Internacional

ELEIÇÕES ARGENTINAS

Argentina: após as prévias, um cenário político aberto

As prévias não deixaram certezas para os partidos tradicionais. Não houve polarização evidente, Sergio Massa não terminou de morrer nem de renascer. Rebuliço na região metropolitana e queda dos "barões peronistas". A Frente de Esquerda com boa eleição de conjunto. Del Caño fez história.

quarta-feira 12 de agosto de 2015| Edição do dia

Foram eleições do "quase lá" para os partidos tradicionais, mesmo que todos tenham comemorado como se tivessem conseguido ir além.

As prévias não foram decisivas para a eleição presidencial de outubro e deixaram um cenário aberto.

Daniel Scioli não teve um triunfo categórico que lhe assegurasse a vitória no primeiro turno em outubro. Mauricio Macri não pôde consolidar uma polarização e Sergio Massa tampouco pôde terminar de se recuperar e se meter na briga dos três principais.

Scioli foi o ganhador nominal com 38,5% dos votos e atrás dele se posicionou a força Cambiemos (PRO-UCR-CC) com um pouco mais que 30%. Macri foi claramente o ganhador desta interna na qual enfrentava a Ernesto Sanz e Elisa Carrió. A coligação UNA, na qual competiam Jose Manual de la Sota e Sergio Massa, alcançou o terceiro lugar com 20% dos votos.

A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, com Nicolas Del Caño do PTS que derrotou Jorge Altamira do PO na disputa da candidatura presidencial da FIT, saiu em quinto lugar quase em um empate técnico com Margarita Stolbizer que ficou em quarto lugar, arrastando os "Progressistas" a uma das piores performances eleitorais da sua história.

As prévias não deixaram instalado um cenário de polarização mesmo que isso fosse o que buscavam os opositores do Frente para a Vitória e o PRO junto a "Cambiemos". Resta ver se nos próximos dois meses conseguem concretizá-lo.

Scioli teve nove pontos a menos do que obteve Cristina Fernandez nas prévias de 2011 e sete a menos que 2007. Ficou dois pontos abaixo dos 40% ao que aspirava chegar (com uma diferença de dez pontos sobre Macri e sua coligação Cambiemos), para tentar se consagrar como um provável ganhador das eleições definitivas sem necessidade de segundo turno. Não conseguiu. Agora deve tentar cativar os votantes de outras chapas, mais que nada àqueles que apoiaram Macri e especialmente, De la Sota. Vamos "persuadir muitos dos que votaram em De la Sota" adiantou Alberto Perez, chefe de gabinete de Scioli.

Por outro lado, o candidato da Frente para a Vitória tem um presente grego que as prévias lhe deixaram: Anibal Fernandez foi o ganhador da interna na província de Buenos Aires. A recente acusação por cumplicidade com o narcotráfico complica sua campanha de cara a outubro. Uma das perdedoras da coligação Cambiemos, Elisa Carrió, já adiantou que será quem vai se encarregar de disparar sistematicamente contra Fernandez. Será a artilharia de denúncias estridentes de Cambiemos, que por mais que não despertem paixões, logram a verossimilhança no país em que o narcotráfico é uma realidade cada vez mais presente.

Logo após as denúncias de Jorge Lanata e Clarín, Fernandes pôde ter consolidado pela oposição um apoio do kirchnerismo mais duro que lhe permitiu ganhar a disputa interna contra Julian Dominguez. Mas este mesmo fator pode se converter em seu limite em uma província na qual, frente à divisão do peronismo, Maria Eugenia Vidal fez individualmente uma boa eleição, assim como Felipe Solá, o candidato de Massa.
Macri conseguiu superar os trinta pontos, mas só graças à aliança que fez com o radicalismo e Elisa Carrió, individualmente apenas superou os 24%. Tem por diante o desafio de preservar os seis pontos que obtiveram Carrió e Sanz, para manter competitiva a sua fórmula. Não se descarta que tenham votantes radicais que apostaram em Sanz e em outubro deslizem para Margarita Stolbizer, seguindo a "rota" do voto de Martin Lousteau, que afirmou que seu limite é Macri (por enquanto).

Contra esta hipótese estão os resultados da candidata dos progressistas que não alentam precisamente o que se chama de "voto útil" (melhor, todo o contrário).
Ademais, Macri deveria conquistar parte dos votos que apoiaram a Massa, para equilibrar eventuais perdas e tentar que Sciole não chegue aos 45% ou ao 40 + 1 com mais de dez de diferença.

Finalmente, Massa passou a barreira traumática dos vinte pontos, mas só com a ajuda dos votos de De la Sota, quem com a ideia de usufruir do conservadorismo geral que favoreceu a todos os oficialismos + a demagogia "cordobesista", mantêm tão cercada sua província que nem sequer ele pode sair politicamente deste território. Fora não move nada. O voto do peronismo delasotista, domado por Juan Schiaretti (governador recentemente eleito) pode ser capitalizado pelo novo "peronismo laranja".
Massa vai tentar voltar a transitar a "larga avenida", com o inconveniente de que agora todos e todas a transitam. Até Maria Eugenia Vidal ensaiou no fechamento da jornada do domingo um giro discursivo próprio com elementos "nacional & popular" em uma tentativa peculiar de "social-democracia" amarela.

O kirchnerismo "puro" festeja em segredo os ajustados números de Scioli, pois desta maneira se mostra necessário para o triunfo e impede que o candidato da Frente para a Vitória adquira demasiada autonomia. Scioli não pode prescindir de nada, daí que o discurso dos "festejos" tenha reivindicado Nestor Kirchner e em um mesmo parágrafo, ao recentemente falecido Juan Carlos "Chueco" Mazzon, o operador peronista que foi expulso da Casa Rosada quando propôs antecipadamente o que Cristina Fernandez terminaria antecipando depois: a receita é ganhar, não importa com o que nem com quem; perder não é peronista.

Quanto a La Campora, conquistou algumas posições residuais nos municípios de Moreno e Lanús: ao "kirchnerismo parlamentar" se soma algo de municipalismo puro.
A dispersão da oposição tradicional não chega ao desastre que protagonizou em 2011, mas tampouco consegue uma coligação que imponha uma clara polarização. Este cenário está aberto e ninguém capitaliza com clareza os limites do oficialismo que retrocede, apesar da moderação extrema que expressa seu candidato.

A caixa de Pandora da província de Buenos Aires

A divisão do peronismo da província de Buenos Aires que vem desde 2013 (com o triunfo de Massa), a que agora se agregou a interna na que competiram Anibal Fernandez e Julian Dominguez, permitiu que Vidal - de Cambiemos - se posicione primeiro com quase 30% dos votos, sendo a candidata individualmente mais votada.
Porém mais em geral, este fracionamento por cima abriu uma caixa de Pandora por baixo com o debilitamento de históricos barões e de um dos aparatos de contenção chaves do peronismo e do regime.

Como mostra, estão as derrotas nas prévias dos históricos peronistas Mariano West (em Moreno) e Raul Othacehe (em Merlo). Mesmo não sendo os únicos exemplos do que o jornalista Martin Rodriguez chamou ironicamente "uma Primavera Árabe da região metropolitana": em Almirante Brown, Dario Giustozzi, que foi e voltou do massismo para a Frente para a Vitória, caiu ante o sciolista Mariano Cascallaresiano.

Em Hurlingham, foi surpreendente a derrota do massista Luis Acuña que competirá em outubro, mas deverá remontar uma diferença de quase 15 pontos com o candidato kirchnerista, "Juanchi" Zabaleta.

O prefeito de San Miguel, Joaquin de la Torre, um dos pilares da Frente Renovadora foi o candidato mais votado, mas sua frente UNA ficou dez pontos abaixo dos 41 que obteve o kirchnerismo.

O irmão de Martin Sabbatella teve em Morón um triunfo dentro da interna do Frente para a Vitória, mas ficou só dois pontos acima da coligação Cambiemos, que terá ao esposo de Maria Eugenia Vidal, Ramiro Tagliaffero, como candidato. Ao final, parece que o primeiro é a família, tanto no frepasismo de centro-esquerda (sabatellismo), como no "frepassismo de direita" (PRO). A nova política, dizem.

Jesus Cariglino perdeu nas Maldivas Argentinas por um ponto com o candidato kirchnerista e também houve resultados parecidos em Tres de Febrero e Pilar, onde Huberto Zuccaro assegurou que ganhou por 152 votos.

Um dado das prévias municipais na região metropolitana é que dos dois integrantes da fórmula ganhadora da Frente para a Vitória ao governo, um quase perde seu distrito (Sabatella) e o outro (Aníbal Fernandez) sai perdedor, já que o candidato que apadrinhava em Quilmes foi derrotado pelo atual prefeito.

A relação dos "barões" com o candidato ganhador da interna, sendo que a maioria se unificou com a fórmula de Julian Dominguez e Fernando Espinoza e no marco destas disputadas eleições, será outro fator de tensões no peronismo de Buenos Aires.

Nós, a Esquerda... e a história

A Frente de Esquerda cresceu mais de 40% em relação às prévias de 2011, eleições com as quais corresponde comparar. Como foi dito, ficou praticamente na mesma posição que a apagada centro-esquerda de Stolbizer.

Em uma interna que terminou de se definir pela manhã da segunda-feira, Nicolás Del Caño se impôs a Jorge Altamira em uma performance verdadeiramente histórica. Se impôs a renovação no sentido profundo no qual seus candidatos propuseram durante toda a campanha. E os referentes de ambas as chapas, declararam que há que encarar de maneira unificada a campanha de cara a outubro.

O cenário aberto, a dispersão e contradições das forças tradicionais impõem uma responsabilidade à renovada Frente de Esquerda que tem novos desafios em um cenário no qual irá se definir o rumo do país e suas consequências para os trabalhadores e as maiorias populares.




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