EDITORIAL MRT

Após 132 anos da abolição da escravidão no Brasil, COVID-19 promove devastação nos países de maioria negra

O dia 12 de maio, dia internacional da Enfermagem, mostrou que há pelo país focos de resistência que precisam ser potencializados. As trabalhadoras e trabalhadores de todo o sistema de saúde podem ser decisivos na defesa das vidas negras e trabalhadoras frente um Estado que calcula mortes e economiza em medidas sanitárias. No caso brasileiro, no dia de hoje – o 13 de maio da assinatura da Lei que dá fim à escravidão após séculos de luta negra – é preciso dizer que a manutenção do racismo somada à pandemia promete trazer uma crise devastadora aos países de maioria negra em todo o mundo. Todos os trabalhadores dos setores mais estratégicos da economia e do combate à pandemia tem em suas mãos a tarefa de assumir para si um combate antirracista em cada um desses países.

Leticia Parks

Brasília - DF

quarta-feira 13 de maio| Edição do dia

A crise da pandemia no Brasil se somou a uma crise econômica e política de enormes proporções. Bolsonaro vinha se enfraquecendo com as declarações negacionistas em relação à pandemia – enquanto corpos se acumulavam pelo país – governadores, Rodrigo Maia e o STF buscavam se localizar como vozes sérias no enfrentamento à pandemia, mas para nenhum deles há uma preocupação real com o destino das grandes massas brasileiras que não tem acesso à água (quase 32 milhões) ou à redes de esgoto (47% da população), menos ainda com as trabalhadoras e trabalhadores da saúde, que no dia de ontem por todo o país em focos de resistência denunciaram a falta de EPIs e testes. Um deles é o Hospital Universitário da USP, onde as trabalhadoras e trabalhadores da saúde fizeram uma linda homenagem às vidas de enfermeiras e enfermeiros perdidas pelo descaso do Estado. Outro foi ação do Sindicato de Enfermeiros em Brasília, que levou um boneco de Bolsonaro ao Ministério da Saúde com as mãos sujas de sangue.

Nas alturas, a saída do ex-juiz e agora ex-ministro Sérgio Moro prometia ser uma sequência de revelações contra Bolsonaro, mas ele próprio tem muito o que esconder da sua participação de quase um ano e meio acobertando os crimes da família Bolsonaro e revelar esses crimes seria se autoincriminar. A disputa entre as duas alas do regime brasileiro buscam de um lado aumentar a pressão para que os militares rompam com o governo, mas estes seguem firme e forte ao lado de Bolsonaro, assumindo ainda mais o comando do governo, primeiro com a criação do gabinete de crise dirigido por Braga Netto, que assumiu o controle das medidas de combate à Covid, e depois com o plano Pró-Brasil, no qual Braga Netto também assumiu responsabilidade pela condução econômica com medidas de investimento estatal na economia, que por hora não passam de intenções mas já mostram sua tutela nesta área. A tutela militar também se espraia agora com uma operação de Garantia da Lei e da Ordem em todos estados amazônicos, colocando sob comando de Mourão o Ibama, o Incra, a FUNAI e diversos órgãos civis e uma imensa parcela do território nacional. Com a desculpa de combate ao desmatamento os militares, que sempre apoiaram a devastação ambiental e o ataque as populações indígenas e aos pobres se preparam a um maior papel na contenção das contradições sociais justamente na região onde a pandemia avança de forma mais devastadora.

Esse escândalo do vídeo da reunião ministerial em que Bolsonaro assume querer controle sobre a direção da Polícia Federal por interesses próprios faz perguntar, mais uma vez, o que está por trás dessa interferência do presidente na investigação no RJ, colocando o assassinato de Marielle Franco e a violência racista da Intervenção federal no mesmo estado no centro da disputa entre as alas da política nacional, intervenção essa que foi comandada pelo seu atual ministro da Casa Civil, General Braga Netto. A instabilidade é profunda. Essa é a primeira vez desde que foi deflagrada a operação Lava Jato que militares e STF se preparam de forma aberta. Vemos uma disputa aberta entre o bonapartismo judicial – apoiado por parte do Congresso – e o bonapartismo militar, aliado de Bolsonaro e de ala do Congresso. De um lado e de outro, os mecanismos de disputa política são um desfile de medidas autoritárias, que tem a questão negra como parte importante de suas narrativas.

Uma dessas alas disfarça seu descaso através de um discurso de cuidado de saúde com a oferta de um lockdown apresentada por diversos governadores pelo país, que mais do que a quarentena, promete ser recheada de medidas repressivas do Estado contra as massas, já que envolve represália direta aos que saem às ruas. A própria quarentena atual – sem testes, com um auxílio emergencial absolutamente insuficiente e que não chega para dezenas de milhões de pessoas que precisam, e sem garantia de liberação remunerada do trabalho aos serviços não essenciais – já absolutamente insuficiente para controlar a contaminação, o que se prova pelos números de rápida aceleração da crise. Enquanto disputam nas alturas, as alas do governo reafirmam seu intento autoritário sem oferecer qualquer saída efetiva para as grandes massas, que continuam vendo seus entes queridos sendo enterrados em valas comuns, sem sequer poder se despedir.

O descaso é tamanho que Bolsonaro chegou a incluir academias e cabeleireiros dentro dos serviços essenciais, e acrescentando escárnio retirou essas categorias do recebimento dos parcos R$600 de auxílio emergencial, ao que governadores de sua base de apoio se somaram permitindo a reabertura desses comércios, expondo milhares à contaminação. Num país com raízes escravocratas e com a última abolição do planeta, quando se fala em mortes, falta de água e precariedade de trabalho, por trás dos números certamente há uma cor de pele majoritária. A manutenção de uma estrutura racista de sociedade foi essencial para criar uma condição de exploração de baixíssimos salários. Se por um lado o racismo faz com que negras recebam em média 60% a menos que um homem branco, a fila de desemprego – que hoje pesquisadores como Ricardo Antunes chegam a estimar em 30 ou 40 milhões – faz com que o próprio branco possa ter um salário muito baixo perto da média de outros países.

Para toda a classe trabalhadora, o racismo divide, humilha, escraviza e mata, e nada nunca foi tão forte para explicitar isso como a pandemia. Com as mãos sujas de sangue estão os militares amantes do AI-5 (que matou e torturou negras, negros e indígenas em nome de um país “miscigenado” e de “democracia racial”), diversos partidos do centrão historicamente amigo da ditadura e do capitalismo avassalador brasileiro, representantes do agronegócio e da construção civil escravocratas, o judiciário racista, que chegou hoje ao extremo de manter aprisionados milhões (40% da população carcerária) sem sequer serem julgados. Nossas saídas e nossos métodos de luta precisam estar a altura dessas violências, e superar os limites da conciliação, do mal menor e da eterna espera por 2022 do PT, PCdoB e das “aquarentenadas” burocracias sindicais.

“Potencializar as lutas de resistência da linha de frente contra a pandemia”

A liberação com remuneração e sem nenhuma demissão de todos os trabalhadores dos serviços não essenciais é uma medida de grande destaque para o atual momento. Com a curva de contaminação se acentuando, não podemos permitir que milhões voltem ao trabalho sem necessidade, e inclusive batalhar para que os que voltem, seja em base a testes massivos e produzindo o que é absolutamente necessário para enfrentar a crise, como foi desejo de muitos trabalhadores. Essa medida, chamada reconversão da indústria foi ignorada até agora pelos governos. Eles só falam em quarentena, que inclusive denunciamos que não foi para todos e que mantinha, em especial, trabalhadores precários, inclusive do grupo de risco, sob o enorme risco da demissão, da fome ou da contaminação, sem EPIs e condições seguras de trabalho; e agora a novidade é o lockdown, que tende a ser uma medida brutalmente repressiva. Os governos radicalizam o discurso mas mantém trabalhadores dos serviços não essenciais trabalhando sob enorme risco, enquanto a produção que é realmente necessária pra combater a pandemia não está sendo feita.

Num país que permitiu na sua constituição dividir o direito da saúde com o sistema privado, vemos a situação calamitosa em que negras e negros são quase 70% dos que não tem acesso ao sistema de saúde, nem público nem privado, já que apenas a sede de lucro do privado chega onde o público não está. Os sistemas de saúde precisam ser unificados sob controle dos trabalhadores, e junto com todas as demandas mais emergenciais de testes massivos, leitos, respiradores, EPIs, contratação e liberação do grupo de risco, devem enfrentar os dados de que hoje negros tem 63% mais chance de morrer por COVID-19.

A abolição da escravidão, assim como qualquer conquista já realizadas pelas negras e negros no mundo todo, só veio a partir de luta, e não foi pouca luta. “O único lugar onde os negros não se rebelaram foi nos livros dos historiadores capitalistas”, disse CLR James em seu texto A revolução e o negro. Negras, negros, mulheres, jovens e trabalhadores também, em sua história, sempre acertaram quando tomaram a decisão de serem eles mesmos os políticos da sua própria vida.

É por isso que junto a essas medidas é preciso levantar o programa do Não pagamento da dívida pública, que segue drenando recursos essenciais ao combate à pandemia aos bolsos de empresários e banqueiros; precisamos construir um pólo por Fora Bolsonaro e Mourão, bandeiras que devem também ser acompanhadas do chamado a uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que coloque nossa classe no enfrentamento direto com esse regime podre, que está de portas abertas para Regina Duarte, Alexandre Frota e generais enquanto nossas vidas continuam não valendo nada. É assim, assumindo pra si essa batalha histórica, que juntos, negros e brancos, podemos estar na linha de frente do combate à pandemia e às heranças de uma história de racismo e violência, gritando alto que nossas vidas valem mais que o lucro deles.

O Esquerda Diário tem sido uma ferramenta de todas essas batalhas. Com o debate online da esquerda no dia 19/05, com a presença de Plínio de Arruda Sampaio Jr. (Contrapoder e PSOL), Zé Maria (PSTU), Diana Assunção (MRT), Roberto Robaina (MES-PSOL) e Danilo Bianchi (CST-PSOL), importantes dirigentes da esquerda socialista nacional, queremos avançar para responder: "Qual saída revolucionária diante da crise sanitária e capitalista?". No terreno da luta negra, a partir do dia 26/05, começaremos a organizar a roda de leitura Revolução e o Negro, tocada pelos organizadores dessa publicação da ISKRA que reúne alguns dos textos mais importantes da história do marxismo revolucionário sobre a questão negra. No campus virtual do Esquerda Diário, inauguraremos o novo curso, ministrado por Simone Ishibashi, sobre a vida e obra de Lênin. No dia de hoje, em que se completam 132 anos de uma abolição arrancada em luta, apresentamos aos leitores desse diário o Dossiê 13 de maio, onde apresentamos uma leitura crítica dessa data a partir da conclusão de que não veio de graça, mas sim foi fruto de séculos de luta, do qual fazem parte notas e artigos iniciais de reflexão sobre esse importante processo histórico, e uma edição especial da nova Série Revoluções do Podcast Feminismo e Marxismo, debatendo As mulheres na Revolução Haitiana.




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