Cultura

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A importância de um sarau anticapitalista

Afonso Machado

Campinas

quarta-feira 11 de outubro| Edição do dia

Se um porco não pode voar, a classe dominante não pode compreender a arte livre. E olha que a burguesia tenta há um tempão domesticar a dimensão estética. Mais uma vez a arte torna-se uma atividade perigosa aos olhos da direita brasileira. Não que a arte tenha em algum momento deixado de despertar desconfiança e a reação repressiva das autoridades. Acontece no entanto, que perante a polarização ideológica do país, criar é ameaçar o equilíbrio da cultura dominante. É neste contexto que a notícia de que o MRT irá promover no próximo dia 21 de outubro(sábado) a terceira edição de um sarau na Casa Socialista, em São Paulo, possui um claro significado de enfrentamento: trata-se de responder a um quadro político que tende a inibir, a recalcar toda a criatividade dos trabalhadores e da juventude.

Sim, a arte enquanto atividade fundamental da afirmação/realização humana, encontra-se ameaçada. Marx demonstrou como o capitalismo é hostil ao trabalho artístico. Lênin e Trotski comprovaram que a arte é uma importante aliada nas lutas da classe trabalhadora. Certamente o que estes autores revolucionários afirmaram, ainda está na ordem do dia. Hoje no Brasil, um sarau que se proponha a discutir o significado da criação artística do nosso tempo, só pode ser anticapitalista, só pode ser uma iniciativa da esquerda revolucionária. Os militantes e os colaboradores do MRT não apenas sabem disso, como fazem questão de mostrar que a manifestação/obra de arte é, pelas suas leis internas, um ato de protesto contra a realidade política estabelecida : evocar a frase É PROIBIDO PROIBIR em 2017, ou seja um dos principais slogans do Maio francês de 68(o qual Caetano Veloso transformaria, no mesmo ano de 1968, numa barulhenta canção que deixou tanto a ditadura militar quanto os stalinistas de cabelo em pé), confere um profundo sentido histórico ao evento: se carolas e reacionários querem intimidar a arte feita hoje no Brasil, é preciso gritar, cantar, dizer não ao não, criar uma realidade nova(a da obra de arte) que contrasta/se choca com o atual estado de caretice.

Não tem remédio: os labirintos da criação, a crise da arte, não podem ser superados fora da política, fora da necessidade de transformar a realidade. Se faz necessário compreender que não se trata de submeter a arte ao ditame político, mas de valorizar a força revolucionária contida na arte que se opõe à civilização burguesa. Podemos inclusive reabilitar um conceito que foi massacrado pela direita e deturpado pelo stalinismo: o conceito de arte revolucionária.

Neste sentido, tentarei dar uma pequena contribuição ao sarau: terei a oportunidade e o prazer de discutir junto aos camaradas, o meu livro Modernidade e a Estética do Credo Vermelho: Sobre o conceito de Arte Revolucionária no Brasil(1930-1949), lançado no ano passado pela editora ISKRA. Esta obra é uma tentativa de problematizar algumas questões que, a meu ver, não foram suficientemente discutidas pela esquerda brasileira: o abismo entre o modernismo brasileiro e o movimento operário durante os anos 20, as relações entre a arte moderna e a chamada “ arte proletária “ durante os anos 30, a influência subterrânea do Surrealismo, a imposição da estética policialesca do Realismo socialista e a presença marginal do Manifesto por uma Arte Revolucionária independente (1938), de André Breton e Leon Trotski, no Brasil da segunda metade dos anos 40. Penso que tais questões históricas, que contam com personagens polêmicos como Mário Pedrosa, Patrícia Galvão, Oswald de Andrade e Jorge Amado, devem ser debatidas para compreendermos a maneira como a arte e a luta pelo socialismo foram concebidas no Brasil.

A importância histórica de um sarau anticapitalista hoje, reside na possibilidade de pensarmos a dimensão cultural da Revolução permanente: apoiados numa tradição revolucionária da arte, poderemos criar e teorizar sobre um novo projeto estético, aberto, antidogmático, ousado, transgressor, vacinado das deformações do jdanovismo e disposto a contribuir com a construção de uma realidade política revolucionária. LONGA VIDA AO SARAU!




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