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A pandemia e o nacionalismo das vacinas

O “nacionalismo das vacinas” reproduz as rivalidades e tensões geopolíticas que se acumularam desde a crise capitalista de 2008. Em última análise, é um espelho da competição capitalista e da irracionalidade de um sistema que tudo o que toca - desde o supérfluo até o indispensável à vida - transforma-o em mercadoria e em lucro.

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

quinta-feira 17 de dezembro de 2020| Edição do dia

Durante o mês de novembro, foram aprovadas algumas das centenas de vacinas contra a Covid-19 que estão na corrida, entre elas a fabricada pelo laboratório Pfizer (e seu parceiro alemão BioNTech). Embora essas vacinas tenham recebido aprovação de “emergência” de agências de certificação nacionais, de modo que a primeira administração em grande escala pudesse ser vista como uma espécie de “fase 3” estendida, elas são certamente um passo importante no caminho para sair da pandemia.

As boas novas contrastam com duas realidades sinistras. Uma, que apesar da pressa, as vacinas chegaram tarde e no curto prazo a pandemia continua a atacar com vitalidade renovada. A outra, que o acesso às vacinas, como qualquer outra mercadoria, está reservada por enquanto às grandes potências, enquanto o resto dos mortais que habitam países dependentes, semicoloniais ou extremamente pobres - ou seja, mais da metade dos população mundial - teremos que continuar na espera. Ou ao menos será assim para os bilhões que não pertencem às elites privilegiadas.

Vamos começar com o primeiro. O hemisfério norte, ou seja, boa parte das grandes potências ocidentais, está passando pela segunda (ou terceira) onda de coronavírus. Algumas como o Reino Unido e os Estados Unidos já começaram a vacinar grupos de risco, provavelmente nos próximos dias a Alemanha será a próxima, mas é fato que esses países não chegarão a um percentual significativo de imunização nos próximos meses.

A maioria dos países europeus teve de restabelecer bloqueios, restrições e até mesmo toque de recolher, como a França, mesmo depois de protestos em massa contra a virada autoritária do governo Macron. Na Alemanha, Angela Merkel apareceu quase implorando à população que aumentassem os cuidados, e algo semelhante acontece em Londres.

As perspectivas nos Estados Unidos são ainda mais sombrias. Continua no topo do pódio dos países com maior número de infecções e já ultrapassou 300 mil mortes. O presidente eleito Joe Biden parece perto de fazer o Congresso aprovar um novo pacote de estímulo de US $ 900 bilhões, uma parte irá para apoiar o seguro-desemprego, medidas de contenção como bancos de alimentos e talvez outra rodada de "cheques de helicóptero" que vão direto para o bolso dos beneficiários. Os republicanos estão divididos entre exercer seu papel de oposição e votar em políticas com simpatia popular, o que acabará permitindo que eles mantenham a maioria no Senado.

A expectativa de Biden é que essas medidas funcionem como uma "ponte" entre a atual situação de crise social e uma eventual recuperação. Claro, o impacto da "crise corona" é seletivo, como é o caso em qualquer sociedade de classes. De acordo com um estudo pulicado no Washington Post, 45 das 50 principais corporações aumentaram seus lucros e engrossaram os bolsos de seus acionistas, mas ao mesmo tempo dispensaram 100.000 trabalhadores. O exemplo mais chocante é a Berkshire Hathaway, grupo liderado por Warren Buffett, que faturou US $ 56 bilhões nos primeiros seis meses da pandemia, enquanto uma de suas empresas despediu 13.000 trabalhadores.

Na América Latina, que durante vários meses foi o epicentro da pandemia, o alívio durou pouco, com surtos na maioria dos países, sem que o ciclo da primeira onda ainda tivesse se esgotado.

Quanto às vacinas, a luz prometida no fim do túnel não brilha igualmente para todos. De acordo com a Oxfam (que é membro da People’s Vaccine Alliance juntamente com a Amnistia Internacional, Global Justice Now e outras instituições ligadas a “organizações multilaterais”), cerca de 70 países pobres e de renda média baixa só poderão vacinar uma em cada 10 pessoas no próximo ano, enquanto as potências ocidentais - Estados Unidos, Canadá e vários países da União Europeia - já adquiriram as doses para vacinar em média pelo menos três vezes toda a sua população durante 2021. As estimativas são de que 82% da produção da Pfizer e 78% da Moderna já sejam vendidos para esses países, por isso os países mais pobres teriam que esperar até 2024 para imunizar sua população. Embora Oxford / AstraZeneca tenha comprometido uma porcentagem maior para países “emergentes”, ela alcançaria apenas 18% da população mundial.

Em outubro, África do Sul e Índia apresentaram uma moção na Organização Mundial do Comércio para liberar as patentes das vacinas da Covid-19, agora pertencentes a monopólios farmacêuticos, para que possam ser fabricadas genericamente. Essa proposta foi imediatamente rejeitada pelos Estados Unidos, União Europeia, Grã-Bretanha, Noruega, Suíça, Japão, Canadá, Austrália e Brasil, entre outros.

Os argumentos não são apenas "humanitários", mas também econômicos e referem-se ao financiamento estatal que grandes empresas farmacêuticas receberam para desenvolver vacinas contra a Covid-19: a Moderna recebeu 2,5 bilhões de dólares; a AstraZeneca 2 bilhões e a Pfizer 455 milhões do governo alemão, além de 6 bilhões de compromissos de compra antecipada dos Estados Unidos e da União Europeia.

A "grande indústria farmacêutica" defendeu seu direito de lucrar em uma nota de opinião no New York Times onde se reafirma que as patentes são o incentivo para os investidores gozarem de um período de exclusividade - o que explicaria do ponto de vista das empresas que já existem vacinas em tempo recorde - e que o monopólio seria relativo porque são cerca de 214 projetos de vacinas em todo o mundo, embora esclareçam que apenas 7 foram aprovados ou estão em processo de conclusão. As outras 207… ficaram devendo.

A divisão não é apenas entre "ricos e pobres", mas confronta o "Ocidente" com a China e a Rússia, que se aproveitam do nacionalismo das grandes potências para exercer parte de seu "soft power" por meio de uma espécie de diplomacia da vacina e, aliás, fazer negócios importantes.

O governo chinês prometeu tornar suas vacinas acessíveis como um "bem público global" e designou o Paquistão e outros países do Sudeste Asiático e da África como prioridade, embora sua capacidade de produção em larga escala seja duvidosa. Ao contrário dos Estados Unidos e da Rússia, a China concordou em aderir ao fundo COVAX, uma espécie de mecanismo de cooperação da Organização Mundial da Saúde para garantir um piso de vacinas para países pobres, de baixa e média renda. Muitos analistas enxergam nesse posicionamento de Xi Jinping uma continuidade de projetos com ambição hegemônica diante da deserção dos Estados Unidos de seu papel de liderança, equivalente no campo sanitário à Rota da Seda.

No caso da Rússia, Putin espera vender centenas de milhões de doses de sua vacina Sputnik V em "países emergentes". Alguns são aliados tradicionais da Rússia que compõem sua área de influência, como as ex-repúblicas soviéticas da Bielorrússia e do Uzbequistão, mas a maioria vê que esta é sua única chance contra o nacionalismo das grandes potências ocidentais. Além do ganho econômico, Putin espera reconstruir o status geopolítico da Rússia e estender sua influência até mesmo na América Latina, o quintal norte-americano.

A OMS e outras burocracias de "organismos multilaterais" que servem de disfarce para a implacável dominação imperialista, alertam que a resposta e a competição nacionais podem ter o efeito colateral de prolongar a pandemia que só poderia ter uma solução global.

O “nacionalismo das vacinas” reproduz as rivalidades e tensões geopolíticas que se acumularam desde a crise capitalista de 2008. Em última análise, é um espelho da competição capitalista e da irracionalidade de um sistema que tudo o que toca - desde o supérfluo até o indispensável à vida - transforma-o em mercadoria e em lucro.

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