Teoria

CENTENÁRIO DA GREVE GERAL

Arquivo Edgard Leuenroth: A Greve Geral de 1917, sua importância e legado

O Arquivo Edgard Leuenroth organizou nesse 28 de junho um dia de debates em memória da Greve Geral de 1917 e em comemoração aos 43 anos de seu acervo, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

Tatiane Lima

UNICAMP

quinta-feira 29 de junho| Edição do dia

O dia foi iniciado com uma Mesa que buscou traçar um paralelo entre a Greve Geral de 1917 e os dias atuais de luta dos trabalhadores brasileiros, contando com a presença de professores e pesquisadores da área do Trabalho e do Direito Trabalhista, como pode ser acompanhando aqui.

Para abrir as atividades da tarde, foi realizado o lançamento de uma edição impressa do “Jornal de Borda”, pela artista Fernanda Grigolin, sua idealizadora e organizadora. Sua edição impressa com a colaboração de diversos artistas, editores, curadores e pesquisadores e trata do tema da Greve de 1917, bem como aborda debates sobre memória, poder, feminismo e outros debates. Ela conta também com uma versão fac-símile do Jornal A Plebe, editado pelo anarquista Edgard Leuenroth no ano de 1917. O Jornal pode ser acessado aqui.

Debate: “A Greve Geral de 1917 - Importância e Legado”

Com o tema “A Greve Geral de 1917 - Importância e Legado”, a Mesa da tarde contou com a participação de professores e pesquisadores do tema, sendo eles: A professora do programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia, Christina Lopreato, também autora do livro “O espírito da revolta - A greve geral anarquista de 1917”; O professor do Departamento de História da UNIFESP e pesquisador do Centro de Imigrações Internacionais, Luigi Biondi; A professora de História da PUC-Campinas e pesquisadora do tema do Trabalho Feminino e Organização das Trabalhadoras de São Paulo nos anos de 1917 a 1937, Glaucia Fraccaro. Além da coordenação, feita pelo Professor do Departamento de História do IFCH e pesquisador no Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Cláudio Batalha.

Christina Lopreato abriu a discussão contextualizando o cenário de 1917 que envolvia os trabalhadores da cidade de São Paulo em uma carestia das condições de vida, com a chamada “crise do pão” (dada pelo EUA estarem na guerra e pela queda na colheita da Argentina, ambos exportadores para o Brasil), uma alta geral nos preços dos alimentos, bem como a adulteração destes por parte dos fornecedores, além de uma alta no desemprego. Isso tudo em uma cidade com massivos setores de trabalhadores imigrantes, onde a pauta da Guerra Mundial se fazia presente. Também colocou como as condições de trabalho eram extremamente brutais nesse momento. Um enorme contingente de mulheres e crianças eram usadas para substituir a mão de obra por salários mais baixos e jornadas extenuantes, sendo que as crianças muitas vezes eram mutiladas ou até mortas no chão da fábrica, além de tomarem diversas “multas” que chegavam a retirar todo o seu salário.

A principal tese de Christina é com respeito à organização e condução da Greve Geral. Em resposta a autores que afirmam que a greve teve um caráter espontâneo e irrefletido, dado pelas condições objetivas, a pesquisadora afirma que a mobilização foi anunciada e preparada pelos militantes anarquistas, e que sem eles ela não teria existido. Desenvolveu então como o movimento operário já vinha imbuído de uma agitação e incentivos à organização pelos anarquistas, fruto das mobilizações das décadas anteriores, onde os anarquistas incentivavam os trabalhadores a não esperarem a boa vontade dos patrões e dos governos e a construção das Ligas Operárias, que algumas já vinham de antes de 1917, tomavam esse objetivo. Reivindicou também o papel dessa organização na própria Greve Geral, com a organização do Comitê de Defesa Proletária (Comitê conformado pelas representações dos operários para as discussões de negociação das suas reivindicações com os representantes dos industriais). Fez uma caracterização de como se deu o desenvolvimento da Greve, que havia se iniciado um mês antes, em junho com a paralisação de 400 operários da têxtil Crespi, para então na “semana trágica”, iniciada 9 de julho com confrontos entre policiais e grevistas, que culminaram no assassinato do operário espanhol José Martinez, para descrever o ascenso desse movimento que ficou marcado como a primeira Greve Geral da história do nosso país, que envolveu dezenas de milhares de operários de diferentes setores das indústrias e teve como marca reivindicações por direitos elementares e aspirações sociais gerais, como a abolição do trabalho infantil e a redução das jornadas extenuantes que chegavam a até 16 horas diárias. Christina também remarcou o papel de Edgard Leuenroth e de sua publicação militante do Jornal A Plebe, bem como ressalta que um dos legados mais importantes da Greve foi o reconhecimento de si mesmos a que chegaram os operários, enquanto sujeitos de um movimento social e político de grande magnitude. Fez ainda uma referência ao papel da Grande Imprensa da época, em mediar e reconhecer a Greve, com o da atual, que buscou de todas as maneiras diminuir e criminalizar a Greve do 28 de abril.

Luigi Biondi abriu sua exposição em diálogo com a polêmica historiográfica e política acerca da participação dos militantes organizados na Greve de 1917. Discutindo contra a afirmação de Boris Fausto de que a greve foi espontânea, no sentido de não ter sido auto-organizada, colocou seu reconhecimento ao protagonismo dos militantes anarquistas, como reivindicou Lopreato, mas incluindo nessa direção política também militantes socialistas, além, mesmo que em menor medida, dos republicanos. Defendeu então um conceito de mutualismo dessas tendências políticas na organização do movimento operário da época e no desenvolvimento da Greve Geral de 1917. Para essa afirmação destacou o papel do militante socialista Teodoro Monicelli no Comitê de Defesa Proletária, além de outros militantes dessa tendência. Debateu também acerca da presença dos socialistas na conformação da Federação Operária de São Paulo, bem como das próprias Ligas Operárias, a partir de suas ações e materiais de agitação política.

Uma das marcações de Luigi é com relação ao caráter escalonado que teve a Greve Geral de 1917, mostrando como ter iniciado na Crespi um mês e antes e seu crescimento progressivo indicam isso. Os dados que apresentou mostram o nível do crescimento da participação de operários na Greve em dias, sendo que no dia 11 de julho eram cerca de 15 mil; no dia 12 de julho eram cerca de 20 mil, com mais de 6 mil por solidariedade contra a repressão policial que levou à morte Martinez; no dia 14 de julho eram cerca de 35 mil e no dia 16 eram cerca de 44 mil, logo após celebrar o referendo do acordo, estava no ponto máximo a mobilização. Luigi remarcou que o caráter da Greve era pacífico por parte dos trabalhadores, os confrontos policiais estavam em torno dos assaltos aos moinhos de farinha e que a opinião da Grande Imprensa passava uma ideia de que os governos estavam abertos, mas que a repressão nas ruas era intensa. Luigi também debateu o papel importante que tinham os imigrantes italianos e espanhóis na composição desses trabalhadores que se organizavam em 1917.

Glaucia Fraccaro tomou como recorte o tema “1917 - Mulheres, greves e justiça social”, mostrando como as mulheres e crianças (que na maioria eram meninas) forneceram os primeiros braços fabris do nosso país, sendo que chegavam a ser cerca de 60% dos setores operários do início do século, em especial nas grandes indústrias têxteis. Partiu então de demonstrar como os temas tomados pelas principais reivindicações da greve vinham dessa realidade, como a exigência de salário igual para trabalho igual, onde os salários dos homens chegavam a ser 84% maiores do que os das mulheres, sendo que mesmo no ramo têxtil, onde elas eram maioria, os homens ganhavam cerca de 60% a mais. Glaucia também mostrou esse recorte nos “fins da Frente Operária de São Paulo”, onde a frase “Que gerentes e encarregados deveriam respeitar todos os operários”, está no nível de assédio e abuso que as mulheres sofriam por parte dos supervisores.

Glaucia discutiu também contra a tese de que as mulheres não foram ativas nas movimentações da classe trabalhadora desse momento histórico, e como isso deve ser visto com um olhar que não esteja concentrado nas figuras que tomavam a direção política apenas, mas ao movimento em todos os seus recortes. Uma reflexão importante que colocou para ser desenvolvida é a alta participação das mulheres nas Ligas Operárias, que muitas eram parte da organização da própria Greve, como demonstra a Liga da Mooca, criada por trabalhadores da Crespi em greve, onde a maioria eram mulheres. Outra conclusão que compartilhou é como os trabalhadores passaram a compreender uma noção de justiça social baseada nos direitos, e que entre esses os direitos das mulheres eram parte fundamental.

Cabe a todos nós, estudantes e trabalhadores, nesse momento de profunda crise política e reformas ferozes contra a classe trabalhadora, tomarmos as memórias e debates em torno do que foi a primeira Greve Geral que os trabalhadores brasileiros protagonizaram para pensarmos seu legado e lições, bem como atuarmos sobre os desafios colocados para defendermos nossos futuros.




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