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Antiaborto e homofóbica: o que diz a direita evangélica que se fortalece com López Obrador

O triunfo arrasador de López Obrador permite a seus aliados da direita evangélica do Partido Encontro Social fortalecer sua bancada no Congresso. Já chegaram com suas posições contra o aborto, contra o casamento igualitário, contra a adoção por casais homossexuais e contra o estado laico.

terça-feira 3 de julho| Edição do dia

Através das mãos do triunfo arrasador de López Obrador, é fortalecida no Congresso a bancada da direita evangélica do Partido Encontro Social (PES). Esses aliados de AMLO chegaram ao parlamento com suas posições contra o aborto, casamento igualitário e a adoção de crianças por casais homossexuais.

Segundo as pesquisas após a votação e os cálculos anteriores, uma vez que a contagem final se realiza de forma lenta, esse partido cristão e ultra conservador poderia quintuplicar seu atual número de parlamentares e, pela primeira vez em sua curta história - obteve inscrição em 2014 -, contaria com uma bancada no Senado.

O que essa força direitista pensa e que projetos poderia apresentar em relação a temas fundamentais sobre o aborto legal ou o casamento igualitário, nós repassamos nesta nota.

“O casamento homossexual é uma moda no México”

Essa frase foi dita em uma entrevista ao portal El País pelo ex-pastor evangélico Hugo Eric Flores, fundador do PES, partido que se aliou primeiro com o ex-presidente Felipe Calderón, e que hoje é fundamental na aliança que levou Andrés Manuel López Obrador à presidência.

Segundo Eric Flores define na entrevista, seu partido viria para “substituir o PAN. Buscando similaridade na Espanha: Morena seria o Podemos e o PES, o Ciudadanos”, deixando nítido o perfil conservador de sua força política.

Flores define também a opinião do Partido Encuentro Social (PES) em um tema chave: o direito ao aborto legal. “Respeitamos o direito da mulher de decidir sobre seu corpo, mas não sobre a vida dos outros. Para ele [o aborto], existem contraceptivos e propomos que se implementem políticas públicas nessa direção. Na Cidade do México, onde se aprovou o aborto, ele se converteu em negócio”, diz o líder do PES, repetindo os argumentos de que os defensores do aborto legal estão dominando toda a região.

Mas Flores vai além e também deixa claro que sua força é contra o casamento igual. "É bom que um casal gay tenha direitos e possa herdar, não temos problema com isso. Nosso problema tem a ver com a procriação”. Ele acrescenta que "o casamento igual tornou-se uma moda passageira. Se alguém em sua vida quer exercer sua sexualidade da maneira que quiser, é muito bom, é um direito, mas transferi-lo para a esfera pública ameaça a vida”. Basicamente, quem não respeita a heterossexualidade, que fique no armário.

Flores não foi o único a expor seu pensamento reacionário. Segundo a deputada do PES, Edith Martínez, "vendemos a perspectiva de gênero como igualdade entre homens e mulheres, mas tratava-se de engano onde ninguém é homem ou mulher". Como se essa afirmação não fosse suficiente, acrescentou que a liberdade faz com que as pessoas decidam "ser homem, mulher, bissexual, transexual, transespécie, neutra, intersexual, travesti, indefinida ou mera quimera". "Como nossos netos se lembrarão de nós quando virem ao seu redor os absurdos que já são vistos no Canadá, na Holanda e na Inglaterra, casos reais de pessoas se casando com golfinhos ou laptops?", concluiu a deputada.

Embora pareça mentira, esse foi um dos argumentos apresentados pela deputada Martinez para rejeitar a iniciativa em favor de casamentos igualitários, apresentada pelo presidente Enrique Peña à Câmara dos Deputados.

As iniciativas parlamentares da direita evangélica contra o aborto e o casamento igualitário

O crescimento do PES no parlamento mexicano, juntamente com sua aliança com López Obrador, abre a possibilidade de que esta força esteja promovendo uma série de iniciativas nacionais semelhantes às apresentadas em 2016 durante a Assembléia Constituinte da Cidade do México contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra o aborto.

Na ocasião, a deputada do PES, Aída Arregui, propôs a reforma de um dos artigos da constituição local para reconhecer a "família natural" e definir o casamento como "a instituição formada por uma mulher e um homem". Com essa moção, o PES buscou eliminar o casamento igualitário que existe na Cidade do México desde 2012.

Em relação ao aborto, que na Cidade do México é descriminalizado, o PES propôs reformar o artigo 8 da constituição da cidade para que a vida seja reconhecida a partir da fertilização e abra o caminho para a abolição do direito ao aborto. Nesta iniciativa, também contou com o apoio do Partido da Ação Nacional (PAN), que havia apresentado uma moção idêntica. Sem dúvida, após o triunfo da AMLO e com um peso maior no Congresso, o PES tentará atacar novamente os direitos das mulheres e da comunidade LGBT.

López Obrador evitou pronunciar-se sobre essas questões durante a campanha eleitoral para não quebrar seu acordo com o PSE, e toda vez que lhe perguntavam sobre sua opinião sobre o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo gênero, ele simplesmente disse que considerava temas como a corrupção mais importante ou ao serem colocados em discussão, esses temas poderiam ser submetidos a uma consulta popular.

Essa posição gerou medo entre as organizações de mulheres e a comunidade LGBT, já que estaria abrindo a possibilidade de fazer uma consulta sobre essas duas questões que já estão legalizadas na Cidade do México. Sem mencionar o interior do país onde as igrejas (católicas e evangélicas) têm peso e atuam na política contra esses direitos fundamentais.

Texto em espanhol aqui.
Traduzido por Cássia Silva.




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