COMPORTAMENTO / PSICANÁLISE / MARXISMO

Anotações sobre a terrível questão do suicídio

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 23 de março| Edição do dia

Não existe nada de natural ou normal no fato de que o suicídio, no Brasil, esteja matando muito mais vítimas do que uma enorme quantidade de doenças, inclusive febre amarela, dengue, hepatite e tantas outras, as quais, no entanto, merecem manchete todo o tempo.

Portanto, o problema que primeiro aparece quando abordamos o tema do suicídio é o da brutal censura para torná-lo invisível, tirá-lo da pauta escolar, universitária e midiática; isso vai desde o atestado de óbito [que procura dissimular a causa mortis] até a grande mídia, totalmente fechada à divulgação dos atentados contra a vida. Muito menos seus números, nunca citados.

Só que eles são horripilantes.

Dados confiáveis, de conselhos de medicina, por exemplo, indicam o suicídio como a SEGUNDA causa de morte no Brasil, para jovens entre 15 e 29 anos. São 12 mil suicídios por ano no Brasil [Em dados da Associação Brasileira de Psiquiatria, citados no portal do Conselho Regional de Medicina/MS].

O que dá uma média, no nosso país, de um morto por suicídio a cada 45 minutos. Ou cerca de 32 mortos por dia.

Se multiplicarmos por vinte, teremos o número de casos de tentativa de suicídio. Estima-se que para cada suicídio consumado, mais 20 tentaram se matar.
No mundo não é diferente, o suicídio vem escalando: temos um morto a cada 45 segundos.
O total mundial chega a quase um milhão de mortos por ano [novamente dados do portal do CRM-MS].
Uma tragédia humana. E que vai pesar brutalmente e perenemente sobre os que amavam e perderam, para sempre, seu ente querido.

Por que ocultar essa tragédia? E por sua vez, por que os donos do poder preferem impor o mundo cor-de-rosa das aparências?

NADA justifica a censura informal imposta pelo Estado e nem pela grande mídia.
POR OUTRO LADO, não é difícil entender o que está na raiz bem concreta desse tabu e também da censura. De alguma maneira, os números de suicidas e sua escalada constituem, em si mesmos, uma denúncia.

Uma denúncia de que algo está podre nas relações sociais dominantes. Muita gente sensível não está aguentando essa panela de pressão. E tem mais um agravante: de alguma maneira, a própria sociedade – através de suas autoridades de todo tipo - que engendra as condições para tantas mortes desnecessárias, toma o suicida como um “pervertido”. E não somente pela Igreja: o suicida é indesejável para o sistema, ele atesta a falência de determinadas relações sociais; esconder o fenômeno é um passo a mais do mesmo processo.

Como analisa Pardal: “É permitido falar, escrever, e muito, a respeito do suicídio: desde que seja para condená-lo, para repudiá-lo, para lamentá-lo ou para ´curá-lo´ (cura cujo significado é a mera manutenção da vida, independentemente de sua qualidade, tal como na medíocre medicina de nossa sociedade)”.

Aliás, a divulgação aberta e o debate sobre tais números horripilantes – de tantos milhares de mortes, em sua maioria na flor da idade - geraria um profundo mal-estar no sistema: funcionaria como um tapa na cara da ideia de uma sociedade que prega a “paz social” [com seu clímax no Natal], onde supostamente se vive no saudável aconchego familiar, na sanidade e nos bons valores, e em um mundo onde trabalhar “enobrece” o homem.

Qual o futuro, qual a perspectiva de uma sociedade onde, quase de meia em meia hora, um jovem perde a vontade de pertencer a ela, portanto de continuar vivendo a vida sem vida tal como ele a conhece e a sente no seu meio social e no mundo como ele é?

Ou, por outra: por que a moral e os valores “cívicos” e sociais da sociedade dominante, capitalista, não convencem a tantos milhares de jovens de que a vida é boa e válida, ao ponto de muitos deles chegarem ao extremo limite de avaliarem que não vale a pena continuar vivo?

Vale a pena viver nesta sociedade como ela é? – essa é a pergunta de muitos jovens.

A cada ano, cerca de 12 mil jovens respondem que não, afora outras centenas de milhares que atentaram contra a própria vida e não conseguiram ir até o fim; ou os milhares e milhares que desenvolvem comportamento autodestrutivo de todas as formas possíveis, seja através do alcoolismo ou de outras formas de “viver perigosamente”.

E a juventude pobre? Pelas estatísticas da ONU é a que mais se suicida.
A miséria e a insana vida nos marcos das privações, da pobreza, da falta de horizonte social, da discriminação de todo tipo no seio da juventude das periferias pobres, são todos elementos que estão na raiz do também grande número de suicídios entre jovens daquele meio. Além do trabalho exaustivo, opressivo, sufocante nas unidades de trabalho frenéticas e insalubres onde essa juventude vai parar para conseguir ter seu pão minimalista.

75% dos suicídios do mundo ocorrem em países de alta desigualdade social [muita pobreza, lado a lado com muita ostentação, privações e concentração de riqueza e de renda].

E pasmem: mesmo entre os próprios médicos, o problema do suicídio é impressionante: comparativamente, a taxa de suicídio entre médicos é 70% maior do que na população em geral, segundo dados do CRM de SP citados pelo site QueroEducação.

Mas a verdade é que já se sabe disso há muito tempo.

A questão é: onde anda o debate?

Alguém já ouviu falar de sucessivos seminários dos profissionais de saúde, promovido pelos sindicatos a esse respeito? Ou de denúncias sérias e insistentes sobre o problema? A verdade é que esses dirigentes sindicais [de entidades da saúde, do jornalismo etc] não se ligam seriamente ao problema, sequer para denunciá-lo. São burocracias sindicais e sua impotência é também a da esquerda de maior visibilidade. Vivendo em zona de conforto, no final de contas, ao fecharem os olhos para esse fenômeno, trabalham pelo sistema. Evitam tomar o suicídio como Marx o analisou, como uma condenação à sociedade dominante.

O resultado é que, ao final, prevalece o preconceito, o tabu e o mais cruel silêncio.
E, no final de contas, apesar de uma ou outra menção nos jornais médicos, o problema vai sendo relegado à condição de uma questão lateral [coisa que os números mostram que não é] ou individual e, no limite, o que vai acontecer é que pessoas com transtorno subjetivo do tipo classificado como “tendências suicidas”, terminam sendo medicalizadas pela psiquiatria; por medicamentos que robotizam, intoxicam ou aumentam as tendências suicidas. E o círculo se fecha.

O suicídio na nossa juventude não tem como ser dissociado de um mal estar e profundo desajuste que toda uma juventude mais sensível, também mais vulnerável, sente nas relações cotidianas, no seio da família, da escola, do seu entorno social, no tédio sufocante e no trabalho alienado, opressivo de vários pontos de vista. É ilustrativo que o poeta russo Maiakovski, em 1930, pouco antes de se matar, ao fazer um poema sobre sua vida íntima, tenha escrito: “O barco do amor partiu-se na rotina”.

[Suicídios como o de Maiakovski estão profundamente vinculados à repressão que Stálin exercia contra a arte iconoclasta e revolucionária e contra qualquer oposição política; o stalinismo, que é a representação da usurpação política do poder da classe trabalhadora e de uma ditadura contra o proletariado, cria – em qualquer país onde se desenvolveu – um clima sinistro, sufocante que, além dos assassinatos políticos também resulta em suicídios como o de Maiakovski, Ioffe e tantos outros. Para o poeta, o stalinismo foi a rotina letal que partiu seu barco].


[V Maiakovski, poeta russo]

Na nossa perspectiva, o primeiro passo para lidar com o problema é assumi-lo, reconhecê-lo: uma epidemia de depressão assola a nossa juventude, e isso vale para a classe média, como também, especialmente, para setores da juventude pobre.

Na juventude se concentra o sonho, a luta, a liberdade de movimento, especialmente a ousadia e a rebeldia [com causa ou sem causa].

Mas é preciso se perguntar: como sonhar em um tempo de grave crise nas instituições políticas e sociais, de ampla e disseminada competição individual, corrupção e vigência da “lei do mais forte”, em tempos de tanta ruína social e urbana e de um futuro nada inspirador [em meio a relações de conformismo, disseminação de religiões as mais hipócritas e oportunistas, e isso no seio da própria juventude]? Como sonhar em uma época de vale tudo moral? Como imaginar que o sonho de uma juventude de mais sensibilidade, encontre amparo, ou que encontre obrigatoriamente um norte ou inspiração nos horizontes desta sociedade decadente?

Ou alguém vai falar que essa cultura burguesa é estimulante, inspiradora, imaginativa, inteligente? Que ela pode apaixonar um jovem sonhador? Na verdade ela é muito mais uma máquina cultural e institucional de frustração, de decepção, de inibição e castração de sonhos. Promotora da violência em escala de massa, do oportunismo, das aparências, do carreirismo vazio ou da ilusória válvula de escape da neurose religiosa.

A decadência da célula reprodutora da sociedade, a família possessiva, controladora e patriarcal é patente. A vida escolar e a vida fundada nos marcos das relações sociais das grandes cidades – antro de obscena desigualdade social – é decadente, sem qualquer estímulo cultural, moral ou institucional que venha a favor de uma relação humana com sentido coletivo, de comunidade, de integração social sincera e produtiva.

É inescapável: suicídio em escala como a nossa é o sintoma e a cara da macabra decadência, da desintegração social e da insegurança social dominantes.

Sua raiz é social.

Deriva profundamente das relações de uma sociedade que lança uns contra os outros, que exala mau cheiro, que prima pelas aparências, pela pôse, pelo culto ao individualismo.
Nesse sentido, pode ser um desvio de análise e é falta de foco tentar encarar o problema do suicídio apenas tomando como centro a lógica individual, de cada pessoa, pessoa por pessoa.

Esse método pode levar a ficar enxergando a vítima e não o sujeito sofredor, que se estranha a si mesmo, no marco de relações sociais alienantes que levam aquele indivíduo singular à mais baixa autoestima, ou, ao contrário, ao mais alto narcisismo.

Esse tipo de abordagem estritamente pela lógica individual, é denunciado pela notável psicanalista francesa E. Roudinesco [no seu livro Por que a psicanálise?]: o que se tem feito, diz ela, é apagar o conflito – entre a pessoa e o próximo – conflito típico das sociedades contemporâneas, em beneficio da noção psicológica de personalidade depressiva; em viés reducionista. Suprime-se o sintoma, não se discute a causa, ela argumenta. Empurram as pessoas para uma posição cada vez menos conflituosa e com isso, diz ela “se está empurrando aquela pessoa em sofrimento para uma posição cada vez mais depressiva”.

É a falência da psiquiatria e da “psicologia da ordem”.

E é o ocultamento do mal: das relações sociais, de trabalho e familiares doentias, nefastas, de posse, por exemplo.

O que existe, se tomamos a perspectiva da revolucionária A. Kollontai, é uma “insanável solidão espiritual do nosso tempo”; não um problema da condição humana ou coisa no estilo, mas de relações capitalistas determinadas. Que se tornam insuportáveis para alguns, de grande sensibilidade, que levam muitas pessoas a uma dor intolerável. Ao ponto da sua vida ser sentida como um fardo inaceitável.

Ou como argumentava Marx no seu livro sobre o tema: alguns se matam porque cansam de ser vítimas, vão ao esgotamento mental nesta condição de discriminados e vítimas da opressão/exploração do sistema. Outros se matam por se recusarem a cumprir o papel de opressor, de carrascos do sistema. Os dois se desmoralizam, os dois sofrem uma profunda dor interior. Os dois são fustigados – em sua sensibilidade pessoal, singular – pelo vazio de determinações relações sociais, frequentemente opressivas e alienadas de seu conteúdo humano essencial.

O mesmo Marx, que antecipando alguma coisa que seria cientificamente formulada por Freud mais adiante, argumentava que o sangue circula diferente em cada pessoa; cada um reage à mesma adversidade de forma distinta. Freud trata do tema em Luto e melancolia, de 1919, mostrando o movimento interior de autopunição, que emerge de uma visão/conduta autocentrada e procura examinar os conflitos intrapsíquicos na raiz do suicídio.

No entanto, não custa lembrar que o próprio S. Freud – apesar do seu limite político etc - não foi nada alheio ao papel dessa sociedade enferma. Em seu texto onde fala da moral sexual civilizada e da doença nervosa moderna, embora se referindo à neurose [e não exatamente à depressão ou ao suicídio], denuncia que a repressão e a moral da nossa sociedade levam ao adoecimento psíquico e seus sintomas.

Aqui ele converge com Marx. E sobre essa questão, grandes artistas atuais também têm refletido [ver Guillermo del Toro, de A forma da água, argumentando sobre a violência moral e espiritual da família contra a criança].

Claro: se não se analisa nessa perspectiva vamos pensar que a depressão e o suicídio caem do céu ou de uma personalidade que já nasceu sofrida e, por essa via, anistiamos a sociedade enferma e fica tudo bem, do jeito que os donos do poder - e a psiquiatria dominante - querem.

Será com Marx que poderemos alcançar a raiz mais profunda desse fenômeno: ou seja, para além de qualquer propósito individual - e da resposta particular individual - está o fenômeno social de base, social e histórico.

Nas palavras de Marx [escrevendo sobre o relatório Peuchet e o suicídio]: “A classificação das diferentes causas do suicídio deveria ser a classificação dos próprios defeitos de nossa sociedade”. Devidamente traduzida em conflitos internos, diria Freud [Esboço de Psicanálise, de 1939].

O suicídio se estendeu, continua se estendendo como fenômeno de massa e, pior, passou a ser natural. Natural porque esta sociedade em decomposição o produz em massa. Há sociedades sem suicídio: portanto vale o raciocínio: ele só é natural da nossa sociedade, capitalista [Ou em sociedades dirigidas burocraticamente, por conta da expropriação política das massas, naqueles países do autoproclamado “comunismo”].

Pois bem, este elemento, que escapa aos profissionais da medicalização da subjetividade, da psicologização do fenômeno, é que deveria merecer um debate público.

Inclusive para enfrentar o fenômeno, mas também, como argumenta A Camus, para desmistificá-lo. No seu ensaio O mito de Sísifo, Camus propõe colocar a reflexão do suicídio como uma reflexão normal, argumentando que o suicídio não é uma saída, claro, mas é uma reflexão válida e necessária, e conclui que “se existe um problema filosófico realmente sério é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”.

O debate, portanto, estendendo a deixa de Camus, é sobre o sentido da vida em uma sociedade capitalista decadente, que certamente [agora com Marx, não mais com Freud] precisa de todos nós, do desenvolvimento consciente e programático das lutas operárias, para ser revolucionada pela raiz.

Com maior ou menor pressão interior, com conflito mal ou pouco resolvido, com mais ou menos contradições subjetivas, a revolução interior é, na verdade, a revolução exterior, tudo como parte da mesma dinâmica: a da perspectiva de engajamento para derrotar essa sociedade que, todo o tempo, mina nosso mais elementar equilíbrio psíquico. Esse é o desafio ao qual o setor mais combativo da juventude tende a responder.

[Crédito de imagem, modificada: www.stuff.co.nz e www.popsugar.com ]
ROUDINESCO, Elizabeth, 1999. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar.
MARX, Karl, 2006. Sobre o suicídio. SP: Boitempo.




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