.

Ao mesmo tempo, polícia serve muito bem ao Estado como instrumento repressor e mantenedor da ordem vigente para alimentar esse sistema desigual (e desigual em sua origem). Essa constatação se torna mais deprimente quando vemos a atuação da polícia nas periferias, repreendendo e agredindo violenta e muitas vezes aleatoriamente a população, principalmente a juventude que em sua maioria são negros e que historicamente são associados ao “marginal padrão” (termo que traz a leitura materialista da história que no Brasil é a própria história do racismo institucional, posto que a população negra é maioria nas periferias brasileiras).

Em matéria anterior, evidenciamos como a ação da polícia em várias regiões do Brasil é extremamente bruta e o quanto essa brutalidade é legitimada pela justiça e pelo Estado fazendo com que centenas de assassinatos promovidos por policiais sejam rápida e facilmente arquivados sem qualquer investigação, e mesmo quando esta acontece, a simples alegação do PM de “resistência à prisão” basta para que o “suspeito” seja torturado e morto. O caso de Marielle Franco e do menino Marcos Vinicius são tristes lembranças dessa realidade.

Neste caso dos cinco mortos neste domingo, além da ilegalidade em si do ato policial, é espantoso como o assassinato é glorificado pelos policiais como um ato heroico. É heróico prender deliberadamente e torturar e matar indiscriminadamente? É isso o que o sistema capitalista e seu aparato repressivo podem oferecer à população, principalmente periférica. Arbitrariedade, corrupção e violência indiscriminada em nome de manter um regime de escassez em lazer, saúde e educação para que a casta política e burguesa siga com seus privilégios e com um projeto de nação que não é pensado para a grande maioria da população, que é quem constrói e mantém esse país em pé.




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