Cultura

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A prosa funcional do materialismo histórico

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 22 de outubro| Edição do dia

Marx e Engels não se contentaram em interpretar o mundo. É praticamente um pleonasmo afirmar que ambos os autores escreviam e militavam para contribuir com a transformação do mundo. Os pais do materialismo histórico investigaram as diferentes épocas não a partir do que os personagens diziam, mas do que estava oculto nas suas falas e ações: só podemos compreender guerras, invasões, governos, impérios, revoltas, revoluções e todos os atos dos personagens históricos, a partir do seu conteúdo econômico articulado com as realidades políticas/ culturais.

PERSONAGENS HISTÓRICOS NÃO SÃO INDIVIDUALIDADES DESENRAIZADAS MAS SUJEITOS QUE REPRESENTAM CLASSES SOCIAIS, QUE REVELAM AS LUTAS ENTRE ESSAS CLASSES.

A prosa histórica, assim como a representação artística da história, não poderia consistir na produção de coletâneas de aventuras ou curiosidades. Escritores ideologicamente vinculados à classe dominante, apostam no diletantismo para redigir novelas, romances, artigos e narrativas históricas. Já o materialista histórico parte da seguinte perspectiva política: ao arrancar as máscaras dos eventos históricos e expor suas motivações econômicas, as narrativas materialistas tem por objetivo agir/influenciar os acontecimentos políticos e sociais.

A narrativa marxista representa o processo histórico de maneira objetiva. Isto não é pouco numa época em que as chamadas Fake News, os papagaios da internet e a conduta intolerante da extrema direita substituem o fato pelo delírio. A análise materialista da história também é uma provocação aos pós modernos, que tentam pateticamente substituir os grandes relatos por meros jogos de linguagem.
Quando um materialista histórico se expressa através da FICÇÃO, ele está mais do próximo da REALIDADE do que o jornalismo burguês.

A LITERATURA PODE SER TÃO FUNCIONAL QUANTO A ARQUITETURA.

Quem escreve história a partir da análise dos MODOS DE PRODUÇÃO, deve considerar que o ato de narrar consiste necessariamente em MODOS DE EXPRESSÃO.

Se a funcionalidade política do materialismo histórico pode ser comprovada em artigos, panfletos, manifestos, cartazes, artigos e livros teóricos, ela também o é em poemas, contos, romances, peças de teatro, crônicas etc. Porém, precisamente por não existir um molde ou uma fôrma literária para o marxismo, a pesquisa estética é algo em aberto. O próprio Marx foi um escritor inventivo que fez uso de procedimentos alegóricos para comunicar a sua narrativa realista da história. Em tratando-se de literatura revolucionária, os marxistas devem estar abertos ao diálogo com as mais variadas tradições artísticas, inclusive aquelas que não possuem relações filosóficas com o pensamento marxista.




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