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Educação | A mentira neoliberal na jornada pedagógica de Raquel Teixeira no RS

Tentando cooptar o discurso construtivista, a SEDUC RS realizou uma jornada pedagógica online para promover a reforma do Ensino Médio. Entre outros assuntos foi abordado o empreendedorismo. Só que, como sabemos, sem capital, para jovens pobres, em palavras mais diretas significa: trabalho precário e alienado ao modelo de aplicativos de entrega.

quarta-feira 16 de fevereiro | Edição do dia

A jornada pedagógica do governo Leite (PSDB) começou nesta segunda-feira (14) carregada de um discurso hipócrita pela educação pública, porém dirigida por instituições privadas que estão com suas rapinas armadas para agarrar fatias do orçamento público da educação para aumentar seus lucros. Em estúdio do SEBRAE com palestra da diretora executiva do centro Lemann, Anna Penido, a jornada começou com ela dizendo e repetindo diversas vezes que os jovens devem controlar seus impulsos. Aos desavisados parece um discurso sedutor, mas por trás está o controle sobre a juventude para seu adestramento para o precário mercado de trabalho. A fortuna de Paulo Lemann, segundo homem mais rico do país, é de 96,5 bilhões, os gastos com educação no RS não chegam a 10% disso ao ano.

Raquel Teixeira, secretária da educação de Leite, completou com um discurso que culpa os profissionais da educação pelo fracasso escolar no RS tentando livrar a cara do governo pelo apagão na educação durante a pandemia em que o estado não deu as mínimas condições para que os alunos tivessem acesso às aulas remotas. Ademais, a educação pública sofre com o conjunto dos ataques de Eduardo Leite e Bolsonaro nas condições de vida da classe trabalhadora. Entre as falas foram criticadas as aulas expositivas, e exaltado um modelo de educação que dê autonomia e protagonismo aos alunos e professores. Porém, não se levou em consideração em nenhum momento a sobrecarga de trabalho dos docentes que para poder se sustentar precisam lecionar 40 e até 60 horas semanais levando muito trabalho para casa. Para piorar neste ano o governo Leite diminuiu as horas atividade, tempo que os professores dedicam para planejamento, estudo, mapeamentos de dificuldades, tarefas burocráticas etc. Em poucas palavras os educadores terão mais trabalho em sala de aula e menos tempo para cumprir com as exigências de uma educação inclusiva, que valorize as individualidades e as habilidades dos alunos. É como se o governo exigisse que motoristas realizassem o transporte público dando bicicletas para eles. Uma tarefa simplesmente impossível.

Falou-se em democracia e participação das comunidades, em transpor os muros das escolas, transformar o espaço escolar em espaço de construção de conhecimento com envolvimento coletivo. Sem estrutura física e com poucos professores e funcionários nas escolas, a realidade de muitas comunidades é de fome, desemprego e evasão de estudantes que precisam trabalhar cada vez mais cedo para ajudar na sobrevivência das famílias. As decisões, no entanto, desde as matrizes curriculares até a implementação do novo ensino médio são sempre monocráticas, ditadas de cima para baixo. Falou-se em acolhimento e escuta, porém a SEDUC promove uma jornada toda expositiva sem interação com o chat onde professores e professoras do estado todo tentaram desabafar e falar de suas realidades.

No segundo dia, na terça-feira (15), a jornada continuou com palestrante do SEBRAE-RS sobre empreendedorismo. Sabemos bem que empreendedorismo é esse, um empreendedorismo sem capital, em que se engana os trabalhadores jovens dizendo que podem ser seus próprios patrões, por exemplo pedalando 50 km por dia uma bicicleta da Ifood, Happy, 99food, Ubereats etc. Por último, depois de tanta conversa fiada, a SEDUC do governo Leite (PSDB) deixou um debate importantíssimo sobre antirracismo, porém, com público já bem reduzido, pois muitos professores e professoras não ficaram até o fim da jornada.

Escola pública de qualidade só é possível valorizando os profissionais que fazem ela acontecer, dando o devido tempo para um trabalho adequado e concentrado. No entanto, o que o governo faz é demitir professores e professoras contratadas, gerando mais desemprego e turmas lotadas. A propaganda do governo Leite no que diz respeito à educação é uma das mais enganosas de todos os tempos, pois afirma que concedeu aumento de 32% aos professores, só não disse que apenas 14% ganharam esse que não é aumento mas reposição salarial. O salário dos educadores ficou congelado durante 7 anos e a defasagem salarial se aproxima de 50%. A ampla maioria da categoria recebeu bem menos do que o propagandeado, e, funcionários e aposentados nem sequer receberam reposição. Segundo matéria publicada no Sul21, o orçamento do governo Leite para a educação é o menor desde o governo Yeda também do PSDB.

As “façanhas” de Eduardo Leite giram em torno do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) que protege os bilionários sonegadores gaúchos ao mesmo tempo que privatiza a baixo preço empresas públicas para negociar a dívida com a União. Quem paga a conta da crise do estado são as famílias pobres e trabalhadoras com o aumento dos preços, com o desemprego e trabalho precário junto com todos os ataques aos servidores públicos que perderam seus direitos e salários nos últimos anos. A mentira neoliberal de Leite e Raquel Teixeira na educação é parte de um projeto para continuar e aprofundar a política de descarregar a crise sobre os debaixo para salvar os ricos.

É preciso lutar por uma educação pública de qualidade, mas uma educação que oportunize aos filhos dos trabalhadores mais do que um trabalho precário pelo resto da vida, uma educação que garanta o acesso à universidade. Para isso, no entanto, é preciso questionar todo o modelo de sociedade capitalista e o projeto de país de Bolsonaro, que quer jovens trabalhando desde os 12, acabar com a escola pública, cercear o pensamento crítico na sala de aula, diminuir a quantidade de professores e militarizar escolas. O PT tampouco enfrentou os barões da educação, kroton anhanguera, quando foi governo pelo contrário, ajudou a enriquecê-los na contramão da valorização da educação pública.

É preciso abrir sim as escolas para as comunidades, criar espaços democráticos de base, onde as comunidades possam votar e decidir os rumos da educação, votar e decidir sobre demandas locais inclusive, junto com professores, funcionários e os próprios alunos. O CPERS sindicato pode cumprir um papel importante nisso, mas a atual direção do cpers (PT e PCdoB) precisa sentir a pressão das bases para agir, pois não mobilizam por si mesmos para a luta, querem canalizar todo o descontentamento para as eleições. É preciso que nos mobilizemos desde as bases, desde cada escola para exigir da direção do sindicato que o CPERS seja mais que apenas assessoria jurídica. Assista ao comentário de Flavia Vale, professora em MG, sobre a reforma do Ensino Médio.




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