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Argentina: Depois do feminicídio de Micaela Garcia, voltamos a dizer #NenhumaAMenos

Milhares de pessoas marcharam neste sábado em toda a Argentina para exigir justiça por Micaela García, uma jovem estudante de Educação Física em Galegauy, era da cidade de Concepción de Uruguay, na província de Entre Rios, e era militante do Movimento Evita e da Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP). Ela foi encontrada morta no sábado, por volta do meio-dia, vítima de feminicídio, na rua 12 da província.

segunda-feira 10 de abril| Edição do dia

Depois da notícia, a imagem de Micaela e da mobilização incessante para a encontrar com vida, (busca essa que se iniciou depois de seu desaparecimento no dia 1 de Abril, todos chocaram-se novamente com as estatísticas lamentáveis que mostram que mais de uma mulher morre por dia na Argentina vítima de violência machista: uma vítima de feminicídio a cada 18 horas, a expressão mais brutal de todas as diferentes formas de violência que sofrem as mulheres, somente pelo fato de serem mulheres.

As redes sociais na Argentina explodiram de ódio. O repúdio à impunidade que garantiram as instituições do Estado, como a justiça e a polícia, não esperou. Na cidade de Buenos Aires e quase em todas as províncias do país, as organizações que convocaram o último 8 de Março, que reuniu dezenas de milhares de pessoas durante a Paralisação Internacional de Mulheres, veio a resposta: um mês depois da marcha massiva de mulheres, tinha de sair às ruas para levantar a voz, e para dizer que queremos viver, para gritar que “Somos todas Micaela”.

“Nem mais prisões, nem mais penas, nem mais punições são a resposta para nada”, afirmaram desde o coletivo Ni Una a Menos, em um comunicado que convocou a mobilização ao Obelisco portenho. “A violência contra as mulheres, lésbicas e trans não se resolve com o Código Penal – uma ferramenta que começa a atuar uma vez que a violência já foi marcada em nossos corpos -, precisamos de políticas integrais de prevenção para um problema complexo, assim como precisamos de um Estado que deixe de ser cúmplice e assuma um compromisso real”, argumentaram.

SOMOS TODAS MICAELA

Desde as 20h, logo após a notícia, aconteceram ações em todo o país. No Obelisco de Buenos Aires, debaixo de uma forte chuva, coletivos de mulheres, organizações sociais e políticas se fizeram presentes para acompanhar o pedido de justiça, que foi encabeçado por amigas da jovem de 21 anos, residentes da cidade de Buenos Aires.

Para cercá-las de apoio e voltar a gritar #NenhumaAMenos, estiveram presentes mulheres do Movimento Evita, parte do Coletivo #NiUnaMenos, como a jornalista Marta Dilon, e a dirigente do PTS na FIT (Frente de Esquerda e de Trabalhadores), Myriam Bregman, junto com a agrupação Pão e Rosas, e outras organizações políticas e de mulheres como a Novo Encontro, o Plenário de Trabalhadoras – PO, mulheres do Esquerda Socialista, Las Rojas, entre outras.

Na mesma hora, em diversos locais nas regiões de Entre Rios, também aconteciam manifestações. En Gualeguay, junto a familiares e amigos, milhares de pessoas, entre elas se encontravam suas companheiras e seus companheiros de militância, que mais uma vez exigiram justiça. Na capital da província (Paraná), em frente ao Judiciário, pediam a renúncia do Juiz Carlos Alfredo Rossi, que em julho de 2016 – contrariando laudos técnicos que desaconselhavam a medida – outorgou ao autor do feminicídio de Micaela, Sebástian Wagner, a liberdade condicional. Wagner, que havia sido beneficiado com a medida depois de cumprir dois terços de sua sentença (pelo estupro de duas estudantes universitárias), foi detido na região de Buenos Aires, em Moreno na noite desta sexta-feira, depois de apontar o local onde havia sido achado o corpo de Micaela, já sem vida.

Sob o lema #NenhumaAMenos e #NosQueremosVivas, uma enorme convocatória tomou lugar em Rosário, na província de Santa Fé, onde dezenas de organizações exigiram também a renuncia do Juiz e exigiram do Estado medidas elementares. “Estamos denunciando que o Estado, conjuntamente como denunciando a justiça, as polícias e os governos nacionais e das províncias, são responsáveis. Temos de seguir organizadas e nas ruas, por que sabemos que a violência só será erradicada lutando contra esse sistema capitalista e patriarcal, mas também exigimos políticas para prevenir e atender a violência machista, para aliviar o sofrimento que milhões de mulheres vivem”, disse, a respeito, desde a explanada da Praça de Montenegro, a integrante do Pão e Rosas e da Frente de Esquerda, Virginia Grisolia.

Em Mendoza, as mulheres também saíram às ruas. Estiveram presentes, no quilômetro 0 da capital,convocados pela Assembleia #NenhumaAMenos de Mendoza, entre outras organizações, o Movimento Evita, Pão e Rosas, Mumalá e o Partido Obrero. “Há muita raiva, muita dor, mas não podemos deixar essa luta nas mãos de uma jsutiça que sabemos que é cúmplice da violência que sofremos”, afirmou Noelia Barbeito (PTS-FIT). Acompanhada pela deputada Cecilia Soria, a senadora da esquerda também afirmou que “temos que nos organizar de maneira independente de todos esses setores, em cada lugar de trabalho e em cada local de estudo, para arrancarmos nossas demandas.

Também no mesmo dia, centenas de pessoas se encontraram no Monumento de San Marin de Neuquén, e outras tantas se mobilizaram em Cutral Có, Zapala, Villa la Angostura e Junín dos Andes. No Rio Negro, houveram mobilizações em General Roca, Bariloche, Cipolletti, Viedma e outras províncias. Nas províncias Tucumán, Salta, Jujuy, Bahia Branca, La Plata, La Pampa e outros pontos do país também houve mobilização, enquanto já estão sendo convocadas novas ações para a próxima semana

QUE SE EXPRESSE EM MILHARES O GRITO #NenhumaAMenos

As massivas manifestações de 2015 e 2016, e a massiva manifestação do 8M, no marco da Paralisação Internacional de Mulheres, são um enorme ponto de apoio para avançar nossa luta contra a violência machista: Milhões se mobilizaram para dizer “Basta”, e exigiram aos governos, a justiça e ao Congresso Nacional, que tomem medidas urgentes frente a este cenário. No entanto, esse grito segue sendo ignorado: O governo anterior e o atual nada fizeram para dar resposta para essas pautas, enquanto que as instituições do Estado seguem condenando e re-vitimizando as vozes das mulheres que se levantam para denunciar sua situação.

Por outro lado, a luta por arrancar nossos direitos demonstrou que organizadas e nas ruas, confiando somente em nossa própria força, é possível conquistar as liberdades que nos negam. Exemplo dessa enorme potencialidade que tem nossa luta é a recente conquista da liberdade e absolvição definitiva de “Belén” em Tucumán, depois de ter sido condenada injustamente a 8 anos de prisão, que nos faz lembrar que nesta longa história de luta, todos os direitos que conquistamos foram produto de nossa organização.

Os números demonstram que os feminicídios não são atos “isolados” ou “exceções”, mas sim o resultado mais extremo da violência machista, uma violência que é estrutural neste regime social, capitalista e patriarcal; o resultado de uma larga cadeia de opressões e violências que, com graus distintos, se exercem cotidianamente, em todos os âmbitos de nossas vidas, contra milhões de nós mulheres. Por isso nossa luta não é individual nem se limita a questionar as ações de um só juiz, e por isso também lutamos para mudar, desde a raiz, esse sistema de exploração e misérias da grande maioria, porque não aceitamos ser as vítimas impotentes que a classe dominante quer que sejamos e porque sabemos que nossa opressão como mulheres resulta num elemento chave para a continuidade desse sistema, baseado na exploração de milhões de trabalhadoras, trabalhadores e pobres.

Antes dizíamos “Somos todas Belén”. Hoje dizemos que “Somos Todas Micaela”. Para que não haja Nenhuma A Menos pela violência machista, é necessário que nossa organização se estenda, se multiplique e se fortaleça em um grande movimento de luta, independente de todos os setores que garantiram nossa situação de opressão. Um grande movimento de mulheres que se organize desde cada local de trabalho e cada lugar de estudo, impulsionando comissões de mulheres, convocando todos os nossos companheiros a tomar em suas mãos a bandeira dessa luta e também unificar nossas forças, nos manifestando nas ruas, junto a centenas de milhares, nosso grito e nossas reivindicações decididamente, para impô-las: #NenhumaAMenos, #NosQueremosVivas.




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