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A prisão de André Esteves ou quando um banqueiro é preso no Brasil capitalista

Dois fatos chamaram a atenção de todos nessa última quarta-feira: a primeira vez que um senador é preso “em exercício de atividade” e a prisão de um importante banqueiro, o mais jovem bilionário no país. Com as mil e uma medidas do arqui-oligárquico senado para que os seus não sejam presos e com as mil e uma clausulas da justiça para que banqueiro (ainda mais dos importantes) também não vá pra cadeia em nenhuma circunstância, há que se perguntar o que ocorre no país. Antes que interpretem mal, não, a justiça (totalmente corrompida) não está melhorando. Existe uma combinação complexa de interesses que deve ser observada e que desencadeia esses fatos.

Iuri Tonelo

São Paulo

quinta-feira 26 de novembro de 2015| Edição do dia

Vamos nos centrar nessa breve reflexão no caso do banqueiro. Não se trata de uma prisão qualquer. Diz-se que André Esteves, dono do banco de investimentos BTG, é uma das 50º maiores personalidades do mercado financeiro mundial (único brasileiro), segundo a revista Bloomberg. Não por acaso, foi um dos destaques do Financial Times dessa quarta-feira sua prisão.

A pergunta que se coloca é por que um banqueiro desse porte foi preso nesse momento? Essa pergunta se coloca ainda mais na medida em que passamos por prisões recentes de um setor fortíssimo do empresariado brasileiro, os empreiteiros, com destaque para a prisão de Marcelo Odebrecht. Talvez só a JBS ainda não foi afetada das global player do antigo ciclo lulista.

Não se pode pensar, por uma questão lógica, que Sérgio Moro, juiz do Paraná, por fora do Supremo Tribunal de Justiça, por fora de ter relações claras com forças de peso do legislativo ou do executivo possa ter poder suficiente de garantir a prisão de empreiteiros e agora um banqueiro. Já em Julho no Esquerda Diário , em texto de Daniel Matos e Leandro Lanfredi, nós exploramos a ligação de Sérgio Moro com uma das grandes do monopólio do petróleo mundial:

“Poucos sabem, mas Sérgio Moro, considerado recentemente um verdadeiro “herói nacional” por colocar atrás das grades altos executivos de empresas envolvidas no Petrolão, tem como esposa uma advogada do PSDB e da Shell. O escritório de advocacia de Rosângela Wolff de Quadros Moro trabalha para o governo tucano do Paraná e assessora essa que é uma das principais multinacionais imperialistas na área de petróleo.”

Ou seja, interesses, em primeiro lugar, ligados ao petróleo brasileiro e ao desmonte e privatização da Petrobrás. Então a operação se volta contra todo o “esquema lulista” anterior, que como os modelos fundamentais de poder no Brasil conformaram um grande esquema de corrupção.

Isso explicaria que já meses atrás os empreiteiros, vinculados direto nas operações da Petrobrás, terminaram presos, e todo “capital” que estivesse no caminho do capital estrangeiro (e a privatização completa da Petrobrás) terminaria esmagado pelo trator do imperialismo.

O caso atual do banqueiro André Esteves parece ter essa raiz, ainda que seja mais complexo. A primeira relação direta está no fato de que dizem ter interceptado um bilhete de Marcelo Odebrecht (em junho desse ano), da prisão, que fazia alusão - e mesmo poderia ter sido endereçado - a André Esteves. O banqueiro é também sócio da empresa Sete Brasil - empresa investigada pela Lava Jato e criada para fornecer equipamentos à Petrobrás, entre eles sondas para exploração de petróleo, e no bilhete dizia “Destruir e-mail sondas”.

Mas a maior evidencia de participação direta do banqueiro na Lava-Jato está em que o mesmo portava um dos relatórios do filho de Nestor Ceveró, que deveria estar confidencializado, que obrigou mesmo o ministro do Supremo Teori Zavascki ter que dar explicações e lançar dúvidas de que “É um genuíno mistério como um documento sigiloso que se encontrava em ambiente prisional em Curitiba chegou ao escritório de André Esteves em São Paulo”.

Sem dúvida, o banqueiro estava completamente envolvido na operação que havia de interrupção da Lava-Jato, mas é de se imaginar que apenas “forças ainda superiores” poderiam coordenar a prisão do banqueiro.

Trata-se de um jogo de forças que começa na disputa da Petrobrás, afeta empreiteiras, setores financeiros, BNDES, onde se opera interesses econômicos do capital financeiro das potências (EUA, Europa e mesmo da China) e de como vão se articulando as forças no interior do país.

A questão é que operações desse tipo não pode se desenvolver sem mexer muito nas peças. A operação Lava-Jato, que até agora prendia apenas os que não tem foro privilegiado (os empresários), agora chega ao setor financeiro e leva um senador (o primeiro no Brasil) para a prisão, um cenário que levou a preocupação de toda a casta política do senado nos mais diferentes partidos, e particularmente do líder do Senado, Renan Calheiros, que apelava a soltura de Delcídio.

A crise política parecia ser contida pela unidade de todos pelo ajuste fiscal contra os trabalhadores em meio a crise econômica. Mas novos eventos vão colocando mais lenha na fogueira e parecem reabrir uma grande crise no equilíbrio que ia se estabelecendo. Resta saber se vão conseguir conter os ânimos ou se a energia que move a Lava-Jato vai começar a afetar (levando a prisão) demais setores políticos a partir do caso de Delcídio, o que poderia abrir uma importante crise na já degradada democracia brasileira.




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