Internacional

MOVIMENTO OPERÁRIO INTERNACIONAL

A luta de classes não existe (e não é internacional)

Esta última sexta-feira poderia passar direto sem a Greve Geral no Brasil, a luta dos trabalhadores italianos da FIAT e os atos das trabalhadoras da PepsiCo lutando na Argentina. A classe trabalhadora não existe mais.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

segunda-feira 3 de julho| Edição do dia

Isaac Rosa publicava nesta quinta-feira um artigo com muita repercussão nas redes sociais, intitulado "As greves não servem para nada". Merece ser lido, por isso reproduzimos alguns parágrafos caso tenham perdido a oportunidade:

"As greves não servem para nada, muito menos a dos trabalhadores portuários, que eu sei que foram capazes de manter 100% de seus postos de trabalho enfrentando a patronal e o governo. Seu caso não é nada representativo: um coletivo privilegiado e com capacidade de paralisar um setor tão estratégico como o do transporte marítimo de mercadorias. Assim qualquer um consegue.

"As greves não servem para nada, e não me falem da greve dos coletores de lixo de Madrid, que eu já sei que não precisou de nada além de anunciá-la pra que as empresas se adaptassem e se reunissem em uma só mesa para negociar um convênio único para todos os trabalhadores. Seu caso não é nada representativo: um coletivo privilegiado com capacidade de paralisar um setor tão estratégico como a coleta de lixo da capital. Assim qualquer um consegue."

"As greves não servem para nada, e não me falem da de Cuétara, que já conquistou aumentos salariais, mais postos fixos de trabalho e bônus para os períodos noturnos. Seu caso não é representativo: um coletivo privilegiado e com capacidade de paralisar um setor tão estratégico como a fabricação de biscoitos. Assim qualquer um consegue."

"As greves não servem para nada, nem na Espanha e nem na Eslováquia, que eu já sei que os trabalhadores da Volkswagen desses países já conseguiram um aumento salarial de 14%. Seu caso não é representativo etc., etc. e etc. Assim qualquer um consegue."

A enumeração continua, apesar de deixar algumas pelo caminho, como apontavam no Twitter nesta sexta-feira os trabalhadores da Coca-Cola, recordando que sua greve fez cair um Expediente de Regulação de Emprego (ERE) e impôs a reabertura da fábrica de Fuenlabrada, Madrid.

O dizer, que até poucos anos atrás era comum, de que "as greves não servem para nada" começa a ser desmentido pela realidade, em numerosos exemplos.

O artigo de Rosa, além de ser bom por sua veia irônica e inteligente, teve grande repercussão porque diz o que os grandes meios de comunicação em geral ocultam. Financiados por fundos de inversão e grandes multinacionais, os meios corporativos não abundam em colunistas comentando sobre as greves, e muito menos quando elas são vitoriosas. Não obstante, não buscam promover a consciência de classe e a confiança dos trabalhadores em suas próprias forças, fazem justamente o contrário.

Hoje, parafraseando a engenhosa retórica de Isaac Rosa, poderíamos dizer que a classe trabalhadora não existe mais, e que a luta de classes não é internacional.

A classe trabalhadora não existe, e não me falem do Brasil onde a maior massa operária do continente americano paralisou múltiplos setores produtivos, e só não fez mais porque as burocracias sindicais não a impulsionaram.

A classe trabalhadora não existe mais, e esses trabalhadores da FIAT da Itália que hoje cortaram a rodovia acompanhados de coletivos solidários e da juventude certamente não fazem ideia de que não há luta de classes.

A luta de classes não é internacional, mesmo que não se tenha enterrado a luta desses trabalhadores e trabalhadoras da PepsiCo contra o fechamento da fábrica na Argentina e que está impulsionando uma campanha de solidariedade em todo o mundo.

Parece que algumas coisas estão mudando.

Tradução: André Arruda




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