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As contribuições do marxismo para analisar e resolver a crise ecológica global

Maria Eliza

Imagem: Amanda Navarro

As contribuições do marxismo para analisar e resolver a crise ecológica global

Maria Eliza

Cada dia mais o tema da crise ecológica pela qual o mundo está atravessado se impõe no dia a dia das pessoas. Desde as trabalhadoras, pobres, negras, os 20 milhões de refugiados por causas climáticas [1]; até os milionários e seus juízes e políticos, como são Jair Bolsonaro e Donald Trump: a discussão sobre o meio ambiente está em toda parte. Seja pelo senso comum de que “a natureza está devolvendo”, pela negação de que exista qualquer problema ambiental em curso ou, ainda, pelo esforço de jovens de vários países para pautar nas escolas, universidades, nas redes sociais, com seus familiares e amigos, em todos os lugares, a necessidade de frear o curso galopante de destruição do planeta que, sejamos sinceros, nada mais é do que um reflexo da insustentabilidade do modo de produção capitalista.

Embora nesse texto não busco focar na relação entre a Covid-19 e o tema do desequilíbrio ambiental, faz-se necessário começar por esse parêntese. Agora, enquanto o mundo é atravessado por uma pandemia e aguarda uma recessão ou mesmo uma depressão na economia global, esse tema é lembrado nas entrelinhas de um pânico generalizado, já que a origem do novo coronavírus, ao que tudo indica, tem relação com a exploração animal completamente irracional e imprudente [2].

As hipóteses de o coronavírus ter infectado humanos nos wet markets [mercados úmidos] de Wuhan, ou mesmo de que a atividade de caça de animais silvestres tenha feito algumas pessoas se infectarem ao terem contato com os ambientes onde esses animais vivem originalmente [3], não podem justificar o racismo repugnante distribuído a torto e a direito pela extrema direita mundial que, como Trump, dizem que o mundo é vítima de um “vírus chinês”. Com isso culpam pela pandemia a cultura e as práticas alimentares dos chineses, consideradas bárbaras sem nenhum fundamento racional no contexto de uma cultura ocidental que é mestre em indústria da carne, encarceramento desnecessário de animais e abatimento na grande maioria das vezes desnecessariamente doloroso. O que é totalmente descabido, sobretudo vindo das classes dominantes que pouco se importam com a boa, má ou ausente alimentação das classes trabalhadoras e pobres.

Para um próximo artigo seria crucial nos debruçar mais sobre este tema, não só no que tange a origem do vírus, mas também no quanto as mudanças climáticas alteram as condições para seu sucesso de contaminação (devido à intensidade e duração do período frio e seco do ano), e quais consequências ambientais esse tsunami já está deixando e vai deixar. Afinal, algum impacto deve ter a ausência abrupta de uma espécie de ser vivo, os humanos, em vários ambientes; o pelo uso de mais descartáveis; o aumento vertiginoso da quantidade de cadáveres; a pela diminuição da produção fabril, e um longo etc. Mas são reflexões iniciais. Voltemos a um panorama mais geral.

Agora estamos sob uma crise sem precedentes, que coloca em sério risco a existência de grande parte dos seres humanos – e não quaisquer humanos, pois os mais ricos têm seus leitos com respiradores garantidos. Mas já viemos vivendo, no último ano, no país onde, com poucos dias do governo Bolsonaro, vê-se de antemão o que promete sua política privatista e irresponsável quando “acontece” em Brumadinho o maior “acidente” de trabalho da história do país e um crime ambiental que apenas não superou o cometido pela mesma Vale em Mariana; onde a maior floresta tropical do mundo foi consumida em chamas em nome dos lucros dos latifundiários do agronegócio, com direito a um “dia do fogo”; onde misteriosamente acontece um derramamento de óleo de enormes proporções nas nossas praias, sem precedentes em áreas de natureza preservada. Esse ano, diante do maior volume de chuvas dos últimos anos (que versões confiáveis [4] explicam como consequência das mudanças climáticas, embora para parte da equipe de Bolsonaro elas sequer existam), novamente extravasam os rios poluídos e reprimidos pela urbanização, e famílias pobres contam os corpos de seus parentes, procuram seus documentos perdidos e tentam reconstruir suas vidas do zero.

O pano de fundo onde o Brasil se insere é um mundo em plena crise capitalista, não só econômica, mas política e social, que leva a fenômenos como, por um lado, a vitória eleitoral de Trump, Bolsonaro e outras figuras terraplanistas e obscurantistas e, por outro, um movimento de juventude que olha para essa extrema direita e diz: a culpa é de vocês, devolvam nosso futuro! Esse movimento, que protagonizou greves pelo clima, pode ser uma faísca internacional que desate transformações profundas caso se desenvolva não só com um conteúdo radical contra seus inimigos mais claros, mas também com independência daqueles políticos imperialistas, como o presidente francês Emmanuel Macron, que tenta enganar essa juventude vendendo um suposto capitalismo verde, enquanto suas empresas são parte das que mais exploram nossa matéria-prima e mão de obra no Brasil. Ou mesmo partidos, como o PT, que falam em defesa do meio ambiente quando sempre defenderam e seguem defendendo as mineradoras, os ruralistas e os grandes empresários de forma geral.

Cabe buscar, mais do que nunca, a resolução da crise ecológica global pela raiz, para nos permitir um futuro que não repita as cenas distópicas dos filmes e séries, como foi o anoitecer às três da tarde em São Paulo ou como tragicamente se desenha a previsão a curto prazo de milhares e até milhões de mortos no mundo por uma doença. O sentimento de época de uma geração que vê no horizonte a possibilidade permanente de tudo acabar sem solução precisa ser substituído por uma caracterização científica da realidade. É nesse sentido que se faz essencial retomar o “modo marxista de ver” a relação entre a sociedade e o restante da natureza, adotando bandeiras que de fato respondam aos desafios colocados e um plano de ação que nos permita ter conquistas contundentes na defesa da vida contra a destruição capitalista que, em nossa época, não mais avança gradualmente, mas dá saltos, maiores e mais rápidos que quaisquer conquistas fruto dos justos esforços individuais.

O “modo marxista de ver” a relação entre sociedade e o restante da natureza

Não só Marx, mas Engels e outros marxistas refletiram e escreveram sobre o meio ambiente (e, como é da tradição marxista, suas palavras serviram como base para que hoje tenhamos elaborações mais robustas sobre o tema), mas nessas linhas me restrinjo ao fundador do socialismo. Em “O Capital”, livro I, Marx desenvolve o raciocínio de que existe um “metabolismo” entre a sociedade e o restante da natureza, partindo de reconhecer que os seres humanos são componentes orgânicos da natureza e, como qualquer outra espécie, vivem em trocas fisiológicas com o meio em que vive. A diferença fundamental entre os seres humanos e as demais espécies, para Marx, é o trabalho. Ele diz, no clássico citado:

“Antes de tudo o trabalho é um processo de que participam os homens e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais do seu corpo - braços e pernas, cabeça e mãos -, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana..” [5].

Ou seja, o trabalho é a relação que o ser humano estabeleceu com a natureza para fins de sua própria sobrevivência e, como qualquer outra espécie, sempre buscando uma economia de sua energia.

Fomos bem-sucedidos nessa busca. Como a humanidade acumulou vários avanços tecnológicos, que no capitalismo servem para gerar desemprego e superexploração, hoje seria possível trabalharmos muito menos horas por dia e dedicar o restante do tempo para explorar nossas potencialidades humanas, como a arte, a consciência corporal, a ciência, dentre tantas outras. Poderíamos ter uma legião de “gênios” estudando de que forma manter a melhor relação possível da nossa espécie com a natureza (por exemplo evitando o cenário de uma pandemia e sabendo lidar melhor com as doenças), mas a amplíssima maioria da nossa espécie está ocupada, se dedicando a... sobreviver! Trabalhar para viver e viver para trabalhar, de forma alienada.

Transformar a natureza para sobreviver e sobreviver para transformar a natureza, se traduzirmos. O capitalismo nos transformou numa máquina de transformar a natureza, em proporções inclusive geológicas, porque o trabalho humano é capaz de criar excedente. A concentração deste excedente não está em função de alimentar os milhões de famintos no mundo, nem de garantir que nossas crianças possam estudar sem precisar trabalhar para comer, tampouco, como está escancarado, de produzir insumos básicos para combater uma doença, quando é necessário. Está em benefício de uns poucos seres humanos que exploram e/ou oprimem o restante da humanidade – os capitalistas.

Tudo o que a humanidade desenvolveu, em sua história de existência, para obter da natureza de forma mais econômica o necessário para viver – o que chamamos de meios de produção – está arbitrariamente nas mãos dos capitalistas, protegidos pelo Estado, com seus políticos, juízes, altos funcionários e forças de repressão armadas até os dentes. A classe trabalhadora, parcela da humanidade responsável por operar os meios de produção e produzir tudo o que todas as pessoas usam para sobreviver, precisa da permissão dos capitalistas para acessar esses meios e produzir suas condições de existência. O capitalista permite, sob a condição de que o trabalhador produza muitíssimo além do necessário para garantir sua própria condição de existência e usufrua, muitas vezes, de menos do que o mínimo necessário para sobreviver.

Sim, isso quer dizer que além do consumo irracional e desnecessário, que é parte da ideologia burguesa para criar necessidades de consumo e garantir lucros aos empresários ao mesmo tempo que existe uma privação aos mais pobres de consumir até o básico, o capitalismo é responsável por uma produção também irracional e desnecessária. Por exemplo, por que é necessário produzir carros, roupas, cosméticos voltados para a estética, logo agora que não há álcool em gel, máscaras e respiradores para salvar vidas? No capitalismo transformamos a natureza muito mais do que seria necessário, e segundo as necessidades do capital, não da humanidade. O capitalismo promove o que o marxista John Bellamy Foster, em 2005, chamou de “fratura metabólica”: interrompe o “metabolismo” entre o ser humano e a natureza pelas necessidades do capital. Para e por isso aliena a classe trabalhadora do fruto de seu trabalho – não só o produto que é usado, mas também o que é descartado.

Os lixões, o sistema de esgoto urbano, a separação entre cidade e campo, a saturação do solo usado e os venenos usados na agricultura e pecuária, até mesmo a medicina e farmacologia no capitalismo... tudo isso reflete um isolamento forçado do ser humano com relação ao restante da natureza, como se não fosse parte dela, e sim seu explorador absoluto, porque esse isolamento é mais produtivo, mais lucrativo. Mas também assassino, como Marx já alertava em 1867: “A produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.” [6]

Estamos falando de “ecossocialismo”?

Essa é a tradição socialista, com a qual é preciso buscar os fios de continuidade e fazer os balanços necessários para avançar. Após anos de um certo paralelismo entre o movimento ambientalista e os partidos socialistas, cada vez mais frequentemente se vê o termo “ecossocialismo”. Mas, ao mesmo tempo que ele reconhece os limites da luta ambientalista por dentro do capitalismo, reflete a escassez da apropriação da história e tradição do socialismo.

“Ecossocialismo” poderia ser uma redundância se parte da esquerda, após a burocratização da Revolução Russa de 1917, não tivesse se alinhado, ou se adaptado às ideias e à orientação da burocracia stalinista para o meio ambiente, que enxergava “atentado contra a revolução” quando se levantava a voz dos mais importantes ecólogos do mundo alertando sobre os perigos do desenvolvimento a todo custo. Se, no início da revolução, algumas das primeiras áreas de conservação do mundo, demarcadas e monitoradas, estavam em território soviético e a ecologia, na década de 1920, era provavelmente mais avançada na URSS que em qualquer outro país, após sua burocratização, foram cometidos crimes ambientais como a seca do Mar de Aral e o acidente nuclear de Chernobyl, além de que cientistas foram perseguidos, deportados e mortos [7]. Os partidos socialistas que, após esses grandes acontecimentos históricos, negligenciaram a batalha contra a devastação ambiental enquanto uma tarefa dos revolucionários, romperam com a tradição marxista.

Os adeptos dessa tradição, que reconhecem que não há perspectiva de resolução da crise ecológica por fora da superação do capitalismo, não devem esperar sentados a revolução. Pelo contrário, cabe a nós pensar cada bandeira que levantamos hoje, em cada local de estudo e trabalho, em torno das quais precisamos organizar um movimento real. Essas bandeiras, ou, em outras palavras, o nosso programa, precisam se levantar de modo que cada conquista parcial que possamos ter nesse sistema seja usada como um degrau para conquistar mais.

Um dos mais brilhantes dirigentes da Revolução Russa, Leon Trótski, elaborou um documento (de fundação de um partido internacional da revolução socialista!) no qual discute a relação entre as reivindicações imediatas das massas exploradas e oprimidas pelo capitalismo e a necessidade de que depositem seus esforços em uma luta que, em seu conjunto, precisa ser anticapitalista, sob pena de não conquistarmos nem mesmo as demandas mínimas. Ele diz que “É necessário ajudar as massas no processo de suas lutas cotidianas a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa da revolução socialista.” [8]

É preciso ajudar as massas para que a necessidade de não morrer por uma infecção quando isso pode ser evitado não se transforme em apoio aos que sempre foram nossos inimigos, desde Maia, passando por Mandetta, e chegando, pasmem, aos militares! Para que a defesa do direito de respirar um ar que não seja adoecedor não se transforme em um apoio a que países imperialistas imponham taxas sobre a emissão de gases poluentes de países subdesenvolvidos ou atrasados, para que os mais pobres paguem por essas taxas com seus impostos. É preciso ajudar as massas para que a preocupação com a proteção de áreas com grande importância ambiental não se transforme em reivindicar que as empresas financiem projetos, para depois mentirem para a população em comerciais onde fingem que são minimamente responsáveis com o meio ambiente. É preciso ajudar as massas para que, em defesa de sua saúde e das condições de existência das próximas gerações e das demais espécies de seres vivos, batalhemos pela expropriação das grandes empresas poluentes, porque esses meios de produção estão nas mãos de quem exige uma produção poluente.

Batalhemos, em primeiro lugar, para que nenhuma empresa lucre com a morte de pessoas nessa pandemia, como querem as montadoras como General Motors, Fiat e Ford, que se dispõem a produzir respiradores mas não a vender a preço de custo, ou mesmo a doarem estes equipamentos que são essenciais para salvar vidas, para o sistema público de saúde. Os trabalhadores, à cabeça da produção de todo o necessário para enfrentar essa crise, inclusas as fábricas, os hospitais, supermercados, tudo, são quem, única e exclusivamente, podem dar uma resposta a nosso favor neste momento.

Para responder à crise ecológica global, lutemos para que cada Cargill, ADM, Dreyfuss, Bungee, do agronegócio; cada Vale, BHP Billiton, Tüv Süd da mineração; cada Engie, Enel, da geração de energia, cada Petrobras dos combustíveis fósseis; que cada uma dessas empresas esteja totalmente sob gestão da classe social que já faz com que suas máquinas funcionem todos os dias e tem como interesse apenas a sua subsistência – a classe trabalhadora. Longe das mãos dos que querem lucrar acima de tudo, os ambientalistas, ecólogos, sociólogos, engenheiros, médicos, veterinários, profissionais das mais diversas áreas e ativistas das causas sociais e ambientais, podem auxiliar os trabalhadores a transformar radicalmente o modelo de produção de alimentos, a exploração de matéria-prima, a matriz energética, etc.

É preciso firmar aliança estratégica com a classe trabalhadora, que pelo papel que cumpre na produção é a única classe capaz de protagonizar a superação do capitalismo pelo socialismo, abrindo espaço para caminhar rumo a um sistema de produtores livremente associados, onde cada um contribua com o que pode e receba conforme precisa – o comunismo. Os movimentos não só ambientalistas, mas de mulheres, negros, indígenas, LGBTs e estudantis, precisam declarar que seus inimigos são os donos desse sistema, e em cada manifestação, greve, piquetes, ou qualquer momento de luta, levantar a bandeira do socialismo pelo fim da destruição do planeta: destruamos o capitalismo!

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FOOTNOTES

[4Wasko et al, 2017

[5MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Crítica da Economia Política. 27. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. 3 v. (1). p.211

[6MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Crítica da Economia Política. 27. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. 3 v. (1). p.703

[8LUÍS SIEBEL (ed.). O Programa de Transição: Documentos da IV Internacional. São Paulo: Iskra, 2008. p.20
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Maria Eliza

Estudante de Biologia da UFMG
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