Política

EDITORIAL MRT

As eleições na Argentina são um duro revés para Bolsonaro

O "voto-castigo" na chapa kirchnerista varrendo o macrismo é expressão distorcida do descontentamento popular com quatro anos de um governo de ataques e entrega, agente direto do capital financeiro internacional. A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade é a quarta força nacional.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 12 de agosto| Edição do dia

O inesperado resultado das eleições primárias na Argentina é um verdadeiro terremoto político em toda a América Latina. A chapa Fernández-Fernández, com a ex-presidente Cristina Kirchner, derrotou com ampla vantagem a chapa da situação, levando a uma importante derrota do macrismo parecendo inclusive irreversível nas urnas em outubro. Como analisaram nossos camaradas do PTS na Argentina, o voto no peronismo-kirchnerismo é uma expressão distorcida do descontentamento popular e da vontade de colocar fim a um governo de ajuste e entrega, que atua diretamente como agente do capital financeiro internacional deixando a economia argentina nas mãos do FMI e aumentando a pobreza enormemente. Um "voto-castigo" que não deixa de guardar novas ilusões em um projeto que com outra cara também pactuou com o FMI.

Esse resultado tem ampla consequência continental, mas principalmente no Brasil, onde o macrismo teve como cabo eleitoral o presidente Jair Bolsonaro. A contundente derrota do "candidato de Bolsonaro" na Argentina é um duro revés para Bolsonaro no Brasil. Mesmo sendo expressão da correlação de forças burguesa, expressa, a nível de massas, um limite ao avanço da direita no continente que impactará nos projetos brasileiros de avanço internacional da extrema direita e de planos de ajustes para descarregar a crise nas costas da população pobre e dos trabalhadores.

Se abre agora uma situação de crise e incerteza ao menos nos próximos 4 meses de eleições e entrada do novo governo, que dependerá também da posição das figuras internacionais que sentem neste momento o gosto amargo da derrota, não só Bolsonaro, mas Trump e o FMI que patrocinaram esta campanha de Macri. O bolsonarismo e seu projeto de submissão ao imperialismo norte-americano deverá decidir se lança mão de sua força de extrema direita para fazer um contraponto ao kircherismo desde o Brasil ou se deixará que Macri amargue sozinho essa derrota.

Ainda que o bolsonarismo ataque a chapa Fernández-Fernández por "comunistas" fica claro que durante toda a campanha a Frente de Todos escondeu as consequências de seu programa de governo, que voltará a renegociar pactos com o FMI que terminem, na prática, descarregando a crise também sobre as costas dos trabalhadores e da população pobre. Os governadores peronistas de direita, com os quais Cristina Kirchner costurou essa vitória, foram responsáveis por garantir os ajustes econômicos de Macri, como a Reforma da Previdência que votaram junto ao governo. Nem falar do próprio Alberto Fernández, um amigo de Macri com ótimo trânsito nas federações patronais e na burocracia sindical peronista.

Neste caso, o malmenorismo kirchnerista tem no exemplo brasileiro uma lição estratégica: de mal menor em mal menor se constrói o "mal maior". O projeto de país do PT que usava a desculpa da "governabilidade" para estar ao lado do agronegócio, da bancada evangélica e de todos os tipos de políticos da direita brasileira, assumindo inclusive os métodos de corrupção inerentes ao capitalismo e levando adiante um inicial plano de ajustes, abriu espaço a um golpe institucional que permitiu a ascensão da extrema direita no país.

É por isso que os resultados da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FIT-U pela sigla em espanhol) – hoje encabeçada por sua principal força, o PTS, organização irmã do MRT na Argentina – como quarta força nacional com 700 mil votos são uma forte mensagem contra os poderosos, empresários e seus partidos, também aqui no Brasil. Uma mensagem da consolidação de um espaço político da esquerda revolucionária que constrói por baixo uma potente força militante capaz de combinar a ação parlamentar com a ação extra-parlamentar nas fábricas, nas universidades, nas ruas e na luta de classes.

Que este resultado tenha sido expressão de um processo de unidade é um grande exemplo para a esquerda no Brasil, que volta e meia está em blocos e alianças com PT, PCdoB e até mesmo partidos burgueses como Rede, PSB e PDT. A unidade construída pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, que se ampliou junto com MST argentino, mostrou a importância de manter posições de independência de classe como faz o PTS e a FIT, que ainda que abarque um setor minoritário em temos eleitorais neste momento, segue se localizando como uma importante vanguarda nacionalmente, que vai novamente se manter com dezenas de parlamentares pelo país, e se fortalece no sentido preparatório para ganhar peso de massas quando estas se radicalizem. A votação nas primárias expressa mais debilidade do macrismo e da direita do que fortaleza do kirchnerismo, que vai ter que lidar num quase certo governo com o choque entre as expectativas das massas de que venham a melhorar a situação, e os compromissos que fizeram com o FMI e os capitalistas. Isso tende a dar lugar a fenômenos da luta de classes que é o terreno onde o PTS e a FIT aposta em fazer a diferença para confluir com setores de massa que vão fazer experiência com o peronismo e vão tirar conclusões pela esquerda. É a primeira vez em décadas que a experiência com o peronismo terá pela esquerda uma força política de independência de classe com a relevância da FIT.

Deste grande acontecimento no país vizinho, com a esquerda trotskista como quarta força nacional, o PSOL, principal partido à esquerda do PT no Brasil, teve um papel marginal. Com exceção de algumas correntes, como o MES ligado ao MST argentino que se posicionou nas últimas semanas, o PSOL não foi parte dessa grande batalha. Longe da euforia já vista diante de qualquer tipo de engendro reformista ou neo-reformista mundo afora, tais como Syriza, Podemos, Bernie Sanders e afins, quando são os revolucionários encabeçando uma enorme batalha eleitoral, as principais figuras do PSOL passam longe do que deveria ser uma campanha internacionalista pelo fortalecimento da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade. Algumas de suas figuras, como é o caso de Marcelo Freixo, inclusive apoiou uma candidata que se negou a ser parte da unidade da esquerda e teve uma votação 4 vezes menor que a FIT.

Para nós do MRT este resultado coloca um enorme desafio internacionalista no próximo período. A batalha para que a eleições de Nicolas Del Caño, com Romina Del Plá como vice, seja uma mensagem ainda mais contundente em outubro é fundamental. Entre as principais batalhas no parlamento está a defesa da candidatura de Myriam Bregman. Tomaremos essas campanhas como parte de fortalecer um internacionalismo proletário, com um programa realmente anti-capitalista e como uma experiência que frente ao terremoto que causa o resultado dessas eleições possa chegar a milhões de trabalhadores também no Brasil a experiência da FIT-U. O Esquerda Diário estará a serviço dessa batalha.

Este desafio não está descolado das batalhas que estamos dando no Brasil e que seguem decisivas também para os trabalhadores e a juventude de nosso país vizinho e de toda América Latina: enfrentar o cruel plano de ajustes de Bolsonaro, Guedes, Moro, Maia e todos os empresários e capitalistas sedentos de lucro. Para isso, teremos que lidar com o freio que impõe as centrais sindicais e entidades estudantis, dirigidas pelo PT e PCdoB, que impedem a realização de um verdadeiro plano de luta pra enfrentar todo o avanço do autoritarismo judiciário, os ataques na educação e a reforma da previdência rumo ao Senado. Aqui também no Brasil seria fundamental um tipo de unidade da esquerda que fosse capaz de juntar forças pra se contrapor a política do PT e seus governadores que não somente apoiaram a inclusão de seus estados na reforma como são agentes dos ataques ao funcionalismo e à educação pública. É preciso tirar lições e se enfrentar aos limites postos pelo PT, PCdoB e seus sindicatos bem como entidades estudantis como a UNE. Uma unidade que pudesse colocar de pé um verdadeiro pólo da esquerda que com a força dos trabalhadores e da juventude nos locais de trabalho e estudo imponha que estas entidades se movimentem em defesa dos nossos direitos. As manifestações do dia 13 de agosto devem ser encaradas dessa perspectiva aonde nós do MRT, com a juventude Faísca à frente, levantaremos um programa pra que sejam os capitalistas que paguem pela crise.




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