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Aliados de Putin sofrem pesada derrota nas eleições municipais de Moscou

Número de deputados ligados ao Kremlin despencou de 40 para 25 das 45 cadeiras no conselho municipal. Oposição foi impulsionada pela crescente reprovação ao governo, após a brutal repressão e prisão de mais de 2.500 pessoas nas manifestações de Julho e Agosto.

terça-feira 10 de setembro| Edição do dia

Recentemente ocorreram diversas eleições municipais e regionais por toda a Rússia. A população de Moscou, sede do governo, demonstrou ampla reprovação das habituais políticas autoritárias promovidas pelo governo e pelos candidatos ligados ao Rússia Unida (partido de Putin). O parlamento de Moscou, que era composto majoritariamente pelos governistas, passará por uma pesada recomposição após semanas de protestos duramente reprimidos e de um giro tático da oposição - que inclusive é sistematicamente perseguida pelo Kremlin, como no caso da proibição de algumas candidaturas de oposição no município, após uma pesquisa interna ter indicado vitória deles sobre os candidatos tradicionais.

Moscou vivenciou nos últimos meses uma onda de protestos. Entre os motivos consta a reforma da previdência aplicada pelo governo, que aumentou em 5 anos a idade mínima da aposentadoria. Outros fatores centrais em jogo na crise russa são as recorrentes denúncias de corrupção que vêm caindo sobre políticos e figuras ligadas ao Rússia Unida, as dificuldades de crescimento da economia e o estouro da indignação com a brutal repressão policial sofrida pelos manifestantes. Mais de duas mil e quinhentas pessoas foram reprimidas e presas pela polícia do Kremlin, na Praça Vermelha, o que levou à cobrança pela abertura de inquéritos de investigação acerca do uso de força pela polícia, em especial da parte da presidente da comissão de direitos humanos da ONU, Michelle Bachelet. O governo russo, dirigido pelo Rússia Unida desde 2000, é historicamente denunciado por organizações de defesa dos direitos humanos por recorrentes casos de repressão violenta, perseguição política, tortura e mortes de prisioneiros em custódia, assim como uma ampla suspeita de envolvimento em casos de assassinatos de jornalistas e críticos do governo, dentro e fora do país. Há um crescente descontentamento com o bloco próximo de Putin nas ruas, na oposição e dentro do próprio partido, uma insustentabilidade que vem sendo canalizada por partidos e organizações de linha mais democrático-liberal.

Parte do sucesso anti-governista vem sendo atribuído ao principal líder da direita liberal, Alexei Navalny, dono de uma ONG centrada na investigação das fortunas acumuladas pelos aliados de Putin. Navalny já foi preso e teve sua candidatura impedida diversas vezes, além de um caso de suspeita de envenenamento, o tornando uma espécie de ícone e lhe conferindo uma capacidade notável de mobilização de massas. Durante o período de campanha prévio às eleições municipais, Navalny disseminou a ideia de tomar o processo como um referendo acerca de Putin e do RU, chamando os eleitores a votarem nos candidatos opositores que tivessem maior chance de ficar acima dos governistas. O resultado do descontentamento popular foi a queda de 40 para 25 das 45 cadeiras municipais por parte do bloco pró-Kremlin - mesmo muitos candidatos concorrendo por fora da legenda do RU, como independentes. Boa parte das cadeiras foram ocupadas pelos partidos Comunista e Uma Rússia Justa, partidos ainda assim conhecidos por constituírem uma oposição “leal” ao Kremlin.


Alexei Navalny líder da oposição liberal de direita

A atual crise do Kremlin se encontra em meio às sanções econômicas aplicadas após a anexação da Crimeia e as consequências da crise econômica internacional e do conflito entre EUA e China. Ainda que não haja uma ruptura entre as relações Rússia-EUA, Putin e Xi Jinping, ambos líderes de governos autoritários e repressivos, vêm cooperando para uma relocalização pró-Pequim da primazia econômica e tecnológica no cenário global, disputa direta com a hegemonia estadunidense. Também é do interesse do capital russo a defesa e ampliação de seus mercados no leste europeu, assim como a manutenção de seu status enquanto gigantesco exportador no ramo de energia. Nesse sentido, Putin tem realizado uma série de pronunciamentos críticos em relação às tarifas dos EUA, que teriam a intenção de segurar o crescimento de ambos países asiáticos, como também defendeu a maior fortaleza chinesa na disputa entre EUA e China pela hegemonia tecnológica: a gigante Huawei, que atualmente detém o monopólio da tecnologia 5G, crucial para o desenvolvimento de sistemas de Inteligência Artificial, e que foi banida por Trump do mercado americano e das relações comerciais com empresas norte-americanas.

O resultado inédito das eleições municipais na capital pode indicar um futuro desgaste maior de Putin e da extrema-direita russa, em favor de blocos da direita liberal como de Navalny. Evidentemente, essa direita oposicionista não representa nenhuma alternativa favorável aos trabalhadores russos, que vem sofrendo um aumento do índice de pobreza com a crise econômica e a escassez de alimentos, acentuadas pela queda dos preços do petróleo e as sanções pela anexação da Crimeia. Essa situação de tensão que se expressou nos recentes protestos massivos e no conselho municipal pode ser indícios de novos fenômenos a se expressarem mais adiante no cenário russo, que acompanharemos aqui no Esquerda Diário.




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