Economia

MOVIMENTO DE MULHERES

As mulheres precisam lutar pelo não pagamento da dívida pública

De um lado, a campanha nas redes sociais de "Mulheres contra Bolsonaro" e #EleNão com adesão de atrizes globais e presidenciáveis como Alckmin e sua vice Ana Amélia. Do outro, a desvalorização do real e o crescimento da dívida pública que subiu em 0,98% em apenas um mês. Duas notícias que circularam pelo noticiário brasileiro nestas semanas. Política e economia. Na superfície duas questões aparentemente desvinculadas uma da outra, mas será que é mesmo assim?

Daphnae Helena

Metroviária da estação Sé, economista e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas

quinta-feira 27 de setembro| Edição do dia

As mulheres serão muito importante para as eleições do país. No início da campanha eleitoral já eram um setor estratégico para os candidatos por serem maioria dos votos e a maioria também entre os indecisos (há dois meses atrás 80% das mulheres não tinham definido em quem votar). Dois meses depois, isso se confirma ainda mais com a onda que atingiu as redes sociais nas últimas semanas de "Mulheres contra Bolsonaro" e a #EleNão e que culminará em atos convocados para o dia 29 de setembro. É sintomático que, como parte de um fenômeno internacional de mulheres, esse seja o setor que se levante nestas eleições e canalize a raiva que existe contra o candidato Jair Bolsonaro, de extrema-direita, reconhecidamente machista, homofóbico e racista. Mas a adesão de personalidades reconhecidas da direita como Rachel Sheherazade, de revistas internacionais como The Economist, de presidenciáveis como Alckmin mostram um grande perigo, porque querem transformar o ódio das mulheres ao Bolsonaro em palanque eleitoral para candidatos de um mal menor como PT, Ciro e até mesmo Alckmin.

Nesta conjuntura de eleições manipuladas pelo judiciário e feitas para continuar o golpe e aprofundar os ataques aos trabalhadores e a entrega do país ao capital estrangeiro, algumas questões saltam aos olhos quando olhamos para as mulheres. As suas maiores preocupações nas eleições apontadas na pesquisa do Datafolha são saúde (46%), educação (18%) e desemprego (8%). A diferença é gritante com os homens cujas prioridades são segurança e corrupção.

Não é a toa essa diferença, a maioria das famílias no país dependem justamente das mulheres, e é sobre as mulheres trabalhadoras que recai o papel de reprodução da vida, de cuidar dos filhos, dos familiares, da casa, levar ao médico, se preocupar com a educação dos seus filhos. Quando olhamos para a economia do país, as mulheres são maior parte entre os desempregados. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego entre as mulheres é cerca de 15%, enquanto a dos homens está em 11%.

Os impactos da reforma trabalhista atinge primeiro o setor de serviços, com contratos mais precários, setor no qual estão empregadas a maioria das mulheres. A terceirização e precarização do trabalho, que já era realidade para as mulheres durante os anos do governo petista, se aprofunda com o aumento da informalidade e a aprovação da terceirização irrestrita. A expressão das preocupações femininas em torno das eleições, poderia se resumir no seguinte questionamento: a serviço do que e de quem estará voltada o governo e a economia do país no próximo período?

Isso nos faz voltar ao noticiário econômico. Como expressão das incertezas do período eleitoral no Brasil e do cenário internacional o dólar subiu aos patamares mais altos desde a criação do real, permanecendo na casa dos 4 reais. E a dívida pública aumentou em 0,98% (3,7 bilhões de reais) em apenas um mês, como consequência da maior volatilidade do câmbio. O que o mercado quer é a certeza de que terá um candidato que garanta o ataque aos direitos dos trabalhadores como a reforma da previdência para seguir pagando o roubo que significa a dívida pública do país.

Esse é um assunto que é pouquíssimo explicado e as gigantescas cifras do montante da dívida pública brasileira (que é de cerca de 5,5 trilhões de reais se for considerado a união, estados e municípios) deixa muito mais distante da nossa realidade. O que as mulheres trabalhadoras tem a ver com esse roubo? Muito. Nossa economia é estruturada para o pagamento da dívida pública. Como já abordamos em outros textos no Esquerda Diário, pela via de leis como a de Lei Responsabilidade Fiscal se esconde uma armadilha que é a limitação para o crescimento dos gastos estatais e a restrição aos gastos para saúde e educação. Tudo isso para manter o mecanismo da dívida pública e impor corte dos gastos públicos, do SUS, das creches e escolas impactam diretamente as mulheres, para beneficiar alguns poucos banqueiros e capitalistas como Itaú, Bradesco, Santander, Goldman Sachs, Merrill Lynch, Citigroup, entre outros.

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Sobre esse roubo que estrutura nossa economia, nenhum dos candidatos a presidência está disposto a questionar. Isto significa que Bolsonaro, Haddad, Ciro, Alckmin, Marina Silva, nenhum destes candidatos em ultima instância irão romper com a subordinação do país aos interesses e chantagens do mercado para realizar ataques aos trabalhadores.

O governo do PT durante os seus 13 anos de governo fez alianças com a direita e abriu espaço para esse setor que se fortaleceu com o golpe institucional. Em função dessas alianças, o petismo rifou pautas históricas das mulheres como o direito ao aborto. Mas além disso, os anos do petismo também foram anos em que se seguiu pagando a dívida pública, beneficiando imensamente os banqueiros e os empresários. Num período de crescimento econômico, o governo do PT foi aquele em que mais se pagou os juros e amortizações da dívida pública. Hoje, o candidato do partido Fernando Haddad, diretamente beneficiado pelo fenômeno de mulheres que acontece nas redes, já mostra a intenção de negociar com os empresários, capital estrangeiro, banqueiro, golpistas e conciliar até mesmo com PSDB para garantir a eleição, tudo isto "abrindo diálogo" aquilo que para eles é inegociável, o ataque ao direito dos trabalhadores com medidas como a reforma da previdência.

Por isso que é necessário que as mulheres, em especial as mulheres trabalhadoras, que hoje se colocam contra Bolsonaro, coloquem demandas que estão além do panorama eleitoral do voto, como a pauta do não pagamento da dívida pública, para romper com este roubo que ocorre no país e para que a economia do Brasil esteja a serviço dos trabalhadores, das mulheres, da maioria da população e não um punhado de bilionários. Sem se colocar temas como esse, que questionam a fundo a economia do país, as principais demandas das mulheres trabalhadoras e o próprio fenômeno que se expressou contra Bolsonaro será canalizado apenas para que se vote nas eleições em um candidato que seguirá os ataques. Uma demanda deste tipo poderia ser conquistada a partir da construção de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pela força da mobilização que pudesse pautar questões centrais como essa, mas que também questionasse o regime de conjunto, defendendo que todo juiz ganhe como uma professora e demandas históricas do movimento de mulheres, como o direito ao aborto.




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