Gênero e sexualidade

Dossiê 49 anos de Stonewall

A noite em que as sapatão também tomaram o poder

quinta-feira 28 de junho| Edição do dia

A revolta de Stonewall foi um marco que impulsionou a consciência do movimento LGBTI. As lésbicas tiveram que abrir, às cotoveladas, seu próprio caminho dentro deste mundo que saia à luz.

Em 28 de junho de 1969, no bairro de Greenwich, em Nova York, ocorreu um episódio que marcaria para sempre a história do movimento LGBTI mundial. Era uma noite como qualquer outra no Stonewall Inn quando um grupo de detetives da polícia invadiu o bar. Naquela época, quando a cena gay ainda não havia se tornado uma marca registrada nos Estados Unidos, os espaços em que a diversidade sexual era expressa estavam à sombra do mundo heteronormativo.

Nos Estados Unidos, ocorriam incursões policiais em estabelecimentos de gays, lésbicas e transexuais várias décadas antes do episódio de 1969. No entanto, os chamados "distúrbios de Stonewall" ocorreram sob um clima particular. Naqueles anos, os jovens começaram a se organizar e tomar as ruas por seus direitos civis e contra a Guerra do Vietnã. Por sua vez, o movimento feminista iniciou sua segunda onda ligada à descoberta da pílula anticoncepcional, os estudos sobre o orgasmo feminino e o movimento de liberação sexual.

É neste contexto que aqueles presentes no boliche de Stonewall naquela noite disseram basta e responderam à repressão policial com revoltas e barricadas que duraram três dias. A partir desse momento, o movimento LGBTI saiu dos bastidores para se juntar à onda revolucionária dos anos 70.

Surgiram organizações como a Frente de Libertação Gay que fez eco em vários países do mundo, incluindo a Argentina e a União Gay Acadêmica, que organizou gays e lésbicas nas universidades.

Dentro desse amplo movimento, as mulheres lésbicas encontraram certas contradições. O mundo LGBTI não estava naquele momento (nem é agora) livre de machismo. É assim que muitas lésbicas decidiram se juntar a organizações feministas. A dupla opressão que sofriam por serem mulheres e por sua orientação sexual era o elo que unia o feminismo ao movimento LGBTI da época. Essa união, no entanto, mostrou-se fraca.

Em meados dos anos 60, o grupo NOW foi formado (National Organization for Woman: organização nacional para as mulheres). Esta organização que ainda existe hoje, foi uma das mais massivas da época. Algumas ativistas lésbicas faziam parte deste grupo no início apoiando as reivindicações de mulheres heterossexuais e lutando por suas próprias reivindicações para serem incluídas na agenda feminista.

Em 1969, Betty Friedman, uma das fundadoras da NOW, disse durante uma conferência que lésbicas, a quem ela chamou de "ameaça lavanda" ("lavander menace"), "desviaram" o eixo da luta feminista pela igualdade econômica das mulheres.

Todo um setor da organização proclamou-se a favor dessa posição com argumentos de que os incomodava que o senso comum de feminista = lésbica fosse reproduzido ou que as demandas daquela minoria pudessem ser adiadas quando as principais fossem conquistadas as principais demandas da agenda feminista.

Foi depois desse episódio que um grupo de lésbicas, entre as quais a escritora Rita Mae Brown, rompeu com o NOW e começou a se organizar em grupos lésbicos com diferentes estratégias. Alguns desses grupos foram: Lavander Menace, The Killer Dyke (a sapatona assassina) e Lésbicas Revolucionárias (lésbicas revolucionárias).

Cada grupo tinha uma estratégia diferente para alcançar a igualdade de gênero e a liberação sexual.

Por um lado, havia lésbicas moderadas que faziam parte de grupos feministas com mulheres heterossexuais com uma estratégia reformista. Do outro, havia lésbicas radicais que tinham uma concepção separatista na luta contra o patriarcado.

Eles conformaram grupos exclusivamente de mulheres lésbicas, reforçando uma espécie de fundamentalismo lésbico que incentivava todas as mulheres a romperem seus laços com os homens. Elas se colocaram contra a bissexualidade e alguns grupos até rejeitavam lésbicas "butch" por serem masculinas. Grupos conhecidos de separatistas naquela época eram "Las furias" e "Cell 16".

Esses grupos costumavam criticar o feminismo por excluí-las de suas demandas, mas ao mesmo tempo havia outra minoria oprimida que eles normalmente não levavam em conta: lésbicas negras.

O movimento feminista lésbico negro surgiu como uma necessidade diante da supremacia do feminismo racista branco. Mulheres afro-descendentes, mas também lésbicas latinas e orientais, se organizavam em torno delas. A sua tripla opressão de gênero, orientação sexual e raça cruzou inegavelmente a questão de classe, uma vez que a grande maioria dos imigrantes nos EUA vivia (e hoje ainda vive) nos bairros mais pobres.

O mais conhecido desses grupos era o Black Sisters United, formado por mulheres negras, lésbicas e heterossexuais que não apenas lutavam contra o machismo, mas acreditavam que o movimento de mulheres deveria levar em conta a questão da raça, orientação sexual e classe. Elas não se definiram como feministas porque esse rótulo identificava um movimento de mulheres brancas de classe média do qual elas foram excluídas.

Muitas dessas mulheres não apenas não tinham os mesmos empregos que os homens, mas lhes eram negados os empregos de mulheres brancas, muitas trabalhavam como empregadas domésticas ou babás para outras mulheres. Uma famosa referência para essas mulheres na época era Angela Davis, que participou do partido dos Panteras Negras, um grupo revolucionário que forneceu assistência social e lutou contra a polícia xenófoba nas ruas.

Entre as lésbicas que se consideravam revolucionárias ou socialistas, também havia estratégias diferentes. Alguns grupos de separatistas, anteriormente denominados "Célula 16", chamavam-se socialistas porque levavam em conta a questão de gênero, classe e raça, entretanto, não acreditavam na unidade das lutas dos trabalhadores com as de todos os oprimidos. Defenderam a mulher trabalhadora, mas colocaram o inimigo no homem e não em um sistema capitalista que alimenta a opressão patriarcal.

Por outro lado, o grupo Lésbicas Revolucionárias escrevia em um artigo de 1971: "As lésbicas revolucionárias vêem sua própria luta como parte de uma luta maior pelo fim da exploração capitalista e por alcançar o comunismo. Nós sentimos que nenhuma de nós será livre até que todas as formas de opressão (capitalismo, imperialismo, racismo, sexismo ...) sejam eliminadas”.

Hoje temos que tomar em nossas mãos as bandeiras dessas mulheres que há 48 anos disseram basta à opressão, viraram o jogo e se encorajaram a questionar tudo. Sejamos milhares exigindo absolvição para Higui e milhões querendo mudar esse sistema que nos impede de sermos totalmente livres.




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