DEBATE COM A ESQUERDA

Apoio de grandes empresários e Frente Ampla com golpistas desarmam o combate dos trabalhadores à direita

Precisamos combater de frente Covas, Doria e todo o regime do golpe. A força para isso depende da mobilização independente da classe trabalhadora, das mulheres, negros, LGBTs e da juventude. Não é possível impulsioná-la com o apoio e financiamento dos grandes empresários.

Bruno Gilga

Diretor de Base do Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP)

sexta-feira 27 de novembro de 2020| Edição do dia

Em São Paulo, no segundo turno, a direita golpista está representada por Covas, que tenta se apresentar como um bom gestor, de perfil moderado, mas entrou na prefeitura justamente quando seu padrinho foi para o governo com a marca de BolsoDoria. Não à toa agora se coloca como defensor da lei e da ordem, enquanto se gaba da “arrumação das contas” com privatizações e cortes de direitos que aprovou. É o prefeito que impôs a reforma da previdência municipal através de uma repressão brutal às trabalhadoras e trabalhadores da educação, saúde e demais serviços públicos

Nos colocamos na linha de frente do combate contra Covas, Doria, Bolsonaro e todo o regime do golpe, integrado também pelo Centrão, militares e judiciário. Fazemos isso agora, bem como viemos fazendo todos os dias, na luta política cotidiana, e nas mobilizações e enfrentamentos mais duros contra cada um de seus ataques. Para derrota-los, é preciso construir a mobilização independente da classe trabalhadora, das mulheres, negros, LGBTs e da juventude. Essa é a única força capaz de vencê-los, e por isso a intervenção nas eleições também precisa estar a serviço de impulsioná-la. E não é possível fazer isso com o apoio dos grandes empresários.

O apoio dos grandes empresários a Boulos está condicionado à segurança de que seu projeto de governo está comprometido com a “responsabilidade fiscal” - que limita os gastos sociais para garantir o pagamento aos milionários donos da dívida pública -, como deixa claro o recente Manifesto de empresários e investidores em apoio a Boulos, assegurando ao mercado que Boulos "descola de um certo anacronismo da esquerda em temas como trabalho, empreendedorismo e parcerias com setor privado". Assinam o manifesto “em nome do grupo” de 50 empresários - cuja maioria considerou-se conveniente sequer revelar - nomes como Luiz Rheingantz Barbieri, empresário do agronegócio que chegou a Presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, e Eduardo Moreira, que foi sócio do Banco Pactual de investimentos e fundador da Plural Capital.

No mesmo esforço de acalmar o mercado, a campanha de Boulos tem dado peso às declarações de apoio de economistas como Monica de Bolle, conhecida por sua forte atuação ligada ao FMI, e Bresser-Pereira, o autor do “Plano Bresser” do governo Sarney e “Ministro da Reforma do Estado” de FHC.

Boulos, que anteriormente já enfatizou que “quem paga a banda escolhe a música”, tem como uma das maiores doadoras de sua campanha Marília de Andrade, a herdeira da empreiteira Andrade Gutierrez. O papel que isso cumpre é, acima de tudo, o de concretizar sua afirmação de que não vai demonizar o grande empresariado. Já debatemos antes também o significado dos compromissos que assumiu em reunião com os barões do comércio de São Paulo, expoentes do bolsonarismo que passaram a pandemia lucrando com a exposição de trabalhadores nos supermercados e grandes redes do comércio.

Esses apoios só entram na medida em que a mobilização da classe fique de fora. Não à toa a imprensa sempre faz questão de perguntar a Boulos se apoiará ocupações e manifestações. Não é só para mostrá-lo como “radical”. Até porque ele nunca responde positivamente. É também para que assuma compromissos, como quando ele diz quenão poderia deixar de cumprir ordens judiciais para reprimir ocupações, mas que como ele teria política para garantir moradia “no seu governo o tema das ocupações não vai ter relevância”, ou responde a mesma questão no Roda Viva dizendo que , como irá dialogar, "muito dificilmente você vai ter manifestações conflagradas no nosso governo". A intervenção da esquerda nas eleições deve servir para fortalecer as lutas e impulsionar a mobilização, não para dizer que não serão mais necessárias, e criar a ilusão de que um governante resolverá tudo por dentro das instituições.

Mas, para além de declarações, a opção pela conciliação se concretizou com o anúncio de Boulos de que vão fazer parte de seu governo o PSB, a Rede e o PDT, partidos que votaram a favor do golpe, da reforma da previdência federal e estadual, e de praticamente todos os ataques de Covas aprovados na câmara municipal, como a reforma administrativa e as privatizações. Já vimos com o PT aonde levou o caminho da conciliação: ao fortalecimento da direita responsável pelo golpe - com a qual o PT segue conciliando, compondo nessas eleições coligações 140 cidades com o PSL, além de inúmeros partidos da direita golpista.

A ideia de que esse tipo de frente seja “ampla” no sentido de somar mais forças, para assim enfrentar a direita, é falsa, pois a entrada dessa parcela menor dos partidos burgueses só se dá com a condição de que fiquem de fora as massas em luta, de que o discurso vá se moderando mais e mais, de que se estabeleça compromissos com empresários e os limites deste regime podre, de que não se convoque a mobilização dos explorados e oprimidos, ou seja, de que se reduzam, e não aumentem, as nossas forças e, afinal, não se enfrente de fato a direita e o regime do golpe.

Por isso, lutamos contra Covas e Doria, mas não apoiamos essa frente ampla de Boulos com burgueses e golpistas, e o apoio de empresários. Seguiremos lutando com todas as nossas forças para construir a mobilização independente da nossa classe e de todos os oprimidos para enfrentar e realmente derrotar Covas, Doria, Bolsonaro e todo o regime do golpe - e nesse caminho, batalhando pela construção de uma organização revolucionária firmemente erguida sobre a independência de classe.




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