Teoria

TEORIA

Aquecimento global: do que estamos falando, de ideologia ou de ciência?

O baile de máscaras ambientalista das grandes potências na COP 21, em Paris, mal consegue disfarçar a catástrofe ecológica que o capitalismo está lançando sobre nós.

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 30 de novembro de 2015| Edição do dia

O Partido Republicano dos Estados Unidos, assim como um setor minoritário dos cientistas, negam, para todos os efeitos, que esteja acontecendo um processo de aquecimento global do planeta ou, ao menos, negam que, caso exista, seja provocado pelos humanos (isto é, se existe, é um fenômeno natural). Portanto, essa ideia de que o planeta está em perigo por conta da poluição, do efeito dos gases-estufa, lançados ao ar pela atividade industrial humana, não passaria de pura ideologia.

Na outra banda do mesmo espectro, o Partido Democrata, Obama, mas também gente como Merkel, Sarkozy, até Dilma, de posse de sua máscara ambientalista, - portanto com forte carga ideológica, de defesa de interesses (tipo Amazônia-protetorado, ou então crítica interessada ao maior poluidor do mundo, a China) alegam o contrário. Denunciam o aquecimento global e se reúnem, em Paris nesta semana (no encontro chamado COP 21) para acertarem acordos de medidas de proteção ambiental, as quais, aliás, não costumam sair do papel.

Fizeram Kyoto 1997, Copenhague 2009, também a Rio-92, e agora estão em Paris, em mais um tradicional mise-em-scene - nuances políticas e conjunturais à parte - isto é, para para medidas declaratórias que não vão além da esfera política, consequentemente sem chance de se converterem em leis, muito menos em punições ou propostas efetivas.

Esperar o contrário seria como imaginar que o capital – e suas personas e seu Estado - pode algum dia ter preocupações planetárias ou ambientalistas que não sejam dirigidas pelo lucro, pela incessante e implacável acumulação do capital.
Na verdade, a inoperância objetiva da casta política que se reúne para debater o clima não está desvinculada daquele debate ideológico citado acima.

Isto é, quanto mais se desenvolver a dúvida sobre se existe ou não um aquecimento global provocado pelo efeito estufa, mais base terá a burguesia para manter o debate em banho-maria, para ganhar tempo, para confundir as fileiras da classe trabalhadora, para não hierarquizar o debate dessa questão.

Até que ponto, então, se trata de ideologia?

Por exemplo, volta e meia saem argumentos do tipo: mudanças climáticas sempre existiram, eras do gelo existiram, aquecimento e degelo fazem parte da história da Terra, portanto o aquecimento atual é tão natural quanto o fenômeno climático do El Niño, ou quanto qualquer final de era do gelo. Ou então: se há geleira derretendo mas também é verdade que tem geleira ganhando gelo. Ou então: tem verões mais quentes , mas também temos nevascas e invernos mais potentes. E aqui e ali aparece algum professor negando a ação da indústria capitalista como promotora do aquecimento global. E até negando a teoria do aquecimento global antropogênico como um todo (a AGA).

Ou então aparecem “saídas” do tipo “chamar as empresas a “descarbonizarem”, a poluírem “menos”, isso para não entrarmos em debates controversos sobre parar de comer carne e optar, em massa, por andar de bicicleta dentre outros.

De toda forma, como há formulações ideológicas, passa a ser também importante o combate contra-ideológico.

Sim, a história geológica da Terra é a história de mudanças climáticas. Há mais de 3 milhões de anos a Terra tinha 3º a mais do que antes da nossa era industrial. E certamente tivemos eras do gelo e interglaciais. Só que a última interglacial durou algo em torno de 30 mil anos. Se nós estamos em uma interglacial, a nossa não chega a 10 mil anos, portanto, naquele padrão, estamos muito longe do final de uma interglacial. Isto é, o aquecimento global atual não é esperado, ele estaria fora do padrão geológico, temporal da Terra. E não houve nenhuma mudança substancial nos raios que nos chegam de fora e nem no comportamento do sol, ambos determinantes para entender o calor na Terra. (Mudanças de grande porte como as que estão sendo discutidas aqui ocorreram, em outras eras, por mudança do ciclo orbital da Terra ou por brutal variação da atividade solar, com aumento da quantidade de radiação que nos chega, e o que acontece é que nada disso está na pauta do atual clima).

Logo a mudança climática em marcha não tem a ver com aquele texto que diz que “mudanças climáticas naturais sempre existiram”. Além disso, é só medir: a composição do nosso ar é 40% maior em gás carbônico do que a que existia na era inicial da indústria na Europa. Logo, há mudanças na composição dos gases de efeito estufa que não existiam antes, em escala temporal larga (sem falarmos no metano e outros elementos de efeito estufa que são recentes). E lembrando que a civilização trabalha com escala temporal de séculos, de décadas nos marcos desse debate.

E se é verdade que outro dia noticiaram, a partir da NASA, que geleiras estão ganhando espessura, se trata de algo menor e focal – que está sob estudos – e que parece ocorrer em parte da Antártida, enquanto a maior parte do polo sul e também do norte, apresenta derretimento calamitoso de geleiras. O Himalaia está francamente derretendo (o que poderia deixar 1,3 bilhões sem água, convertidos em ”refugiados do clima”, se considerarmos que os grandes rios da Índia se alimentam das geleiras daquela cadeia montanhosa).

Praticamente todo cientista concorda que se a temperatura na Terra subir mais que 2º teremos uma catástrofe planetária. Com subida dos mares para além de 1, de 2 metros etc. E atualmente já andamos perto do 1º a mais. Portanto, de conjunto, estamos em processo de derretimento de calota polar e grandes geleiras das montanhas mais altas. Pelo efeito estufa. Já foi mensurado, os gases de efeito estufa estão se concentrando na troposfera; e é por essa razão que a radiação de calor fica presa na Terra: bloqueada pelos gases de efeito estufa. Também já se mediu: as camadas mais profundas do oceano estão aquecendo.

E quando se fala em aquecimento global em marcha acelerada, essa ideia não se equaliza para todos os lugares e todos os momentos do ano. Significa uma média. E nos marcos da qual, teremos temperaturas mais extremas, invernos mais rigorosos e também verões mais radicalmente quentes.

E justamente é o que vem acontecendo. Por 15 vezes no século XXI tivemos os anos mais quentes da história. O mais quente do século XX foi 1998, que coincidiu com um fenômeno natural, o El Niño. Como está ocorrendo atualmente, em 2015, onde o El Niño agrava o aquecimento do efeito estufa.

Portanto há ideologia quando se pensa que aquecimento global significa apenas verões mais quentes e se deixa de levar em conta que o aquecimento global cria o outro extremo: nevascas nunca vistas. Cria os dois.

E quanto à falta de unanimidade no meio cientifico, com uma minoria, ou algum professor aqui e ali, defendendo que não existe aquecimento global, isso é o esperado. Não se espera que a ciência avance por consensos e nem que a fala de todo cientista possa corresponder ao seu valor de face.

Não esqueçamos que a teoria da evolução, apenas para dar um exemplo (poderia ser a lei da relatividade) não encontrou consenso imediato, seguiu havendo desacordo a perder de vista. Esperar consenso seria imaginar inclusive que a ciência seria neutra, que não seja atravessada pela luta de classes, pela ideologia. Sabemos que não é assim. A própria tecnologia implica em escolhas que raramente não são ideológicas: vivemos sob o império do capital, dos grandes monopólios e a própria medicina é um exemplo nesse sentido.

Portanto, a ideologia está do lado de quem nega a devastação ambiental e social que a economia capitalista está promovendo. China à cabeça, mas em seguida Estados Unidos e mais União Europeia produzem, somados, a maior parte dos gases de efeito estufa que aniquilam a troposfera. A desproporção que o gás carbônico ocupa na nossa atmosfera nada tem de ideologia. É tão real quanto a subida dos mares e o derretimendo das geleiras. Não há qualquer ideologia quando estamos, todos, amargando os 15 anos mais quentes desde o início da era industrial. Se há ideologia, ela se encontra por exemplo, na ilusão, mesmo de parte gente bem intencionada, como o cineasta-ecologista Fernando Meirelles (na Folha de 29/11/15), que faz coro com um certo senso comum, ideológico, quando clama de que temos que “convencer as grandes corporações e governos poluidores a mudar de rota”. Isto, sim, é pura ideologia [ou utopia reacionária, dá no mesmo). O desastre de Mariana (Minas Gerais), também o de Paracatu (Goiás), de Fukushima e a sistemática destruição dos mares e rios, são a clara demonstração de que é zero a chance de que se possa “convencer” o capital a não seguir saqueando os recursos naturais.

Assim como é fundamentalmente ideológica a discussão dessa semana em Paris, por mais que climatologistas, sinceramente ou não, acreditem no contrário, talvez esquecidos de que desde que as grandes potências se encontram nessas reuniões climáticas de cúpula, o planeta vem sendo devastado em escala geométrica pelas grandes corporações imperialistas. E que não podem ser detidas se não forem confiscadas pela classe trabalhadora, a única que pode dirigir a economia em favor da humanidade, e isso se desenvolver a estratégia política para tomar o poder. O capitalismo está essencialmente preocupado com “custos”, “taxa média de lucro”, investimentos que deem grande “retorno”, mesmo que, para isso, o planeta seja carbonizado.




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