SEMANÁRIO

Ágatha Felix: sua arma era um sorriso negro e um lápis de cor

Marcello Pablito - Trabalhador do Bandejão da USP e diretor do SINTUSP

Ágatha Felix: sua arma era um sorriso negro e um lápis de cor

Marcello Pablito - Trabalhador do Bandejão da USP e diretor do SINTUSP

“Dizem que a infância é a época mais feliz de uma vida. Sempre é assim? Não. São poucos os que têm uma infância feliz. Essa idealização da infância tem sua origem na literatura tradicional dos privilegiados. Os que gozaram de uma infância com tudo assegurado e também sem tristezas, nas famílias hereditariamente ricas e cultas, entre carícias e jogos, podem guardar daqueles tempos a recordação de uma pradaria cheia de Sol que se abre no começo do caminho da vida. Os grandes senhores da literatura ou os plebeus que cantaram os grandes senhores, magnificaram essa ideia de uma infância impregnada de um espírito aristocrático. Mas a imensa maioria das pessoas, se derem uma olhada para trás, percebem, pelo contrário, uma infância sombria, mal alimentada e subjugada. A vida descarrega seus golpes sobre os fracos, e quem é mais fraco do que as crianças?” (Leon Trotski, Minha Vida)

Uma bexiga amarela, um laço cor-de-rosa nos cabelos crespos, os olhos cheios de esperança. Um sorriso alegre, uma vida inteira pela frente, a pele negra. Gostava de balé, de xadrez, de brincadeiras como toda criança, uma aluna dedicada. “O que eu mais temia, o que a gente mais se escondia para não acontecer, aconteceu. [...] Ela vivia sorrindo, ela sempre queria ajudar as pessoas. Minha filha era linda, era inteligente, minha filha desenhava, ela adorava praia [...] Eu disse ‘calma, filha, mamãe tá’. Aí eu percebi que ela levou um tiro". Nas palavras e lágrimas de Vanessa, o país inteiro sofreu a dor de uma mãe que viu sua filha morrer ao seu lado e compartilharam o medo que domina a vida de milhares de famílias negras e pobres das favelas e morros do Rio de Janeiro.

Há poucos meses, 1.500 crianças como Ágatha traduziram por suas pequenas mãos em cartas e figuras de lápis de cor as vozes desesperadas da população que pedia o fim da política de extermínio do governador do Rio de Janeiro, W. Witzel (PSC). Contra o lema da campanha eleitoral de que “A polícia vai mirar na cabecinha e… fogo” uma das cartas dizia “Não gosto do helicóptero, porque ele atira e as pessoas morrem”. Os bárbaros precedentes do assassinato de Moa, de Marielle Franco, as últimas palavras de jovem Jenifer avisando sua própria mãe que havia tomado um tiro, o atentado com 80 tiros contra o carro do músico negro Evaldo Rosa e sua família e as cartas dessas crianças. Nada disso pôde impedir que Witzel revelasse mais uma vez, em plena luz do dia, seu mais profundo desprezo pela vida humana, comemorando efusivamente a morte de um jovem negro seguida de cínicas declarações de “celebração da vida”.

O assassinato de Ágatha Felix, uma criança negra de 8 anos morta com um tiro de fuzil nas costas enquanto voltava de um passeio com sua mãe chocou o país, e é a imagem mais brutal de uma sociedade decadente e assassina que ameaça destruir a vida e arrastar para a barbárie toda a humanidade. Com a morte de Ágatha, Witzel e Bolsonaro querem alvejar o futuro, matar os sonhos e a esperança de milhões de pessoas em todo o país, eles têm como alvo prioritário a juventude negra. Não se trata de um fato isolado, o Rio de Janeiro é exemplo mais emblemático do que promete para nós esse projeto de país erguido sobre a base do golpe institucional.

O avanço reacionário da extrema-direita significou um choque à direita nas relações raciais, uma tentativa de retroagir até mesmo no que era considerado o “politicamente correto”, no país, comandado pelos herdeiros de uma aristocracia parasitária e escravocrata. Um “evento infeliz” foi como Sérgio Moro descreveu essa tragédia social, resultado direto da política repressiva e da violência estatal adotada como a única resposta à crise econômica, social e política que atravessa o país. No primeiro ano de bolsonarismo, o Dia das Crianças, que deveria ser uma data feliz, será lembrado por milhares de famílias em que as crianças passam privações, sofrem com a violência e por 17 pequenos corpos alvejados, 5 mortos, todos negros.

Na cidade maravilhosa, as paisagens contrastam com a condição completamente desumana e ultrajante de vida que um país racista impõe a milhões de negros todos os dias. A pequena camiseta manchada de sangue, perfurada por um tiro, se tornou o símbolo trágico de um sistema que arranca um pouco de nossas vidas e nossas esperanças a cada dia. Uma vida marcada pela violência e pelo medo, pelas privações e pela precariedade da vida, pelo desemprego, pela falta de moradia digna, de saúde e de educação. Desde 2016, cada vez mais a única resposta oferecida pelos ricos e poderosos aos negros e à juventude em particular é uma vida sob a mira da política racista de extermínio.

O avanço do golpe institucional abriu caminho a uma extrema-direita abertamente racista que quer tornar natural, aceitável até mesmos os casos considerados pelo senso comum como mais absurdos e “excessivos” de racismo. Junto com os cortes na educação, vieram as placas: “Escola não atire”. No lugar das aulas de história, de filosofia e dos debates de gênero, vieram as bíblias e as aulas de se esconder sob as carteiras e de como rastejar no chão, desde pequenos, para fugir da morte. Se apoiam no racismo para dividir a nossa classe, e novamente essa repugnante e “invisível” forma de opressão opera a serviço do lucro, empurrando os negros aos piores postos de trabalho, menores salários, menos direitos. Reservam para esses os piores efeitos da crise, impondo que sofrerão mais com a reforma da previdência, com a reforma trabalhista, mas também com a violência estatal, com o encarceramento e a humilhação em todos os espaços de suas vidas. A cada “bala perdida” e encontrada em corpos negros fica o recado de que a vida dos negros vale menos ou não vale nada no maior país negro fora da África.

Não é uma coincidência que o avanço do autoritarismo e a arbitrariedade do judiciário sejam seguidos de uma ainda maior “legalização” e impunidade dos tribunais praticados a céu aberto nas periferias, onde a polícia mais assassina do mundo acusa, julga e condena à morte sumária milhares de negros todos os dias. No dia seguinte, os jornais falam de “apuração rigorosa dos fatos” para manter rigorosamente a mesma impunidade assegurada pelos tribunais militares, pela “ausência de provas” e sob os termos jurídicos do “excludente de ilicitude” adéquam nas normas da lei a isenção de punição aos assassinatos policiais a mando do próprio Estado racista.

O Rio de Janeiro é o sintoma de uma sociedade doentia, que faz recair sobre as crianças e a juventude tudo o que há de perverso, criando as condições para que vidas sejam levadas pelas balas, pelo tráfico ou pelo suicídio. Em São Paulo, neste mesmo ano, o massacre de Suzano deixou 7 mortos, vários feridos e a prova de que estamos em uma sociedade que adoece e degrada a vida da nossa juventude. Um emblema desse episódio foi o jovem negro José Vitor, 18 anos, contrariando as estatísticas, sorriso largo, sonha ser jogador de basquete, caminhou meio quilômetro com um machado fincado em seu ombro pedindo ajuda sem sucesso até conseguir chegar sozinho a um hospital. Nas palavras de sua mãe, as pessoas não o ajudaram porque quando veem um negro nessas condições a primeira pergunta que vem a mente é: “O que ele fez para merecer uma machadada?”. Na última semana em São Paulo, Miguel Gustavo, de 12 anos, foi barbaramente assassinado pela polícia após darem um recado à sua e a todas as mães alertando que seus filhos não chegarão a crescer: “Mãe, se eu pegar o Miguel na rua, pode comprar um caixão pequeno, porque ele não volta mais”. A cada 23 minutos, um Miguel é arrancado de nós.

Para essas crianças que antes soltavam pipa e brincavam nas ruas e que agora fogem ao ver helicópteros sobrevoando as favelas, o sonho de uma vida bela, de usufruir coisas boas, é negado e interrompido a cada dia no capitalismo. Até mesmo o sonho do consumo edificado nos shopping centers é negado sob os “olhos que condenam” a juventude negra, a sua rima, seu moletom e o boné de aba reta, rindo dos seus cabelos e do seu sorriso, condenado seus rolezinhos. São jovens negros como Ytalo e Arlailson que aprenderam, desde pequenos, a andar de cabeça baixa, suportar as humilhações e quando ousam sonhar, ser jogador de futebol, vão ter seu sonho interrompido para conhecer precocemente a carceragem de São Paulo de forma escandalosamente injusta e arbitrária. A mesma carceragem que aprisiona Preta Ferreira, 90 dias de puro racismo e injustiça, que prepara novos Carandirus e Altamiras e que tem seus assassinos indultados por Bolsonaro.

O racismo deixa suas marcas no corpo da juventude. Essa mesma juventude que já tomou banhos de cândida escondida para se livrar da “culpa” de ser negro é a que agora é chicoteada e torturada nos mercados por não poder consumir 4 barras de chocolate. Nas ruas, a alegria e a energia dessa juventude se perdem nas estatísticas de dezenas de milhões de desempregados, de um futuro incerto que se equilibra em cima de uma bicicleta e embaixo de enormes caixas decoradas com slogans de iFood, Rappi e Uber. Caixas de entrega muito maiores do que o horizonte oferecido a esses pequenos ombros negros, que carregam 12 horas por dia os lucros milionários das empresas em troca de um real por quilômetro rodado. Quantos machados cada um desses jovens terá que carregar no peito e na alma?

Sofremos em cada um de nós a dor de Vanessa, de todas as mulheres e mães pela perda de uma vida tão jovem como a da pequena Ágatha. Foram dias de se andar com o coração apertado, em que era inevitável escorrer uma lágrima e do ódio querer explodir.

A morte das Agathas nos grita todos os dias que as vidas negras valem menos, valem nada no capitalismo!

Que a cada passo, Bolsonaro e Witzel deixam corpos negros caídos e um longo rastro de sangue!

A morte de Ágatha nos grita que esse sistema destrói as nossas vidas todos os dias... grita também que para que, no lugar das mortes, exista a vida; no lugar das lágrimas, os sorrisos.

Para que os sonhos das Ágathas floresçam, cresçam e abram caminho a um futuro em que os velhos não enterrem seus jovens, esse banho de sangue precisa acabar e, com ele, de uma vez por todas, esse sistema de sofrimento e de morte merece ser destruído.

Por todas as Ágathas! “Eu era a carne agora sou a própria navalha”!

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Marcello Pablito - Trabalhador do Bandejão da USP e diretor do SINTUSP

dirigente do MRT e fundador do Quilombo Vermelho
Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo do Sintusp
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