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HAITI

Após anos de ocupação militar, a luta no Haiti impede o aumento dos combustíveis

Num país em que cerca de 80% da população vive com menos de U$2,00 por dia, os bancos e especuladores acham por bem aumentar em quase 50% o combustível necessário para o aquecimento nas casas. O que as medidas do imperialismo nesse país revelam? E o que a resistência do povo haitiano nos diz da história desse povo?

Leticia Parks

São Paulo

terça-feira 10 de julho| Edição do dia

No início deste mês, o governo anunciou que a partir de sábado, 07 de julho, haveria um aumento no preço de todos os combustíveis, chegando a absurdos 50% no querosene, 49% na gasolina e 40% no diesel. Isso em um país onde 80% da população passa fome e vive sem abrigo por viver com cerca de U$2,00 por dia.

Devido a séculos de altos impostos e ao acúmulo de uma dívida paga por sua independência nacional, o Haiti produz muito pouco de seu mercado interno de consumo, sendo forçado a importar boa parte de seus bens de consumo de países com entrada econômica garantida, graças às centenas de governos aliados do imperialismo norte-americano.

O mesmo ocorre com os combustíveis, que no caso do Haiti, não são produzidos em nenhum grau ali, mas sim importados a altos custos das mãos do capitalismo ianque. São seis as empresas com relação com o Estado e direito sobre a circulação de combustíveis, quatro delas de capital explicitamente ianque: Sol Petroleum, DINASA, ESSO Standard Oil, Texaco. As duas nacionais, a estatal ANADIPP e a privada Total Haiti S.A., de capital suspeito, controlam apenas 21% da circulação de petróleo no país, que é em maioria esmagadora controlado pelas imperialistas, que por esse motivo são as principais controladoras dos preços.

O aumento atacaria diretamente a qualidade de vida da população, que pela enorme precariedade tecnológica que assola o país, utiliza o querosene como principal fonte de calor dentro das casas. Tanto o diesel quanto a gasolina, além de afetarem o uso do trabalhador que utiliza automóvel, quando são aumentados jamais afetam os capitalistas dos transportes e dos alimentos, que lançam o aumento de preço pro produto final e fazem com que o trabalhador e a população mais pobre pague dobrado o aumento dos combustíveis.


imagem: DIEU NALIO CHERY/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Mas o governo não conseguiu passar esse aumento goela abaixo. Foi obrigado a no sábado (07) anunciar que faria uma pausa na implementação do aumento, não porque considere injusto, mas porque as massas haitianas passaram a última semana saqueando mercados, ocupando as ruas, tocando fogo em postos de gasolina e em agências do governo. A situação forçou o pronunciamento do primeiro-ministro Jacques Guy Lafontant, mas o pronunciamento não silenciou essa revolta. Mas porque?

Há muito por trás das revoltas dos combustíveis que se alastram pela América Latina. As forças da crise empurram os capitalistas a puxarem com mais força o cabo de guerra dos ataques, como quiseram fazer aqui no Brasil mas foram impedidos, neste caso não por uma ação independente das massas e dos trabalhadores, mas em uma rebelião dirigida por setores de extrema direita que pediam, junto com a baixa apenas do diesel (um claro programa burguês), questões como a intervenção militar ou a perseguição aos comunistas, numa clara continuidade dos discursos à direita que tomam força a partir do golpe institucional.

Também é preciso dizer que a cada passo que o povo haitiano dá contra o imperialismo, a memória retoma apaixonadamente a inédita experiência da revolução negra que ocorreu por lá no século XVIII, que colocou ninguém mais ninguém menos que Bonaparte e o governo imperialista francês de joelhos. Assim como aqui, o Haiti foi forçado a pagar uma multa enorme à França pela sua independência, uma das origens da dívida pública no país, que hoje já chega a bilhões de dólares e consome cerca de 30% do PIB haitiano por ano, mais uma forma de escravidão, dessa vez econômica, que impede que esse minúsculo país assuma a sua incomparável força em desenvolvimento econômico e bem estar da população.

O Haiti é aqui. Do ódio ao imperialismo, da insitência em guerrear contra cada sangria do dinheiro público, da recusa a pagar a dívida, à resistência negra que fez revolução, história e tradição viva, essa tradição que ainda que pareça distante, não deixa o negro haitiano baixar a cabeça, mesmo depois de quase duas décadas de ocupação militar.

Força, Haiti.




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