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As camisetas da Febem e a elite que ri do aprisionamento de crianças negras

A prática de tortura e humilhação pela qual passaram milhares de crianças negras em nosso país foi motivo de riso para a elite brasileira na figura dos donos da marca Mulher do Padre. Essa elite não apenas ri, mas lucra rios de dinheiro com o racismo e com o encarceramento em massa.

Leticia Parks

São Paulo

segunda-feira 29 de janeiro| Edição do dia

Nos dois últimos dias, circulou nas redes sociais a imagem (acima) de uma camiseta da marca AMP (mulher do padre), que estava sendo vendida na loja de Pinheiros, na cidade de São Paulo. A marca de elite retirou as camisetas de linha quando a denúncia se alastrou nas redes sociais. Em uma nota pública, a empresa justificou que a camiseta é parte de uma linha de estampas chamadas LOST&FOUND (Achados e Perdidos, em português) e, dentre outras, fizeram a da FEBEM porque a ideia era reproduzir “uniformes de companhias aéreas, instituições, concertos musicais e muitas outras que remetem a um passado distante que fez parte das nossas vidas de alguma forma”.

A nota foi reeditada mais uma vez, porque estava cheia de “escorregadas” infelizes típicas da elite nacional brasileira. O trecho final da citação, “que fez parte das nossas vidas de alguma forma”, foi substituído por “que remetem a um passado distante”, após novas críticas nas redes sociais.

Mas apesar de qualquer desculpa que queiram dar, a nossas mentes vem imediatamente a vergonhosa lembrança da festa à fantasia “Se nada der certo”, que foi promovida por estudantes do Colégio Maristas, dentre outros de elite espalhados pelo país, ocasião na qual os filhos da elite se vestiam de profissões de gente que “deu errado”, como funcionários do Mc Donalds, de supermercados, porteiros, garis, domésticas, entre outras profissões. A conexão é clara: ambas as situações debocham de algo que só pode ser gracioso para quem se beneficia da desigualdade social e do racismo.

Febem: longe de uma piada

A Febem (Fundação para o Bem-estar do Menor) foi inaugurada em 1976 com esse nome para uniformizar uma série de instituições para menores que estavam espalhadas pelo país com outros nomes. Não seria repetitivo lembrar o leitor de que a fundação da Febem se deu dentro do período da ditadura militar. Naquela época foram muitas as ações estatais de legitimação da violência, de institucionalização e criminalização das contradições sociais. Viver na rua era crime, pago com a vida nas mãos dos torturadores inocentados pelo governo PT e idolatrados pela direita golpista.

Mas a prática da tortura, constante tanto nas Febems quanto nos presídios comuns, não acabou com o fim da ditadura. Em parte porque a saída da ditadura pactuou com os torturadores, que assim nunca se viram obrigados a sair de seus postos de comando. Em parte porque a prática prisional é um prato cheio para o abuso de autoridade e o castigo corporal e mental. E há também uma parte enorme que é o próprio racismo, que alimenta o ódio racial contra as minorias – negros e indígenas, principalmente – fazendo com que se considere natural que jovens de apenas 12 anos estejam privados de sua liberdade.

A FEBEM foi rebatizada e alguns de seus métodos reavaliados, porque mesmo numa sociedade tão doente quanto a capitalista, algumas coisas passaram a ser escândalos impossíveis de conter. Foram muitas as denúncias de tortura, incluindo abuso sexual e estupros e mortes, atribuídas a carcereiros (agentes “educacionais”) que lidavam diretamente com os jovens. Um dos casos mais famosos foi o de 12 funcionários da instituição que, em 2005, foram acusados de torturar 111 adolescentes (oficialmente) em uma unidade da Vila Maria, em São Paulo. Eles foram condenados apenas em 2017, mais de 12 anos depois do ocorrido e apenas em base a 58 das 111 vítimas. Os funcionários negavam os crimes, mas as provas mostravam jovens com escoriações e hematomas na cabeça, costas, ombros e nádegas.

A agora chamada Fundação Casa não é muito diferente. São muitos os casos denunciados e muito mais ocultados. E, apesar da mudança de nome e das mínimas diferenças em comparação com os presídios, continua sendo uma forma de aprisionamento de menores em um país onde legalmente, isso só poderia ocorrer a partir dos 18 anos.

Por trás das grades, humilhação e ganância

Em seu livro “A nova segregação”, a autora Michelle Alexander comprova em dados como o sistema carcerário é utilizado como forma de lei de segregação para todos aqueles que passaram por ele. Nos EUA, quando saem, são impedidos de ocupar cargos políticos, de votar nas eleições, de serem atendidos por programas sociais, entre outros bloqueios a direitos civis elementares.

O mesmo ocorre no Brasil, como mais uma prática segregacionista contra os negros, já que somos quase 62% da população carcerária e 70% dos internos da Fundação Casa. Se aos negros já está destinado receber menores salários (cerca de 60% a menos que o de um homem branco, no caso das mulheres negras), quando saem do sistema prisional, somos forçadas a buscar os trabalhos ainda mais precários, em empresas que determinam cotas sociais de contratação de ex detentos, a quem se dão o direito de pagar menos do que aos outros trabalhadores. Há, inclusive, leis que obrigam que o Estado pague até dois salários mínimos a cada ex-detento contratado em uma empresa.

Prender gente, além de prática de higienização social, virou negócio. Também para aqueles que agora lucram com os presídios privados, que já chegam a três no país.

Acredito que tenha feito suficiente ilustração para comprovar o ódio que senti ao ver essas camisetas que, não, não representam o passado longínquo de nosso país. O que sim representam é o presente de humilhações a que nós negros e trabalhadores somos submetidos, as injustiças a que estão submetidos os trabalhadores e jovens moradores das periferias e favelas de nosso país, a realidade de miséria que vivemos dentro do capitalismo. Representam o modo de pensar dessa burguesia racistas, que nunca deixou de existir e sobrevive oculto nas conversas secretas dos seus almoços e festinhas da elite. Mas uma coisa devo concordar com eles e discordar dos que, nas redes sociais, sentiram a mesma revolta que eu mas que afirmaram que quem desenhou essas camisetas nunca viveu a experiência da FEBEM, ou jamais teria feito isso.

Eles viveram a experiência da FEBEM, vivem a experiência da Fundação Casa e da realidade dos presídios. Mas não como detentos ou internos. Como elite que se beneficia da tortura, da humilhação e da miséria. Que usa os anos de prisão para pagar mais ao costureiro ou costureira de sua marca de camisetas e roupinhas de elite. Que nada no dinheiro do trabalho que nós produzimos. Eles vivem essa realidade sim, mas do lado de lá. E de lá, de dentro de suas casas palacianas, riem de nós. Por enquanto.




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