Gênero e sexualidade

#8A: A MARÉ VERDE

As mulheres argentinas são um grande exemplo da força do movimento internacional de mulheres

Odete Cristina

São Paulo

quarta-feira 8 de agosto| Edição do dia

Ao longo de toda a história, nós mulheres, conseguimos por meio de nossa organização e luta arrancar nossos direitos, sempre em combate direto com os valores desse sistema capitalista e patriarcal. Nessa quarta, 8 de agosto, está colocado novamente um combate decisivo da luta internacional das mulheres: a votação no senado argentino sobre a lei que definirá a legalização do direito ao aborto. Em todo país e em diversos lugares do mundo as mulheres, ao lado dos seus companheiros homens, se preparam para enfrentar nas ruas o reacionarismo dos conservadores e das cúpulas das igrejas, arrancando por meio da nossa luta esse direito fundamental.

A votação na câmara de deputados só foi possível graças a enorme mobilização da maré verde que inundou o país pelo direito ao aborto legal. Foi a revolução das filhas, das jovens de 13, 14 anos que convenceram suas amigas, seus pais, seus avós, que defender a legalização do aborto é defender a vida das mulheres. Foram as trabalhadoras que se organizaram desde o seu local de trabalho, para debater com seus colegas operários que não poderiam aceitar que seus sindicatos continuassem rifando seus direitos, exigindo das centrais sindicais e comissões internas a realização de assembleias e convocação de uma paralisação no próximo dia 8, para que todos possam participar da mobilização que exigirá que o direito ao aborto seja lei. O combate para que o direito ao aborto seja lei na argentina terá um embate decisivo nessa quarta, em todo o mundo estaremos nas ruas para que a maré verde saia vencedora. A igreja e os setores reacionários já começaram a se mexer para pressionar os senadores a votarem contra, os jogos por poder fazem com que eles traiam uns aos outros, mas nós temos nossa organização.

As mulheres são a vanguarda da classe operária internacional

O exemplo argentino inspira todo o movimento internacional de mulheres, que vem sendo a vanguarda das lutas em meio à crise capitalista, seja na luta pelos direitos democráticos como é direito ao aborto, na greve docente dos EUA, ou nas mais diversas lutas operárias que acontecem mundo a fora. Nós mulheres somos hoje metade da população e da classe operária mundial. Somos 70% da população pobre e oprimida do mundo, enquanto não existe uma única mulher entre os 8 bilionários que detém metade de toda riqueza mundial. Essa é a realidade das mulheres no sistema capitalista. A burguesia tenta cooptar nossa luta, com falsos discursos que mulheres no poder poderão resolver essa situação. Mas nós sabemos que Angela Merkel, Hillary Cliton, Elizabeth II, ou qualquer outra mulher a serviço dos interesses da burguesia não vai conseguir responder ao profundo grau de desigualdade e opressão gerado pelo casamento bem-sucedido entre o capitalismo e o patriarcado. Somente confiando em nossas próprias forças, em nossa organização ao lado dos nossos irmãos trabalhadores, como fizemos em toda história da humanidade, é que poderemos arrancar cada uma das nossas demandas.

A luta das mulheres argentinas constitui hoje o principal exemplo de como a luta das mulheres pode nos colocar como vanguarda da classe operária mundial, passando por cima dos burocratas sindicais, das cúpulas das igrejas e dos políticos conservadores, retomando nossos métodos históricos de luta com greves e paralisações, e mostrando que essa força pode ser a chave para legalizar o direito ao aborto, para retomar nossos sindicatos e entidades estudantis como ferramentas de luta e organização, e conseguir dessa forma organizar a nossa classe para se enfrentar com os ajustes dos patrões e da burguesia, para romper de vez com os interesses imperialistas que subordinam países como Brasil e Argentina a destinarem todos os anos grande parte do seu orçamento para o pagamento de uma dívida ilegal, ilegítima e fraudulenta, pela via do não pagamento da dívida.

As lições que esse processo deixa são muito mais muito mais profundas. Para nós, cada conquista em meio ao sistema capitalista deve ser usada como ponto de apoio para fortalecer nossa luta pela destruição completa desse mundo e a construção de uma nova sociedade livre de toda opressão e exploração. Ainda não está certo se ganharemos a votação no senado argentino, batalharemos até o último minuto para que sim. Independente disso o movimento de mulheres internacional já tem uma conquista fundamental: a demonstração da nossa força e da nossa capacidade de transformar pela raiz os valores dessa sociedade degradada.

No Brasil e em todo o mundo: Façamos como as argentinas!

No Brasil, todos os anos mais de 500 mil mulheres morrem por abortos clandestinos. A cada 4 mulheres mortas por abortos clandestinos, 3 são negras. A luta de nossas Hermanas argentinas precisa ser encarada como um ponto de apoio fundamental para nossa luta no Brasil, se legalizamos esse direito no país vizinho o impulso da maré verde pode contagiar o país. Em meio as antidemocráticas eleições marcadas pelo golpe institucional e o sequestro do direito do povo decidir em quem votar, onde a Lava Jato e o judiciário golpista mantém o candidato líder nas pesquisas preso arbitrariamente, enquanto manobram e escolhem a dedo quem será o candidato que irá aplicar os ajustes contra os trabalhadores, a força da luta das mulheres pode ser o ponto de apoio fundamental para recolocar a classe operária em cena. Ao mesmo tempo em que rechaçamos a prisão arbitrária de Lula e defendemos o direito da população votar em quem quiser, sabemos que o PT governou em aliança com os setores mais reacionários da política, os mesmos que depois foram base de sustentação para o golpe institucional, e para isso se dispôs inclusive a rifar muitos de nossos direitos como é a legalização do aborto.

As mulheres argentinas são um exemplo para as mulheres no Brasil e em todo mundo, elas mostram que o caminho para alcançar nossas demandas passa centralmente pela organização em nossos locais de trabalho e estudo e pela luta nas ruas, sem nenhuma confiança nas instituições podres desse sistema capitalista. Aqui no Brasil, ao mesmo tempo que não podemos aceitar as manobras da Lava Jato e do judiciário golpista que tentam suas medidas arbitrárias como manter de manter o caráter antidemocrático dessas eleições pós golpe. Também precisamos ter claro que o discurso de mulheres no poder não muda a realidade estrutural da desigualdade entre homens e mulheres, entre negros e brancos. Por isso a única forma de alcançarmos nossos direitos é confiando em nossas próprias forças, construindo um forte movimento pela legalização do direito ao aborto e contra as arbitrariedades do golpismo institucional.




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