Cultura

LITERATURA

A importância de sermos todos feministas: uma leitura do livro de Chimamanda Ngozi Adiche

Chimamanda Ngozi Adiche é uma escritora nascida na Nigéria, em 1977. Pertencente a uma família de classe média, desde de criança foi uma adoradora dos livros. Seus romances foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras, inclusive o livro Sejamos todos feministas, sobre o qual me proponho a escrever nesse texto. O seu primeiro romance publicado foi Hibisco roxo, que data de 2003; em 2006 finalizou Meio sol amarelo; e em 2013, Americanah. A coletânea de contos The thing around your neck, de 2009, também é de sua autoria.

Cleonice Elias da Silva

Doutoranda em História Social

sexta-feira 6 de janeiro| Edição do dia

Apesar de não pertencer a nenhum coletivo ligado ao movimento feminista, considero-me uma “feminista de carteirinha”, devido ao desenvolvimento da minha pesquisa de doutorado tive a oportunidade de ter um pouco mais de contato com a história do movimento feminista no Brasil. Não sei se pelo fato de não ser uma militante direta e apenas uma pesquisadora do feminismo isso me torna menos feminista que as demais, que de certa forma estão vinculadas aos já mencionados coletivos, Ongs ou instituições, cujo o propósito seja a luta pelos direitos das mulheres. Acredito que seja de extrema importância que não apenas nós mulheres, mas também os homens, tenhamos consciência do valor que as reivindicações encabeçadas pelo movimento no decorrer das décadas passadas têm no processo de conquistas de direitos das mulheres. Todavia, essa é uma luta que precisa ser levada adiante, pois tratando-se das questões de gênero ainda existe uma grande disparidade.

O termo feminista sempre esteve cercado de um teor pejorativo, fato que levou algumas mulheres da década de 1970, por exemplo, engajadas nos movimentos de mulheres evitarem o uso da palavra para autodenominarem-se. Até os mais progressistas, refiro-me aos movimentos de esquerda de resistência à ditadura civil-militar, consideravam as bandeiras do movimento feminista como causas burguesas. Passadas quase quatro décadas, as feministas ainda deparam-se com termos pejorativos para fazerem referências a elas, aqui cito apenas o xingamento “feminazi”.

O livro "Sejamos todos feministas" publicado em 2014 é uma versão de uma palestra concedida por Chimamanda Ngozi Adiche em 2012 ao TEDX EUSTON, uma conferência anual com enfoque em África. Eu achei pertinente escrever sobre livro não apenas devido ao meu envolvimento com o tema, mas também fui motivada pelo teor da carta de Sidnei Ramis de Araújo, responsável pela morte de 12 pessoas, entre eles, sua ex-mulher Isamara Filier e seu filho. Os crimes foram cometidos no réveillon, na cidade de Campinas.

Na carta Sidnei propaga o seu ódio não apenas pela sua ex-esposa, mas pelas mulheres de forma geral. O mais preocupante no teor de sua carta não é o fato de tratar-se de ideias de alguém desequilibrado, mas de serem convicções que podem encontrar respaldo em alguns segmentos mais conservadores da sociedade, sobretudo entre aqueles de extrema direita. Quando faço essa afirmação falo da forma com ele referiu-se à Isamara e as demais mulheres de sua família; em vários trechos da carta usou o termo “vadia” para fazer referências a elas. A misoginia expressa nas palavras e no ato de Sidnei é uma problemática que afeta o cotidiano das mulheres não apenas aqui no Brasil, mas pelo mundo afora.

A crueldade dos assassinatos e as ideias absurdas defendidas por Sidnei repercutiram na imprensa e nas redes sociais, suscitou também discussões sobre os feminicídios. O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking entre os países que mais assassinatos são cometidos contra as mulheres. Em 2015, a lei 13.104/2015, em suma, passou a classificar e condenar os assassinatos cometidos contra mulheres motivados por ódio, e relacionados à violência doméstica, como feminicídio.

Voltando ao livro "Sejamos todos feministas", cabe mencionar que ele não se estrutura a partir de uma reflexão teórica sobre o feminismo, trata-se na verdade de relatos da escritora sobre as suas vivências como mulher africana e intelectual, e da importância que os ideais do movimento feminista tiveram e têm em sua formação e vida. Chimamanda foi chamada de feminista a primeira vez quando tinha quatorze anos de idade por um amigo, na época ela nem sequer sabia o significado da palavra. Curiosa, quando teve a oportunidade, procurou no dicionário o seu significado. E deparou-se com a seguinte definição: “Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”.

O seu livro "Hibisco roxo" foi considerado feminista, na época de seu lançamento foi aconselhada por um jornalista a não se intitular como uma feminista. Para ele, as feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Diante da argumentação do jornalista, Chimamanda afirma que resolveu definir-se como uma feminista feliz. Em outra circunstância, uma professora universitária disse-lhe que o feminismo era antiafricano. Então, a escritora resolveu considerar-se uma feminista feliz e africana. Uma amiga comentou que se a escritora era uma feminista deveria odiar os homens, Chimamanda resolveu torna-se uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”.

Esses relatos da escritora demonstram os estigmas que cercam as feministas, esses não condizentes com a realidade. Visões distorcidas do comportamento, das atitudes e até mesmo da aparência dessas mulheres. Em seus relatos ela escreve sobre a situação da mulher na Nigéria, menciona que em seu país as mulheres não podem frequentar alguns bares sozinhas, e relata como em várias situações em restaurantes acompanhada por amigos homens foi ignorada pelos garçons, que só cumprimentavam seus acompanhantes.

Para ela “a questão de gênero, como está estabelecida hoje em dia, é uma grande injustiça”. Existem mais mulheres no mundo do que homens, todavia, estes ocupam os cargos mais importantes. E quando as mulheres ocupam cargos de chefias algumas de suas atitudes são criticadas simplesmente pelo fato de serem mulheres. As mesmas atitudes se praticadas por homens seriam naturalmente aceitas. Outra problemática, é a inexistência de uma paridade salarial, em muitas circunstâncias as mulheres, mesmo sendo mais qualificadas que os homens, recebem salários inferiores.

Acredito que os relatos trazidos por Chimamanda Ngozi Adiche no livro aqui em questão reforçam a ideia de que as agendas defendidas pelo movimento feminista não estão ultrapassadas e que precisam manter-se ativas, uma vez que ainda não vivemos uma equidade de gênero. Essas agendas são importantes para conquistarmos uma sociedade mais igualitária.




Tópicos relacionados

Feminismo   /    Mulher   /    Literatura   /    Cultura   /    Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar