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Aprendendo com as massas: Trótski no Circo Moderno

Warren Montag

Ilustração: Mar Ned - Enfoque Rojo.

Aprendendo com as massas: Trótski no Circo Moderno

Warren Montag

Warren Montag é professor de literatura e filosofia política na Occidental College de Los Angeles (Estados Unidos). Editor da revista décalages e autor de diversos livros sobre Adam Smith, Spinoza e Althusser. Publicamos aqui uma contribuição enviada por ele por ocasião dos 80 anos do assassinato de Leon Trótski. Dialogando com alguns conceitos de Spinoza, Montag analisa uma cena de Petrogrado, ocorrida em 1917, descrita pelo revolucionário russo em sua autobiografia Minha Vida.

Minhas observações na ocasião do octogésimo aniversário do assassinato de Trótski serão limitadas a um breve comentário sobre uma passagem de seu texto autobiográfico, Minha Vida, publicado em 1930, mesmo ano que A história da Revolução Russa, ao qual está intimamente conectado. Ambos foram escritos durante uma “pausa” em sua vida, e na vida do processo revolucionário na URSS, uma pausa que estes textos, de maneiras distintas, e de perspectivas distintas, buscaram explicar.

Após um breve período de exílio doméstico no Cazaquistão, Trótski foi expulso da URSS e enviado à Turquia, onde tomou a oportunidade para explicar (a si mesmo e a seus camaradas na Oposição) como as grandes massas, uma vez o corpo e alma do Partido Comunista, foram gradualmente excluídas das discussões, debates e tomadas de decisão. Trótski frequentemente parecia subestimar os efeitos de qualquer diminuição do papel das massas no curso da revolução em si, especialmente durante o período da Guerra Civil e do Comunismo de Guerra, mas agora, quase uma década mais tarde, ele via claramente o resultado quase inevitável de sua exclusão, não importa o quão gradual ou parcial.

A conjuntura específica na qual ele conduziu sua pesquisa tornou o que os bolcheviques haviam, há tempo, percebido na prática extremamente perceptível e capaz de ser elaborado teoricamente: o quanto a Revolução emergiu da auto-organização das massas trabalhadoras, uma auto-organização cuja teoria era imanente em sua prática, necessitando apenas ser documentada como tal por aqueles sábios o bastante para “aprender com as massas”, isto é, ouvir suas demandas e slogans e observar as formas de autogestão proletária (e.g. o soviet, ou conselhos de operários e soldados) que eles inventaram, conforme superavam a aparentemente impenetrável barreira do regime parlamentar. Os bolcheviques, especialmente após a Revolução de Fevereiro, vieram a depender tanto da inteligência das massas, isto é, da sua perpétua reflexão por meio de conversas, discussões, e demandas que vinham à tona em suas vidas cotidianas (no trabalho e nas ruas), quanto da inteligência provida pelas massas, o incessante acúmulo de informação sobre tudo, desde suprimentos alimentícios e movimentações de tropas, a mudanças de atitude e disposição entre as diversas camadas sociais. E na mesma medida em que o movimento de massas atravessava debates e disputas frequentemente duros, também os bolcheviques aprendiam a aceitar o que era, de fato, uma necessidade: debate interno sem entraves em questões de tática e estratégia (entendido como o primeiro campo de teste para novas propostas).

Diferentemente de História da Revolução Russa, onde Trótski apresenta as lições de Outubro conforme elas emergiram nas batalhas concretas dadas pelas diferentes forças sociais e políticas, Minha Vida, como Trótski abertamente admite, é um trabalho polêmico, focado nas pessoas e personalidades que vieram a desempenhar um papel na realização do “milagre” (Lênin) da Revolução, ou em sua ruína. A obra toma a forma de retratos muitas vezes distorcidos e desequilibrados, para não negar a realidade, mas precisamente para torná-la visível e inteligível, como uma pintura cubista, que deve desmontar as figuras que representa, para mostrar a composição de sua real existência.

O que torna a passagem à qual me refiro notável é que a personalidade descrita em minuciosos detalhes por Trótski é a sua própria, capturada no ato, repetido muitas vezes, de falar em uma grande assembleia, o Circo Moderno, lotado de uma audiência de trabalhadores radicalizados. Ele não diz nada sobre o conteúdo de seus discursos ou a natureza de seus argumentos: eles são irrelevantes à questão sendo abordada. O que ele reconstrói com grande cuidado, escolhendo suas palavras com a precisão de um poeta, e produzindo o que pode ser lido como uma espécie de poema em prosa, é a experiência concreta de “aprender com as massas” conforme ele a vivia, mesmo quando o papel a ele designado era o de agitador, enviado para convencer o público de que as posições do partido eram corretas e justas. A experiência, como ele a descrevia, pode ser melhor entendida como uma espécie de possessão: Trótski chega com falas preparas de antemão, mas tão logo quanto começa a falar à multidão, ele se ouve fazendo argumentos diferentes, e superiores, aos que pretendia fazer. Ele oferece uma explicação desse fenômeno, de acordo com a qual “a pressão imperativa da empatia” faz com que as falas preparadas antes “quebrem e retrocedam”, permitindo, então, que argumentos não familiares surjam das profundezas do inconsciente (ou, mesmo, “seu” inconsciente).

Trótski parece entender o que acontece como uma sequência, onde a primeira parte envolve a ação da empatia, e a segunda, o movimento pelo qual “seu” inconsciente preenche o espaço deixado aberto pelo desaparecimento das falas que havia preparado. O que ele descreve, contudo, é um processo coletivo, tão corpóreo e efetivo quanto mental ou intelectual, sugerindo que a empatia, mais do que um inconsciente individualizado por um pronome possessivo, provê as ideias e argumentos inesperados. As palavras de Trótski nos levam à observação de Rousseau em Diálogos de Rousseau Juiz de Jean-Jacques, uma espécie de versão do século XVIII de Minha Vida, de que “nosso verdadeiro eu não está inteiramente dentro de nós” [1].

De Trótski:

Eu normalmente falava no Circo à tarde, às vezes bem tarde à noite. Minha audiência era composta de trabalhadores, soldados, mães que trabalhavam duro, meninos de rua – os povos mais oprimidos da capital. Cada centímetro quadrado estava cheio, cada corpo humano comprimido a seu limite. Jovens rapazes sentavam nos ombros de seus pais; bebes estavam nos seios das mães. Ninguém fumava. As varandas estavam ameaçadas de cair, sob o peso excessivo dos corpos humanos. Eu fazia meu caminho até a plataforma atravessando uma estreita trincheira, às vezes eu era carregado pelo público. O ar, intenso com respiração e espera, explodia com gritos apaixonados peculiares ao Circo Moderno. Acima e ao meu redor havia uma pressão de cotovelos, peitos e cabeças. Eu falava de uma caverna quente de corpos humanos; sempre que eu esticava meus braços, tocava alguém, e um movimento agradecido em retorno me daria a entender que não havia problema, que não interrompesse meu discurso, e seguisse. Nenhum orador, não importa o quão exausto, podia resistir à tensão elétrica da apaixonada multidão humana. Eles queriam saber, entender, encontrar seu caminho. Às vezes, era como seu eu sentisse, com meus lábios, a severa curiosidade dessa multidão que se fundia em um único todo. Então, todos os argumentos e palavras pensados com antecedência quebravam e retrocediam sob a pressão imperativa da empatia, e outras palavras, outros argumentos, absolutamente inesperados pelo orador, mas necessitados por essas pessoas, emergiriam totalmente de meu subconsciente. Em outras ocasiões, eu sentia como se estivesse ouvindo o orador desde fora, tentando acompanhar suas ideias, temeroso que, como um sonâmbulo, ele pudesse cair da borda do telhado, ao som de meu raciocínio consciente. [2]

Essa passagem não passou despercebida: leitores recentes examinaram suas imagens, particularmente a evocação dos pares de pais e filhos (a mãe amamentando o bebê, o pai carregando o jovem menino nos ombros), enquanto leitores anteriores recordam suas próprias reações a ele, resumidas em adjetivos como “extraordinário”, “fascinante” e “magnífico”. Este último serviu como a última palavra no relato de Trótski do Circo Moderno em um breve, porém penetrante comentário de Tony Cliff, que raramente usava tais adjetivos: “A multidão levantou Trótski emocionalmente. Ele se tornou seu meio. A interação entre o orador e seu público foi a força vital de sua oratória... Que descrição magnífica!” [3]. A descrição de Cliff, composta de três frases concisas e desconexas seguida de uma exclamação, é em si própria um testemunho do poder desta passagem, um poder que Cliff sente, mas não pode bem explicar. E como poderia, considerando que o próprio Trótski, recordando a experiência conforme a viveu, não parece ciente de que começou a se referir a si mesmo tanto na primeira, como na terceira pessoa, Eu e Ele, chegando muito próximo da linguagem do misticismo.

O Freud de Trótski pode nos ajudar a encontrar a entrada do Circo Moderno, mas não pode nos ajudar a nos orientarmos uma vez lá dentro. Para isso, somente Spinoza, cuja semelhança a Trótski não é em lugar alguma mais claramente demonstrada do que em seu relato do Circo Moderno, pode nos prover os conceitos adequados à experiência que Trótski descreve. De acordo com o materialismo de Spinoza, um materialismo muito mais profundo do que o de seu contemporâneo, Hobbes, se o Direito deveria ser algo mais do que uma ficção destinada a tranquilizar aquele que o “possuía”, o Direito deveria ser entendido como “coextensivo” com o poder, o poder de fazer, de fato, aquilo que tem direito [4]. Deste postulado Spinoza deriva outro: indivíduos isolados podem exercer pouco poder; de fato, tendem a constantemente se unir sem lei ou contrato e sem a motivação do medo ou do interesse. Sua unidade não é aquela do povo, essa coletividade artificial, legal, crescentemente vista como a possuidora última da soberania. Em seu último trabalho inacabado, o Tractatus Politicus, Spinoza chama essa coletividade “a multidão”, multitudo, que “age como se estivesse com uma só mente” [5], mesmo em, e por causa de, sua diversidade, uma coisa singular, composta de coisas singulares, e cujo poder físico e inteligência, todo soberano teme.

Como a multidão é constituída em um sentido físico e material a agir e pensar como uma coisa singular, capaz, mesmo como uma concorrência temporária de forças, de ser a causa de efeitos, Spinoza não explica no Tractatus Politicus. Os elementos de uma explicação, contudo, podem ser encontrados na Ética, Parte III, Proposição 27, a discussão do fenômeno da “imitação dos afetos”. Spinoza define “afeto” não simplesmente como emoção ou paixão, mas como “a afeição do corpo, pela qual o poder de atividade do corpo é aumentado ou diminuído, auxiliado ou contido, junto às ideias desses afetos” [6]. Ademais, ele argumenta que “seja o que for que aumenta ou diminui, auxilia ou contém, o poder de atividade de nosso corpo, tal coisa também aumenta ou diminui, auxilia ou contém o poder de pensamento de nossa mente” [7]. Quanto maiores as limitações às quais está sujeito o corpo, não somente pela lei, mas pelas práticas e rituais da vida cotidiana, e acima de tudo aquelas encontradas na atividade do trabalho e no nível no qual o espaço e tempo são organizados pelos processos de acumulação de capital, mais o poder da mente de pensar e criticar é diminuído. Como disse Althusser, a prática precede a teoria: revolta “espontânea”, rebelião, e formas populares de distribuição de riqueza interrompem os rituais de sujeição e tornam o pensamento mais poderoso do que era antes.

De acordo com Spinoza, há uma constante comunicação de afetos e ideias sem o conhecimento ou consentimento daqueles afetados. Seu uso do termo “imitação” para descrever esse fenômeno é importante; com isso, ele torna neutro, o processo que seus contemporâneos (assim como teóricos da multidão no século XIX) comumente descreviam como “contágio”, sugerindo que apenas afetos ou paixões danosas, ou pelo menos pecaminosas, como doenças, podem realmente ser transmitidos. Porém, ele mantém um aspecto da ideia de contágio: imitação inevitavelmente sugere que o indivíduo é tanto o local, ou suporte, da imitação, como o agente que a cria. Spinoza, que parece satisfeito em deixar a noção de imitação inespecífica, permite, contudo, que a referência à transmissão de doenças permaneça. Baseado em várias afirmações na Ética III e IV, é possível argumentar que o afeto se espalha por imitação, baseado em uma teoria que se assemelha ao conceito de replicação viral, que permite a possibilidade de que sejamos “infectados” por afetos e ideias que aumentam nosso poder e prazer.

Entretanto, se preferirmos pensar com uma concepção psicanalítica, devemos proceder com cuidado. A declaração de Spinoza de que imitamos afetos que “imaginamos” que os outros tenham, como se fôssemos, de fato, agentes da imitação, pode inicialmente sugerir que algo parecido com uma projeção está ocorrendo. O problema com esse conceito é que ele confina o processo de imitação ao indivíduo que o imagina, sem envolver de todo o outro, exceto como uma tela, na qual o indivíduo projeta os produtos de sua imaginação.

Para Spinoza – e é isso que o separa de praticamente qualquer outro pensador político dos séculos XVII e XVIII – quanto maior o poder físico das massas, sua habilidade de resistir as restrições legais e extralegais importas a elas, e de mover-se a espaços uma vez fechados a elas, maior sua habilidade de ver e entender as causas de sua servidão. Este é o princípio por trás de observação de Trótski de que “agitação molecular, levada a cabo por trabalhadores, marinheiros e soldados anônimos” garantia que a correlação de forças crescentemente favorecesse as massas e que com seu poder crescente, vinha o rápido desenvolvimento do conhecimento acessível apenas àqueles que veem “a política de baixo, e não de cima”. São eles que sabem por experiência que o domínio de classe é garantido e mantido não somente por coerção apoiada em violência estatal direta, mas também por táticas mais sutis, as facilmente ignoradas e frequentemente não nomeadas formas de coerção e exclusão exercidas através do tempo e espaço da vida cotidiana.

Socialdemocratas em todo lugar buscam apenas educar as massas, instruí-las sobre a forma apropriada de transição ao socialismo, já elaborada anteriormente à crise revolucionária, cuja especificidade é vista como irrelevante. Trótski capturou, no retrato do Circo Moderno, o fato de que o partido revolucionário deve “aprender com as massas” e observar cada conhecimento que elas tenham acumulado no decorrer de suas lutas moleculares. Somente desta forma será o partido capaz de determinar a estratégia que irá unificar a maior extensão possível das dispersas forças em luta (trabalhadores, soldados, camponeses e nacionalidade oprimidas) com o objetivo de “amolecer” as defesas da classe inimiga até a aparição daquele momento arisco, quando um único e cuidadosamente calculado ataque pode mudar o curso da história e “virar o mundo de cabeça para baixo”.

Na descrição de Trótski dos mais oprimidos e brutalmente explorados não há um traço de pena condescendente, nenhum senso de que seu sofrimento os purifica ou que sua pobreza os torna virtuosos. Pelo contrário, ele sente o poder que cresce com sua unidade, a densidade capaz de resistir a todos os golpes que o Estado é capaz de desferir; o conhecimento imanente neste poder o atinge repentinamente, preenchendo sua mente com ideias e concepções previamente desconhecidas a ele próprio, como se a imagem visível do interior do Circo Moderno fosse o correlato objetivo de uma mente tão preenchida de novas ideias, que as antigas se veem expulsas completamente, pela torrente incessante produzida pela atividade das massas.

Algumas linhas após a passagem citada acima, Trótski nota que “deixar o Circo Moderno era ainda mais difícil do que entrar nele. A multidão não estava disposta a romper sua recém descoberta unidade; ela se recusava a dispersar [8]. Sua experiência tanto de espaço como de tempo já mudou; vemos, na pressão e postura da multidão os efeitos da autogestão do movimento e da disposição corporal. Contra todo o movimento ritualizado da vida diária e a divisão do tempo direcionada pelas necessidades da acumulação de capital, a resistência torna-se visível, as massas descobriram o poder e prazer de direcionar seus próprios movimentos. E enquanto a organização da vida cotidiana alterna entre a dinâmica da individualização, dispersão e separação, de um lado, e o confinamento coercitivo do local de trabalho ou da casa, de outro, as massas, uma vez que começam a exercitar seu poder, buscam unidade e coletividade mesmo em seu movimento.

A descrição de Trótski do interior do Circo Moderno, onde cada centímetro quadrado de espaço está ocupado por corpos pressionados uns contra os outros, comprimidos, isto é, espremidos, ao máximo, e onde ele deve, com frequência, ser passado de mão em mão sobre as cabeças da multidão para chegar à plataforma de discurso pode, em um contexto diferente, ter servido como uma descrição de uma infernal e desumana detenção em massa. Aqui, é a causa e efeito de uma experiência de profundo prazer, um novo sentido do corpo, o barulho de gritos e exasperações, a mistura de exalações no ar: juntos, estes formam o ambiente perfeito para a rápida transmissão de ideias e sentimentos e para a concatenação de argumentos em formas cada vez mais efetivas. De fato, mesmo as crianças de rua tornaram-se intelectuais, repentinamente consumidas pela questão de que caminho seguir e como encontrá-lo, e prontos para contribuir com a resposta. O Circo Moderno também representa a rejeição do tempo imposto às pessoas e por elas vivido, até então, como natural. É meia noite, e todo o distrito se dirigiu ao grande anfiteatro para debater, discutir, e levar a cabo uma espécie de diálogo com seu orador preferido, Trótski: operários cujo trabalho começa em algumas horas; crianças que irão à escola pouco depois e aqueles que devem tomar conta deles; bebês e seus avós. São eles, e não seus mestres, que decidirão coletivamente a organização do tempo necessário para o momento em questão.

O envolvente senso de corporeidade é essencial à experiência que Trótski descreverá. O senso de contato corporal, o abraço da multidão, e mesmo a forma como ele, falando à multitude, sublinha e pontua seu discurso com gestos, movimentos das mãos e braços, e ao fazê-lo inevitavelmente toca aqueles mais próximos dele. Estes, então, com um movimento da cabeça e um aceno com a mão, sinalizam que ele continue falando, que ele não precisa se preocupar com as convenções da cortesia. Para todos na sala, homem, mulher e criança, é urgente que Trótski continue. Ele experiencia essa urgência não apenas como a expectativa ou necessidade que ele lê nos rostos apinhados da sala, mas como um efeito da força combinada da massa que ele compara a uma "tensão elétrica", a força de uma corrente elétrica cujo fluxo ele não pode resistir, não importa o quão exausto ele esteja, como se a demanda de saber tivesse tomado uma forma material para carregá-lo à frente. Ele sente seus lábios, sua boca, respondendo à exigência da multidão através de um poder que faz com ele abandone as palavras que preparou na solidão. Por meio da “pressão imperativa da empatia”, a massa o comunicou outras palavras e outros argumentos que se replicaram nele, e, apesar de estranhos a ele, “absolutamente inesperados pelo orador”, eles agora o pertencem. Esses são os argumentos por eles demandados sem que o saibam, os argumentos que eles já comunicaram a Trótski, e com os quais ele não pode evitar responder.

Ao falar de si mesmo como “o orador”, na terceira pessoa, Trótski reconhece que as palavras que a multidão dele exigiram são dela, não dele, que ele, “inesperadamente” não pode evitar pronunciar. À medida que escuta o outro em que se tornou, ele se vê "tentando acompanhar suas ideias", o orador que reúne enquanto fala os argumentos e postulados comunicados nas massas em cada gesto e expressão facial, as sequências de palavras gritadas ou sussurrado, até mesmo o toque das mãos que se estendem para dar um tapinha nas costas dele em resposta à sua exortação de que se preparem para o poder, ou simplesmente repousar em seu ombro em aprovação enquanto ele se dirige à multidão. Trótski se vê como alguém que foi tomado como por um ventríloquo pela massa, ou como um sonâmbulo, mais poderoso em seu sono e liberto da prisão da consciência do que quando acordado, cujos feitos de razão política ele compara a caminhar sonâmbulo na borda de um prédio, alto acima do chão, que “pode cair da borda do telhado” se acordado ou perturbado pelo som do próprio raciocínio de Trótski.

Aqui, mais uma vez, Trótski, segurando sua respiração conforme assiste a si mesmo caminhar pela borda do telhado, ou pelas bordas do mundo, encontra-se com Spinoza, que via os feitos do sonâmbulo como sinais do que o corpo pode fazer (e dizer) quando liberto da disciplina e coerção da vida cotidiana. O eu que ele vê profere palavras que são mais verdadeiras que aquelas que pretendia dizer, palavras sussurradas ou gritadas por milhares de vozes com a maior urgência, pois elas vêm da experiência da luta e a conclusão aterradora à qual ela aponta. Ter se encontrado falando essas palavras, ao invés dos argumentos e propostas desenvolvidas de antemão, e mais ainda ter reconhecido instantaneamente sua verdade, uma verdade que ele não poderia ter descoberto por conta própria: essa memória vívida das noites passadas com as massas mobilizadas de Petrogrado, uma memória do momento em que ele não as liderou, mas caminhou com e entre elas, ao longo da borda de um novo mundo, a borda da história, temendo que fosse um sonho, do qual ele pudesse acordar, o sustentou através da derrota e exílio. Trótski capturou, em uma breve passagem, tão difícil quanto bonita, e talvez pelo fato destinado a nunca ser esquecido, uma das mais importantes lições de Outubro: a necessidade absoluta de aprender com as massas e de reconhecer a inteligência que surge de sua mobilização. Stálin desejava, matando Trótski e todos associados a ele, enterrar essa verdade de uma vez por todas; ele falhou, precisamente porque essa verdade não é uma questão meramente de palavras, mas é inscrita e todos os atos pelos quais as massas insurgentes contestam a exploração e opressão.

Tradução: Alexandre Miguez.

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FOOTNOTES

[1Jean-Jacques Rousseau, ‘Rousseau, juge de Jean-Jacques’, Dialogues, en Collection complète des oeuvres (Geneva: Société typographique de Genève, 1780-1789), vol. 11, 216.

[2Leon Trotsky, My Life: An attempt at an Autobiography. New York: Dover, 1930, 295. [tradução nossa]. Quero agradecer a Oleg Gelikman por me explicar essa passagem palavra por palavra com base na versão original em russo. Eu não poderia ter escrito este texto sem sua ajuda. [nota do autor].

[3Tony Cliff, Trotsky 1917-1923: The sword of the revolution, Bookmarks, Londres, 1990.

[4Tractatus Theologico-Politicus, XVI.

[5Tractatus Politicus III.

[6Ética III, Definição 3.

[7Ibid. Proposição 11.

[8Trotsky, My Life, 296.
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Warren Montag

Professor de literatura britânica e de filosofia política na Occidental College de Los Angeles (Estados Unidos). Editor da revista “Décalages” e autor de diversos livros sobre Adam Smith, Spinoza e Althusser.
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