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A plenos pulmões - Um breve ensaio sobre o futurismo

Pedro Pequini

(Carga dos lanceiros, de Umberto Boccioni)

A plenos pulmões - Um breve ensaio sobre o futurismo

Pedro Pequini

O século XX é marcado por transformações políticas, sociais e econômicas profundas e, como não poderia ser diferente, nas Artes também vemos mudanças radicais. As vanguardas europeias (surrealismo, dadaísmo, expressionismo, futurismo e cubismo) são a expressão máxima deste mundo em transformação, rompendo com as convenções estético-formais guiadas até então, em grande medida, pela verossimilhança.

Justamente por estarem imersos em um mar de intensos debates políticos, não é de se estranhar que muitos artistas assumiram um lado e utilizaram de suas artes como veículo de militância. Aqui podemos citar o surrealista André Breton, que produziu o Manifesto da F.I.A.R.I. junto do dirigente revolucionário Leon Trotsky, além dos futuristas Marinetti e Mayakovsky, os quais, embora irmãos de vanguarda, ocuparam espectros ideológicos antagônicos.

Este artigo buscará vincular uma breve exposição da corrente futurista com a análise extremamente cirúrgica e potente realizada por Trotsky acerca dela.

Os futuristas eram o grupo literário mais vigoroso e barulhento do início do século XX. Clamavam por um rompimento com tudo o que era passé, insistiam na conexão supostamente básica entre a arte e tecnologia, introduziram termos técnicos-industriais na sua linguagem poética e valorizavam a velocidade e o dinamismo.

(Dinamismo de um cão na coleira (1912), de Giacomo Balla, destaca o movimento das patas de um cão)

De certa maneira, podemos dizer que o movimento "nasceu" com o Manifesto Futurista do reacionário poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti (que depois vai filiar-se ao fascismo) em 1909. Nele, vemos marcadamente o ímpeto de ruptura com tudo aquilo que representava a arte passadista:

“Nós estamos sobre o promontório extremo dos séculos!… De que vale olhar para trás, no momento em que nos cabe arrebentar os portais misteriosos do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Agora vivemos no absoluto, pois já criamos a velocidade eterna e onipresente.”

Além disso, há formulações profundamente nacionalistas, misóginas e eugênicas:

“Queremos glorificar a guerra – a única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre, e o desprezo pela mulher; Queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.”

Nesse aspecto, é interessante pensar as profundas diferenças com o que defenderam os futuristas russos, os quais identificavam-se com o bolchevismo e o internacionalismo.

“Em ambos os países os futuristas, quando primeiro surgiram, eram rebeldes artísticos, sem filiações políticas definidas. Poderiam ter seguido o caminho de toda escola literária, lutado e conquistado o reconhecimento, consolidando-se em respeitabilidade, se não tivessem sido colhidos por movimentos políticos violentos antes que tivessem tipo tempo de dissolver-se. Sua rebelião literária tomou então colorido político da agitação à sua volta, a agitação fascista na Itália, bolchevique na Rússia. Isso era ainda mais natural porque tanto fascismo como bolchevismo atacavam, partindo de seus ângulos opostos, o passadismo político da burguesia. Os futuristas russos tinham sem dúvida sido sinceramente atraídos pela força dinâmica da Revolução de Outubro e por isso tomaram, enganosamente, a sua rebelião boêmia pela autêntica contrapartida artística da Revolução. Como eles próprios haviam rompido com certas tradições artísticas, alardearam o seu desprezo pelo passado e imaginaram que, juntamente com eles, a Revolução, a classe trabalhadora e o Partido estavam a favor de um rompimento com os ’séculos de tradição’ em todos os campos. O brado contra a tradição justificava-se enquanto dirigido ao público literário e contra a inércia dos estilos e formas consolidados. Mas parecia oco quando ’redigido à classe trabalhadora que não precisa romper e que não pode romper com tradição literária alguma porque não está nas mãos dessa tradição’. A cruzada total contra o passadismo era uma tempestade no corpo da intelectualidade, uma explosão de niilismo boêmio.” (Deutcher, ISSAC, Trotski - O Profeta Desarmado)

“Nós, marxistas, sempre vivemos na tradição e não deixamos, por isso, de ser revolucionários”. - Declarou Trotski em resposta.

Agora, outro ponto interessante de se notar, é de que o entusiasmo tecnológico futurista expressou-se justamente em dois países (Itália e Rússia) atrasados industrialmente na época. Sobre isso, Trotski pontuou:

“Exceto na arquitetura, a arte só se baseia na tecnologia (...) na medida em que esta forma a base da atividade civilizada em geral. Na prática, a dependência da arte, especialmente da arte verbal, da tecnologia material, é desprezível. Podemos escrever um poema sobre arranha-céus, dirigíveis, submarinos, mesmo se vivermos nos confins de Riazan; podemos escrevê-lo com um lápis, num papel grosseiro. O fato de haver arranha-céus, dirigíveis e submarinos na América basta para incendiar a imaginação nova de Riazan - a palavra do poeta é o mais portátil de todos os materiais.”

Na ponta russa, temos como um dos principais expoentes o brilhante poeta Vladimir Vladimirovitch Maiakovski, também chamado de "o poeta da Revolução", considerado por muitos como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot. Em um de seus poemas, intitulado de “A plenos pulmões", vemos o tema da revolução bastante aparente:

“A PLENOS PULMÕES

Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merda fóssil
de agora,
pesquisando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim.
Ora,
começará
vosso homem de ciência,
afagando os porquês
num banho de sabença,
conta-se
que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor.
Professor,
jogue fora
suas lentes de arame!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu ? incinerador,
eu ? sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo front
a horticultura airosa
da poesia ?
fêmea caprichosa.”

Para este gigante, era claro que “esses dias escuros”, os quais insistem em permanecer, o convocaram para a revolução. Sua profunda sensibilidade e convicção, expressas fortemente em seus breves versos preenchidos de pontuações, o colocaram no front para a construção do novo mundo. É também neste lugar que desejo estar, a plenos pulmões, para honrar todos aqueles que viveram o presente almejando um futuro livre de qualquer opressão e exploração!

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