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A juventude e seu impasse: insurgir-se superando os encantos do reformismo conciliador

Vitória Camargo

A juventude e seu impasse: insurgir-se superando os encantos do reformismo conciliador

Vitória Camargo

Correntes estudos apontam como aqueles nascidos na década de 80 são a primeira geração desde o pós-guerra a chegar aos 30 anos com renda inferior à geração anterior. Desemprego, Rappi, iFood, Uber, jornadas intermitentes e inacabáveis, precarização, depressão e novas doenças psicológicas. Estaremos fadados a assistir cada vez mais às nossas condições de vida e perspectivas de futuro serem rebaixadas com mais miséria, exploração e opressão, em nome dos lucros capitalistas?

Quando o velho não terminou de morrer e o novo ainda não nasceu, a busca por delinear fenômenos ideológicos e políticos na juventude - histórica “caixa de ressonância”, como dizia Trotski, das contradições econômicas, sociais e políticas presentes - pode nos indicar caminhos.

A não resolução da crise econômica, por ora, em um sistema em franca decadência tem feito emergir novas formas de pensar e sentir, à direita e à esquerda, com descolamento entre “representantes e representados”, como define Gramsci. A crise orgânica em vários países, marcada por crises da hegemonia burguesa, e por empreendimentos nos quais a classe dirigente depositou esforços que não mais se sustentam, como o neoliberalismo, têm aberto espaço à revalorização do marxismo enquanto teoria capaz de explicar a crise capitalista, ainda mais diante de uma extrema direita, de Trump a Bolsonaro, que esbraveja e nomeia o marxismo como seu inimigo.

Segundo Razmig Keucheyan em entrevista, entretanto, essa capacidade explicativa do marxismo, que se atualiza frente à crise e tem transformado a relação de forças entre as teorias críticas, não tem encontrado por ora um correlato político.

O “socialismo democrático” voltou à agenda política, com as campanhas de Bernie Sanders e Jeremy Corbyn, ou com Jean-Luc Mélenchon na França. Esses líderes e movimentos têm suas limitações, e os marxistas deveriam ser críticos deles. Porém, tem que se reconhecer também que todos eles falam a linguagem de classe de uma forma ou outra, frequentemente mesclando-a com outros elementos discursivos. (KEUCHEYAN, 2018)

Nesse sentido, volta-se também à tona a questão da “direção” e “organização”. O chamado socialismo millennial nos EUA, que atrai amplas camadas da juventude a verem a ideia de socialismo com bons olhos no coração do imperialismo, mas que tem encontrado como forma política, por ora, o DSA no interior do velho Partido Democrata, é o exemplo mais gráfico disso.

Frente a inimigos tão poderosos, como transformar em força material a potência dessas ideias que já dão mostras no mundo de que podem voltar a apaixonar mentes e corações?

Os 30 anos sem revoluções sobre os ombros

O esgotamento do neoliberalismo enquanto empreendimento burguês oferece novos marcos para refletirmos as características ideológicas do nascimento de uma nova etapa. O “velho”, no ápice da chamada Restauração Burguesa, ancorou-se na contra-ofensiva imperialista material e ideológica e nas derrotas históricas do proletariado, com o fim dos Estados operários e o peso da traição de suas próprias direções. Constituindo a antítese ao marxismo, identificado ao stalinismo e ao economicismo, Marx e toda a teoria revolucionária estaria superada, assim como a noção de classe, de trabalho e mesmo de história. A era “pós-marxista” tornaria impossível apreender a realidade em sua “totalidade”, diluída em uma multiplicidade fragmentada, e nesse sentido apontar uma resposta de conjunto. A experiência com a burocratização da URSS seria a demonstração cabal dos problemas advindos do “poder”. De acordo com Cinatti e Albamonte, “se a teoria marxista foi degradada a um determinismo vulgar, a ditadura do proletariado foi tomada como sinônimo de ditadura de partido único, que tinha o monopólio sobre o Estado e a política” (2004).

Esse triunfalismo capitalista teve como expressão política de resistência (e simultaneamente de conservação) a esse momento histórico, ainda que não homogêneo e único, o que chamamos de autonomismo, uma negação da “estratégia” sintetizada no célebre título de Holloway “mudar o mundo sem tomar o poder”. Com distintas matizes, as ideias fundamentais de um equilíbrio capitalista e da estabilidade democrática como marcos inexoráveis da construção das lutas moldou o chamado autonomismo, muitas vezes confundido com o anarquismo, mas cuja diferença fundamental demarca a não necessidade de derrotar o Estado burguês.

O autonomismo aponta até mesmo a via de convivência pacífica de vivências no interior do sistema e também “brechas” ou “zonas temporárias” capazes de construir “contra-poder”. Nesse sentido, nega a etapa histórica imperialista, de crises, guerras e revoluções, e a classe operária como sujeito, assim como a necessidade de construção de partidos revolucionários que organizem a vanguarda proletária para influenciar as massas e preparar uma estratégia revolucionária para a tomada do poder. Essa realidade fragmentada também estaria plasmada em novos “sujeitos”, marcando a separação entre a luta contra a exploração e a luta contra a opressão.

Por sua vez, a crise de 2008 lança por terra as bases dessa suposta estabilidade do sistema. A “totalidade” em crise recoloca a exploração, o desemprego, a precarização e cada mazela assimilada pela ordem neoliberal via cooptação, fragmentação e, em continentes como a América Latina, distorcida por um ciclo econômico excepcional em base à China, como questões do século XXI. Diante disso, a eclosão dos primeiros processos da luta de classes internacional no pós-2008, com a Primavera Árabe e processos de juventude que marcam o maior levante desse setor social desde 1968 (o que em si guarda enormes diferenças de conteúdo e magnitude após décadas de Restauração Burguesa), colocaram às próprias teses autonomistas ao mesmo tempo sua reinvenção, uma vez que retornava ao horizonte a ideia-força de que as massas em movimento podem derrotar regimes e empreender processos revolucionários, e uma experiência acelerada.

Na juventude “nem-nem” (que nem estuda, nem trabalha, amargando desemprego) da Espanha, com os indignados espanhóis, e em Junho de 2013 no Brasil, o sentimento “anti-casta política” e políticos da ordem, exprimindo as contradições de regimes políticos em crise, encontrou na espontaneidade desses processos expressão organizativa que combinou revolta e combatividade e centralidade no debate dos métodos, da busca pelo “consenso” e pela “representação de todos”. A ideia de movimentos supostamente “horizontais”, também em contraposição aos partidos, aparecia a uma parcela significativa da juventude naquele momento como mais democrática, escondendo por diversas vezes um viés com isso burocrático, já que a negação da direção não significa a ausência desta. Por isso, o episódio do verão de 2011 em Barcelona, onde mais de 10 mil pessoas se reuniram para decidir por “consenso” os rumos do movimento 15M e, pela presença de 40 nacionalistas espanhóis, decidiram pelo não apoio à demanda da auto-determinação do povo catalão, que se faria cada vez mais sensível na Espanha, é uma demonstração de uma experiência prática com concepções autonomistas.

Entretanto, a história coloca as ideias à prova. O retorno da ideia de socialismo, com alguns epicentros no mundo, combinado a fenômenos políticos distorcidos, demonstra que das cinzas do velho autonomismo, devem transmutar-se lições, há menos de uma década da eclosão desses processos espontâneos progressistas protagonizados pela juventude. Vivências alternativas, “contra-poder” e “brechas” estão na contramão de um poder político do Estado que cada vez mais dá mostras de como suas decisões decidem e determinam a vida da classe trabalhadora e da população nos marcos da crítica. Nesse sentido, a política não pode ser ignorada e deixada “para os de cima” e os “métodos” não podem se descolar do fim político.

Por isso, na esteira do fim desses movimentos, o despertar de fenômenos denominados “neorreformistas”, como o Podemos na Espanha, significou uma tentativa de capitalizar eleitoralmente o fenômeno social de todos os que despertaram ao início da crise, como os Indignados. Aqueles que se enfrentaram com a repressão do PSOE no processo, junto aos partidos da ordem, viram rapidamente o Podemos de Iglesias empreender alianças eleitorais com esse mesmo partido e mergulhar paulatinamente na própria casta. Isto é, a separação entre o fenômeno social dos levantes e uma resposta política consciente que levasse à cabo essa própria indignação teve como conclusão o desvio dessa força. Junto ao Syriza grego, que confirmou recentemente sua meteórica bancarrota ajustadora mais uma vez, sustentado pela derrota da luta de classes, foram ambos proclamados “exemplos” pela esquerda brasileira, por fora de um programa anticapitalista e de uma estratégia revolucionária ancorada em uma força social capaz de impô-los.

No Brasil, a antiga direção de Junho de 2013, com o Movimento Passe Livre, rapidamente entrou em crise, e a ausência de qualquer setor que conseguisse responder pela esquerda ao descontentamento com o esgotamento do ciclo petista e sua conciliação de classes, que se comprovou incapaz de dar saída à subordinação imperialista, abriu espaço à Lava Jato, sua demagogia com a corrupção, ao golpe e desse modo ao bolsonarismo. Para além daquelas identificadas como direções desde dentro desse processo, trata-se sobretudo de uma experiência com as próprias burocracias sindicais e estudantis, dirigidas pelo PT e PCdoB, que, por seus próprios interesses como parte da administração do Estado capitalista, buscaram desde o início demonizar Junho e entregá-lo de bandeja à direita.

A extrema direita atualiza essas lições: qual deve ser o “novo”?

No desenvolvimento da crise orgânica, nos marcos da desaceleração da economia internacional, a chegada de Trump ao poder, à frente do principal imperialismo do mundo, significou um aprofundamento na instabilidade política e nas tensões econômicas, por um lado, mas, por outro, também a aceleração em um sentido ideológico. Certamente, essa extrema direita, da qual Bolsonaro no Brasil é parte, aprofunda a urgência por uma resposta política por parte da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres, dos negros e LGBTs. Não à toa, o interesse crescente pelo marxismo, pela ideia de socialismo, que também faz com que Putin encomende calúnias e falsificações contra Trotski e a Revolução Russa, torna-se marcante, após os primeiros processos de luta protagonizados pela juventude. Essa resposta, mais do que nunca, não pode estar cindida de uma alternativa política que organize uma força social.

Nesse sentido, é como expressão distorcida que assistimos ao fortalecimento, ainda bastante incipiente, de uma esquerda stalinista no Brasil, que tenta canalizar o retorno do marxismo para sua deturpação, mas também na esfera internacional, aqui sim um “fenômeno político”, o DSA, nos EUA, sinalizando nitidamente a um processo social-democrata - justamente nos EUA, país que historicamente representou a democracia modelo enquanto “valor universal” e onde há poucos anos seria inimaginável que metade dos jovens norte-americanos vissem a ideia de socialismo com bons olhos.

Hoje, fazem-se notáveis os debates quanto a um neokautskismo dentre os teóricos apoiadores do DSA, no principal imperialismo do mundo. Essa retomada, em linhas gerais, ao mesmo tempo em que rebaixa o anti-imperialismo para segundo plano, no interior de um dos principais partidos da ordem, que é o Partido Democrata, serve para justificar uma adaptação profunda ao aparato do Estado, que também se materializa quanto às burocracias operárias. O apoio de Sanders e Ocasio-Cortez ao pretexto da “ajuda humanitária” na Venezuela, como intento golpista recolonizador na América Latina, é exemplo gráfico.

Assim, após décadas de neoliberalismo e quase uma década da crise capitalista internacional, tendo a juventude já experimentado processos de luta de classes em distintos países, os olhos de subversão e combate que o marxismo tem despertado devem colocar na ordem do dia a necessidade de uma atividade consciente que tire lições das velhas direções, lições essas que o neoliberalismo buscou de todo modo apagar.

O trotskismo, deliberadamente esquecido e marginalizado nos anos de Restauração Burguesa, sob as bandeiras da IV Internacional, tem como sentido de existência o combate à degeneração stalinista e também social-democrata no interior do marxismo e pode apaixonar essa nova geração que enxerga nos limites da pós-modernidade, da negação do marxismo e da classe operária, indo até o final em romper com o “valor” da democracia burguesa (a qual, para avançar nos ataques, os próprios capitalistas são obrigados a degradar, como no Brasil).

Dando continuidade ao partido leninista, pode ser potente ferramenta para avançar em conclusões sobre a necessidade da construção de um partido revolucionário que de fato possa organizar essa experiência em base à luta de classes, transformando a “revolta”, a “indignação” e o “combate” contra a extrema direita em estratégia e programa conscientes pela tomada do poder político, tendo na classe operária o sujeito o qual a juventude deve, se quiser vencer, colocar-se o desafio de despertar e fazer com que entre definitivamente em cena. Assim, ao contrário dos fenômenos neorreformistas e reformistas, que se sustentam pela contenção e derrota da luta de classes, incapazes de superar as burocracias que freiam e traem o movimento operário e estudantil, o partido leninista empreende exatamente o caminho oposto. Retomá-lo não significa saltar mecanicamente sobre o neoliberalismo ou encarar dogmaticamente a teoria revolucionária, diante das transformações das próprias anatomias da classe trabalhadora hoje. Mas, pelo contrário, a reafirmação das crises capitalistas e da etapa imperialista, bem como da luta de classes como motor da história deve tornar ainda mais profunda a tarefa de retomar os fios de continuidade do marxismo revolucionário para uma geração que tem como desafio construir e testar suas direções à altura da crise, identificando aquelas que, há quase um século, já se mostraram superadas.

Isso porque, embora o espírito de época coloque um sentido gradual de decadência capitalista, em contraponto às grandes crises catastróficas, como a de 1929, o que se aponta como sofrimento e miséria de grandes proporções exige a construção de correntes militantes trotskistas nos locais de estudo e trabalho que busquem construir uma nova direção. Isso ganha também sentido preparatório frente ao avanço dos embates entre os Estados nacionais, a guerra comercial entre China e EUA e a emergência de futuros conflitos.

Com a força da juventude e das mulheres trabalhadoras à frente, podemos apostar que se abra espaço para o novo, contagiando a classe trabalhadora, liberando dos ombros o peso das derrotas históricas e avançando para uma atividade revolucionária a serviço de uma verdadeira direção para as massas oprimidas no século XXI.

Referências:

CINATTI, Cláudia; ALBAMONTE, Emílio. Para além da democracia liberal e do totalitarismo. Revista Estratégia Internacional 1, 2004. Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/Para-alem-da-democracia-liberal-e-do-totalitarismo.

FLAKIN, Wladek. Somos os 99%? Está mais para 70%. 16 Jan 2018. Disponível em: https://www.esquerdadiario.com.br/Somos-os-99-Esta-mais-para-70.

KEUCHEYAN, Razmig. “Seremos testigos de un retorno del marxismo”. 29 Jul 2018. Disponível em: https://www.laizquierdadiario.com/Seremos-testigos-de-un-retorno-del-marxismo.

MAIELLO, Matías. O retorno de Kautsky depois de um século… de imperialismo. 9 Jun 2019. Disponível em: http://esquerdadiario.com.br/O-retorno-de-Kautsky-depois-de-um-seculo-de-imperialismo.

MASO, Juan dal. Em que sentido o marxismo retorna, e deve retornar?. 17 Fev 2019. Disponível em: https://www.laizquierdadiario.com/Seremos-testigos-de-un-retorno-del-marxismo.

REGINA, João de. Um "contra-poder" inquilino do estado burguês, ou estratégia para vencer os capitalistas? Um debate de estratégias com o autonomismo. 21 Mar 2012. Disponível em: http://juventudeasruas.blogspot.com/2012/03/um-contra-poder-inquilino-do-estado.html?m=1

WATTS, Joe. Children of Thatcher era have half the wealth of the previous generation. 29 Set 2016. Disponível em: https://www.independent.co.uk/news/uk/politics/margaret-thatcher-generation-80s-children-wealth-half-amount-ifs-study-a7338076.html

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