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As eleições em Goiás: um olhar benjaminiano

Um panorama acerca das alianças feitas pela esquerda institucional em Goiás, e o que a esquerda marxista se propõe nesse estado, através das lições das “Teses Sobre o Conceito de História” do crítico Walter Benjamin redigidas à emergência do nazifascismo europeu e do fracasso da social-democracia e dos partidos comunistas em deter a ameaça hitlerista.

domingo 18 de outubro| Edição do dia

Vista de Goiânia, capital de Goiás, distante 209 quilômetros de Brasília sendo o 10º município mais populoso do país, com cerca de 1,5 milhão de habitantes (estimativa do IBGE em 2019). Fonte da imagem: http://emtempocn.com.br/ (Acesso em 12/10/2020)

Por que Walter Benjamin?

A priori parece um enorme esforço ou mesmo desnecessário se debruçar acerca das deficiências de uma esquerda que se predispõe a administrar o regime golpista capital pandêmico [1] - definição dada pelo sociólogo Ricardo Antunes para atual crise capitalista - fazendo uma leitura das teses de Walter Benjamin, sobretudo quando se trata de um estado que ainda mantém fortes vínculos com o passado coronelista como Goiás e onde nas últimas eleições Jair Bolsonaro alcançou 65,52% dos votos válidos. Ao nos referirmos à “esquerda” situamos nossa análise, para os partidos que se situam nesse campo, tais como uma esquerda institucionalizada e afeita à conciliação com os capitalistas como o PT e o PC do B e uma esquerda que, com inúmeras contradições se reivindica marxista e se coloca no campo à esquerda do PT, como o PSOL, o PCB e a UP (Unidade Popular Pelo Socialismo). Ademais, o fato de Benjamin ser continuamente associado a um pessimismo, entendemos que esse olhar em consonância com as teses, é fundamental, pois, à primeira vista Goiás e seu reacionarismo latente, pode parecer um terreno indisposto para transformações mais profundas, principalmente no campo da luta de classes ou mesmo na luta emancipadora dos oprimidos; como Benjamin apostava em suas teses e o modo como a história deve ser encarada é funcional de um ponto de vista anti historicista. De fato, demonstra que Goiás necessita de uma organização operária anticapitalista, alternativas revolucionárias de transformações sociais em todos os âmbitos em favor da classe trabalhadora, ou como Walter Benjamin denomina, os oprimidos.

O crítico literário, tradutor e filósofo Walter Benjamin escreveu suas “Teses Sobre o Conceito de História” em 1940, ano de sua morte em razão do sucícidio em meio à uma fuga sem sucesso na França de Vichy. Ao longo de 18 pontos o crítico alemão, faz um exercício dialético permeado por alegorias, a fim de elencar os erros da social-democracia alemã em barrar o fascismo, aos comunistas (stalinistas) da União Soviética devido ao Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939, aos “materialistas históricos” que concebiam a História, em consonante ao progressismo do capitalismo liberal, com um olhar fatalista da mesma, sem se atentar para as lutas de classes e aos vencidos nesse processo. As “Teses Sobre o Conceito de História”, não são apenas um importante documento da chamada “meia-noite” do século XX mas, fundamentais para a compreensão daqueles que se situam no campo revolucionário, a fim de dar voz aos que foram oprimidos, através da luta de classes, como situa Löwy, as teses benjaminianas, foram redigidas com propósito de concebendo a História,

Contra a visão evolucionista da história como acumulação de “conquistas”, como “progresso” para cada vez mais liberdade, racionalidade ou civilização, ele a percebe “de baixo”, do lado dos vencidos, como uma série de vitórias de classes reinantes”. (LÖWY: 2005, p. 60)

À luz dos acontecimentos recentes no país e no mundo, os reformistas e oportunistas se gabam de ser a “alternativa” ou de agora estarem mais “à esquerda” a fim de administrar os municípios dentro do atual regime golpista chefiado por Bolsonaro. Podemos associar tal imagem dessa “esquerda” ao do autômato da Tese I, que crê na vitória quase certa do “materialismo histórico”. Podemos estar, elevando e muito às comparações dessa esquerda reformista ao querer lhe comparar com o boneco da tese benjaminiana, que concebe a história como um tipo de máquina que conduz ao socialismo, mas essa esquerda, aposta em um período em que o capital não se encontrava em crise e a conciliação surfava em bons índices para o mercado, mas sem qualquer transformação significativa para os trabalhadores. Ao contrário, atuaram para o desmonte que na era Bolsonaro/Mourão se amplia. Essa aposta na vitória com base em uma era de reprodutibilidade intensa do neoliberalismo, ao nosso olhar não leva a vitória do inimigo histórico que atropela às massas, na crise financeira do capital e suas características fascistizantes e faz uma interpretação completamente errada do período em questão, haja visto que os anos PT - para sermos mais diretos - a violência do Estado aumentou circunstancialmente e os ganhos dos capitalistas foram extraordinários, demonstrando uma vitória dos opressores. Erra nesse sentido, a esquerda que quer ser como o PT, justamente por fazer uma interpretação incorreta da era lulopetista, como um período à ser retomado, e certamente, algo ineficaz para lutar contra o reacionarismo fascistizante que permeia a sociedade. Por tal linha de raciocínio que entendemos ser interessante fazer uma discussão acerca das candidaturas na capital de Goiás, Goiânia, no âmbito das principais candidaturas de esquerda institucionalizada e a marxista em paralelo às teses benjaminianas.

As principais candidaturas de “esquerda” em Goiânia - Goiás

Goiânia têm ao todo 14 candidatos à cadeira no Paço Municipal, a principal é do atual senador Vanderlan Cardoso (PSD), que tem o apoio do governador Ronaldo Caiado (DEM), as outras candidaturas com boa margem nas pesquisas, são o ex-governador e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia - município situado na área metropolitana da capital goiana - Maguito Vilela do MDB e Adriana Accorsi, deputada estadual pelo PT, que se ancora na linha de investimento em segurança pública, nada fora do esperado, vindo de uma figura que é delegada da Polícia Civil. O PC do B em sua organização pautada na veia eleitoresca, coliga junto ao MDB, ao PTC (Partido Trabalhista Cristão) ao PL (Partido Liberal) e ao Patriota de Cabo Daciolo. A UP e o PCB também têm candidatos à prefeito em Goiânia, entretanto sem coligações. Fábio Júnior, estudante da Universidade Federal de Goiás e trabalhador precarizado em aplicativos de transporte, é o candidato do Unidade Popular Pelo Socialismo. À primeira vista, para um leigo, suas propostas soam como revolucionárias, mas são no mínimo reformistas, por se proporem a fazer auditorias nas empresas de transporte coletivo de Goiânia e a implantação de um campo tecnológico de formação no município com o apoio do Sistema S. A princípio a associação ao Sistema S, soa como algo positivo para a classe trabalhadora, os profissionais formados pelo SENAI, têm maiores chances de colocação no mercado, do que técnicos formados em outras instituições, há um reconhecimento da qualidade do Ensino dessas instituições internacionalmente. Contudo, o Sistema S que deveria pertencer aos trabalhadores que contribuem para a sua manutenção, vem sendo aparelhado por empresários, que cortam vagas de trabalho e reduzem as ofertas de cursos, conforme as oscilações do mercado financeiro, como se fossem corporações privadas e autônomas.

O candidato do PCB, Antônio Neto enfatiza não ser contra o controle de gastos públicos através de mecanismos como a Lei de Responsabilidade Fiscal em consonância com o respeito à fraudulenta Dívida Pública, escancarando o caráter de conciliação com a burguesia que o PCB têm, por justamente não propor o boicote à aparelhagem do capital financeiro para minar as contas públicas e os investimentos sociais. Uma esquerda que se denomina revolucionária, deve ter em seu programa estratégico a abolição do pagamento da dívida pública. Esses encargos que remetem ao período do Brasil Império (1822-1889), quanto mais são pagos, mais aumentam, emperrando a capacidade de investimento do Estado. Isso tudo em um contexto no qual a necessidade da participação estatal na economia é fundamental para a sobrevivência da população, como podemos observar por exemplo, na importância do auxílio emergencial - insuficiente e liberado pelo governo a contragosto, mas que proporcionou em sua vigência com o valor de R$ 600, 00 o recuo de 23,7% no número de brasileiros pobres com renda inferior a meio salário mínimo - que foi reduzido em 50%, com a justificativa vazia de que as contas públicas do país não suportam a manutenção do auxílio, reforçando o caráter desse governo, que pouco se importa com as vidas dos mais pobres, e nesse espectro, principalmente as mulheres pobres e negras.

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O PSOL têm à frente de sua candidatura a professora Manu Jacob, primeira candidata autodeclarada negra à Prefeitura de Goiânia, a postulante psolista, também não possui um programa estratégico para enfrentar a crise, enfrentando os capitalistas. Como proposta contra um dos principais problemas da capital goiana, que é o transporte público, propõe-se a dialogar com os empresários. “O contrato das empresas vai até 2028. Não vou falar uma inverdade aqui, dizer que vamos chegar municipalizando. A primeira coisa é fazer o contrato valer. Sentar com as empresas e falar para cumprir o contrato”, diz Jacob à uma publicação goiana. Seria engraçado ler isso de um militante que se identifica como socialista, se não fosse realmente trágico, acreditar que empresários que jamais respeitaram um contrato burguês irão se prontificar à realizar tal feito na gestão de um partido que se situa à esquerda. Vale ressaltar que esta proposta em nada questiona os lucros bilionários que são garantidos por esses contratos, assim como as tarifas abusivas e a falta de gratuidade para jovens e desempregados.

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O caso do PT é simbólico, quanto à militarização da política, à exemplo do que fez em Salvador ao lançar a Major Denice Santiago como candidata à disputa para a prefeitura da capital baiana, em Goiânia a candidata é a deputada estadual Delegada Adriana Accorsi. Delegada da polícia civil do Estado de Goiás, Accorsi, esteve à frente de cargos como o de Superintendente de Direitos Humanos da Secretaria da Segurança Pública de Goiás (SSP­GO), à frente de uma investigação referente a grupos de extermínio suspeitos de serem responsáveis por centenas de assassinatos e dezenas de desaparecimentos (2011), sendo depois responsável pela direção da pasta até 2013, na gestão do tucano Marconi Perillo. Dentre todos os estados da federação e o Distrito Federal, Goiás é o único estado do país que desde 2018, não divulga os dados referentes à violência policial. No Ensino público estadual, já são 60 colégios militares e com cerca de mais 30 aprovados e esperando verbas (prioritárias para esse tipo de unidade escolar), caracterizando uma sociedade cada vez mais militarizada, sitiada por policiais.

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É com um projeto em que faz alarde à segurança pública, que a delegada candidata do PT, se apresenta como uma solução para os problemas dos goianienses. Caso Accorsi seja eleita, não será a primeira vez que o PT administra a capital de Goiás, nos últimos 30 anos o partido esteve à frente da Prefeitura de Goiânia outras três vezes, através das gestões de Darci Accorsi (pai de Adriana) (1993-1996), Pedro Wilson (vice na chapa da candidata do PT) (2001-2004) e Paulo Garcia (2010-2016), sempre atuando na administração do capitalismo, sem transformações significativas para os trabalhadores de Goiânia. Tal cenário, nos demonstra que um projeto revolucionário ainda não foi apresentado aos goianienses. Não há de fato, uma política pautada no enfrentamento da luta de classes, em favor dos oprimidos reivindicados por Benjamin em suas teses.

Qual seria então a alternativa?

As eleições municipais de 2020, são mais nacionais do que podemos mensurar, são as primeiras a se realizarem após a chegada de Bolsonaro/Mourão ao poder, o contexto de crise do capital pandêmico como já assinalamos, denota a efervescência da luta de classes, como pudemos observar com o breque dos apps em julho e agosto, e a greve histórica dos Correios contra o desmonte de direitos e privatização da estatal são alguns dos sinais, de que não podemos situar, mas a luta de classes na qual Marx e Engels e demais revolucionários como Lênin, Luxemburgo e Trotsky teorizaram e referiram em seus textos e práxis, se avizinha, pois a crise só se acentua, os golpistas do atual regime, estão unidos para descontar a carga nas costas dos trabalhadores.

Somente a organização dos trabalhadores para o enfrentamento dos capitalistas, torna possível a emancipação dos oprimidos conforme, Benjamin descreve em suas “Teses Sobre o Conceito de História”, e situa a redenção daqueles que caíram no passado, como o menino Miguel, que morreu devido à imprudência da patroa branca, que em meio à pandemia não poderia levar seu cão para passear. É urgente, se fazer em Goiás, uma organização com todos os trabalhadores que atue para destruir o capitalismo, como vemos no texto de Walter Benjamin, o trabalho por uma sociedade que não se dê ao conformismo (teses X e XI nas quais o filósofo alemão se debruça nas críticas à social democracia alemã e ao KPD, partido comunista alemão), do regime da ordem vigente, ou que se proponha a um progresso contínuo que leve a uma sociedade sem desigualdades. Tal organização se pauta na materialidade das necessidades das massas. Portanto alguns objetivos imediatos devem ser postos haja visto à celeridade que os trabalhadores necessitam. As indústrias que devem ter suas produções convertidas para atender às carências da população. Testes massivos para a covid-19, medicamentos, EPI’S e demais insumos e produtos voltados para o combate à pandemia, assim como, a produção de alimentos de qualidade devem estar nas mãos dos trabalhadores dessas empresas, pois são os principais interessados na manutenção da qualidade e dos preços acessíveis dessas mercadorias. A imposição de um congelamento dos preços dos alimentos, para que nenhuma família passe fome em razão da manutenção dos lucros de grandes agropecuaristas e empresários. Que o controle do Estado se dê através da participação de todos os trabalhadores organizados em comitês, organizações em que o proletariado nos termos marxianos, possam decidir uma jornada de trabalho justa, que não gere a mais-valia, mas que possibilite que toda força de trabalho seja incorporada e sem nenhuma redução salarial. Esses sendo mecanismos transitórios. De imediato, os capitalistas pagariam pela crise, que é de responsabilidade deles, que vêm destruindo o nosso planeta, possibilitando a proliferação de vírus cada vez mais perigosos à humanidade, que em suas especulações financeiras e espoliações fraudulentas como a dívida pública, sugam os nossos direitos e reservas monetárias. E a convocação de Assembleia Constituinte Livre e Soberana com a atuação das massas frente à isso, pois, a atual redigida no regime burguês, está obsoleta e desmoralizada com o atual regime golpista endossado por todos os poderes. Quem deve estar à frente da elaboração de uma nova carta constitucional são as massas. Essas e muitas propostas e lutas estão sendo colocadas nas eleições - que não são um fim, mas apenas um dos meios no qual podemos atuar como “tribunos do povo” denunciando o regime institucional golpista e trabalhando para que a classe dos oprimidos se organize pela emancipação anticapitalista - pelo MRT, Movimento Revolucionário de Trabalhadores, com as suas candidaturas à vereança por filiação democrática pelo PSOL. Em São Paulo, temos a Bancada Revolucionária com Diana Assunção, Marcello Pablito e Letícia Parks, em Contagem - Minas Gerais, Flávia Valle tem a tarefa de representar a nossa luta anticapitalista e Valéria Müller endossa esse combate em Porto Alegre. Para tanto, convidamos não apenas os goianienses, mas todos os goianos para construir conosco, essa que não é somente uma alternativa, que pauta-se na autonomia dos trabalhadores frente a esse sistema destrutivo que é o capitalismo.

Notas
[1] “A esta simultaneidade e imbricação trágica entre sistema de metabolismo antissocial do capital, crise do capital, crise estrutural e explosão do coronavírus podemos denominar, se quisermos usar uma síntese forte, capital pandêmico”. In: ANTUNES, Ricardo. Coronavírus [recurso eletrônico]: o trabalho sob fogo cruzado. 1. ed. - São Paulo: Boitempo, 2020 (p. 16-17) (termos em itálico são do autor).

Referências
ANTUNES, Ricardo. Coronavírus [recurso eletrônico]: o trabalho sob fogo cruzado. 1. ed. - São Paulo: Boitempo, 2020
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de História”. Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant [tradução das teses] Jeanne Marie Gagnebin, Marcos Lutz Müller. São Paulo: Boitempo, 2005.




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