Opinião

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Argentina contra a reforma da previdência: a esquerda que Temer não previu

Temer gastou bilhões comprando deputados, contou com a traição das centrais sindicais para ganhar tempo e conseguir passar a reforma da previdência. Mas do outro lado da fronteira surgiu uma novidade que ele não esperava, uma esquerda que ajudou a que a raiva contra a reforma se expressasse. O impacto da luta na argentina ecoou na classe trabalhadora brasileira.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 20 de dezembro de 2017| Edição do dia

1. A melhor tradição do internacionalismo operário dá grande importância à assimilação das experiências do movimento dos trabalhadores a nível mundial. Grandes batalhas da classe trabalhadora contra a ofensiva dos capitalistas geram ondas de choque de ultrapassam fronteiras, e podem alterar a relação de forças entre as classes em outros países, como vimos inúmeras vezes no decorrer do século XX, e de nosso século. Não em vão, em 1902 Lênin enfatizava que “o movimento revolucionário é, pela sua própria essência, internacional. Isso não significa somente que devemos combater o chauvinismo nacional. Significa, também que um movimento iniciado em um país jovem só pode ter êxito se assimilar a experiência dos outros países”.

A contundência da luta contra a reforma da previdência na Argentina já é um fenômeno que ultrapassa as fronteiras nacionais: se trata de uma batalha de transcendência latino-americana. A luta contra a reforma da previdência no Brasil, até agora entendida em simples marcos nacionais, ganhou novos contornos e se tornou uma batalha internacional. Se a aprovação dessa reforma na Argentina foi um revés para os trabalhadores no subcontinente e impacta no Brasil (17 milhões de aposentados terão cortes nas pensões no valor de 100 bilhões de pesos), o governo Temer conta com uma dificuldade adicional que não previra: os trabalhadores brasileiros estão acompanhando com entusiasmo a audácia com que trabalhadores, jovens e aposentados argentinos se enfrentam contra a "mãe de todas as reformas" de Mauricio Macri.

O enfrentamento que durou horas contra a virulenta repressão policial (repressão incentivada por toda a imprensa burguesa) seguida pelos "panelaços" que se estenderam pela madrugada nas ruas de Buenos Aires colocaram a luta de classes de volta ao centro da cena contra o avanço dos ajustes da direita latino-americana (tanto que tornou opaca a vitória eleitoral – sem entusiasmo – do empresário Sebastián Piñera no Chile).

2. Apesar da aprovação da reforma da previdência, não há dúvida de que a legitimidade de Macri nas urnas em outubro foi duramente questionada no principal ataque que buscava aplicar o governo. A resistência nas ruas até a madrugada, depois de horas de choques contra a repressão brutal da polícia argentina, dava novo significado ao golpe de magnitude que havia recebido o governo com o cancelamento da sessão da última quinta-feira.

70% da população argentina rejeita a reforma da previdência (chega a 80%, quando questionada se é correto reduzir o déficit ajustando as pensões). No Brasil, o rechaço à reforma da previdência atinge 80%. E os números não ficam suspensos acima do tecido da história: um governo fruto do golpe institucional de 2016, se não tem o controle das urnas, tampouco possui legitimidade para atacar.

O mais significativo é que o resultado favorável que a direita argentina conseguiu nas urnas não implicou uma alteração da relação de forças social. Ou seja, ao contrário dos que acreditavam que os ajustes de Macri teriam "terreno livre" para avançar, a luta de classes mostrou que não, que uma vez organizadas, a raiva popular contra os ajustes poderia ser canalizada em uma força esmagadora contra os capitalistas e seus políticos. Os custos foram altíssimos: o rei macrista está nu, e mostrou em toda a plenitude sua cara reacionária, antioperária e antipopular.

3. Como dissemos no início, a luta de classes apareceu como o fator chave para abalar os planos do governo de aplicar os ajustes. Roubar 100 bilhões de pesos dos idosos por meio da repressão estatal deixou marcas profundas: a raiva generalizada que atravessou o país nesta última semana pode ter alterado completamente o horizonte dos dois últimos anos do mandato de Mauricio Macri.

A esquerda argentina, com papel destacado para o PTS na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, teve um papel preponderante para organizar e preparar de antemão a participação mais ampla possível dos trabalhadores das fábricas e da juventude universitária. O PTS e o sindicalismo combativo agrupado no Movimento de Agrupações Classistas (MAC), junto a outras organizações que são parte da Frente de Esquerda, estiveram na linha de frente do enfrentamento contra a repressão de Macri aos que denunciavam o roubo da reforma da previdência.

A existência de uma esquerda revolucionária de combate, com inserção no movimento operário, foi fundamental para que o repúdio massivo à reforma da previdência se expressasse nas ruas. Assim também para exigir imediatamente a frente única operária às centrais sindicais traidoras.

4. As centrais sindicais na Argentina não fizeram nada para bloquear o ataque. A CGT, principal central sindical do país, como se não bastasse ter boicotado a jornada de resistência sem paralisar qualquer setor, soltou uma declaração contra a suposta "violência dos manifestantes", ecoando a campanha de demonização de toda a imprensa burguesa e ocultando a repressão estatal. Confundiu os manifestantes convocando uma marcha, e desconvocando-a em seguida (mera coincidência com os métodos da burocracia sindical brasileira?). O desconforto dos trabalhadores com as direções sindicais se viu nas ruas: cartazes com “CGT traidora” se viram entre os trabalhadores do frigorífico Cresta Roja e outros setores.


Comunicado da CGT

Apesar dos obstáculos impostos pelos dirigentes sindicais, os trabalhadores e os diferentes setores populares mostraram uma forte predisposição para enfrentar Macri e seu ajuste. A proeminência da esquerda em geral, e do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) na FIT em particular, bem como o sindicalismo militante, foi essencial para promover e sustentar a mobilização contra um projeto amplamente repudiado. Os trabalhadores e trabalhadoras de base tomaram a resistência em suas próprias mãos e se mobilizaram ao Congresso. O histórico estaleiro Rio Santiago, com seus 15 ônibus e cerca de 700 trabalhadores que participaram da marcha, as fábricas da alimentação da Zona Norte de Buenos Aires (Kraft-Victoria e Pacheco) ou os metalúrgicos de Avellaneda foram apenas alguns exemplos.

A exigência de que os sindicatos acabem com seu jogo funcional de ameaças e convoquem um verdadeiro plano de luta, discutido em todas as fábricas, empresas e departamentos, com a preparação de uma verdadeira greve com mobilização para vencer todas as reformas de Macri, coloca-se na ordem do dia.

Entretanto, exigir um plano de luta dos sindicatos não significa ficar de braços cruzados. Como mostrou o PTS junto a outras organizações, é preciso que os partidos de esquerda se coloquem de corpo na luta de classes para impor a mais ampla frente única operária contra as reformas, exigindo assim das centrais sindicais um plano de luta sério. No Brasil também.

5. Os deputados do PTS e da FIT cumpriram um papel destacado na longa jornada de combate, dentro e fora do Congresso, junto com a militância das organizações que compõem a FIT. Estando nas ruas desde a primeira hora da manhã, lado a lado com os trabalhadores e aposentados que se manifestavam contra a repressão policial, uma vez no interior do Congresso resgataram o melhor da tradição do parlamentarismo revolucionário.

Nicolás Del Caño, deputado federal do PTS, denunciou o roubo de 100 bilhões de pesos das aposentadorias de 17 milhões de idosos, carregando contra a repressão orquestrada pelo governo Macri e apoiado pela imprensa burguesa. Diversos meios periodísticos captaram o momento em que Del Caño se dirige a um deputado oficialista (ver abaixo) dizendo “Você está rindo de quê? Está rindo dos pobres? Quanto você recebe? Recebe 100 mil pesos enquanto um aposentado receberá 7000!

Posteriormente, quando a repressão policial levou à detenção de jovens e dirigentes operários como Carlos Artacho (telefônicos) e Claudio Gonzáles (trabalhador da PepsiCo), Del Caño se retirou do Congresso e junto à legisladora do PTS, Myriam Bregman, e organismos de direitos humanos como o CeProDH, foram à delegacia liberar os presos de Macri.

Intervenção completa de Nicolás Del Caño na sessão do Congresso

Em rede nacional, Myriam Bregman denunciou a violenta repressão por parte do governo federal, lembrando que a família de Macri cresceu de 7 para 47 empresas durante a última ditadura militar argentina: “Eles, que se enriqueceram com a ditadura, falam de violência?”, ao ser questionada sobre os supostos “manifestantes violentos” que jogaram pedra na polícia que assassinou Santiago Maldonado.

Esses exemplos, de como as bancadas parlamentares dos revolucionários devem estar a serviço do desenvolvimento da luta de classes extraparlamentar, são de enorme importância para o Brasil. O PTS, cujos deputados recebem o mesmo salário de uma professora, doando o restante para as lutas, trata suas bancadas como postos de luta para a ação comum, ombro a ombro com os trabalhadores e jovens, com um programa de independência de classe e na perspectiva de um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo, que conferiram 1,2 milhão de votos à Frente de Esquerda e dos Trabalhadores.


Em cima, Elisa Carrió, deputada ligada ao governo; abaixo, a legisladora Myriam Bregaman, nas ruas contra a repressão policial

Essa intervenção revolucionária dos parlamentares do PTS na luta de classes é o que não se vê no Brasil, em que a esquerda com cargos parlamentares não colocou suas energias para que, por exemplo, a luta dos professores do RS triunfasse contra Sartori, ou para exigir que as centrais sindicais parassem de traições e organizassem um plano de luta sério contra as contrarreformas neoliberais.

6. O giro à direita na superestrutura da América Latina, que teve um ponto de inflexão na VII Cúpula do Panamá em 2015, com o descongelamento das relações entre EUA e Cuba, seguida da vitória eleitoral de Macri na Argentina, da direita venezuelana no parlamento e especialmente do golpe institucional no Brasil em 2016, obteve alguns triunfos consideráveis, como a aplicação das brutais reformas trabalhista no Brasil e previdenciária na Argentina.

Entretanto, no Brasil e na América do Sul onde a direita neoliberal avançou não se conseguiu estabilizar a economia, muito menos gerar um novo ciclo de crescimento. Meses de ataques incessantes contra os direitos trabalhistas e sociais por parte do governo golpista não resultaram em novos "brotos verdes", pelo contrário, deixando o desemprego em muito mais que 10 milhões. Na Argentina, a tentativa de Macri de estabelecer acordos comerciais com a Europa e os EUA durante a cúpula da OMC fracassou rotundamente. Segundo relatório do Banco Mundial, 28 de 32 países América Latina e do Caribe terão déficit fiscal em 2017, após seis anos de desaceleração econômica na região, que terá crescimento do PIB de pálidos 0,6%.

Sem logros econômicos para apresentar, seriam os próprios planos da direita os que serão postos na pira sacrificial? Com a permanência dos sintomas do que o italiano Antonio Gramsci chamava de "crise orgânica" - crise de hegemonia do Estado em seu conjunto, social-econômico-político, resultando em novas formas de pensar à direita e à esquerda - não está descartada uma nova fase de ascenso na luta de classes.

O que ocorreu na Argentina serve para pensar o Brasil: a traição das centrais sindicais majoritárias (CUT, CTB, Força Sindical e UGT) à luta contra as contrarreformas de Temer distorce a relação de forças entre as classes, e facilita a narrativa covarde do PT para que todos os descontentes com o golpe canalizem sua raiva no "Lula 2018". Se não houvesse uma esquerda revolucionária na Argentina decidida a converter o peso social dos trabalhadores em peso material na luta de classes, provavelmente não teríamos visto a grande resistência ao governo Macri, cujo poder assim pareceria incontestável (com apoio das centrais sindicais).

É possível derrotar as contrarreformas reacionárias no Brasil e na Argentina. Essa batalha internacional tem efeitos em todo o subcontinente. Como lembrava o mesmo Lênin em 1902, "não é suficiente apenas conhecer essa experiência internacional,. É preciso saber proceder à análise crítica dessa experiência e controlá-la por si próprio".




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