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RACISMO NO EUA

A herança dos filhos de Baltimore

segunda-feira 4 de maio de 2015| Edição do dia

Um breve resgate histórico da cidade de Baltimore no último século permite observarmos o fundo da caixa de pandora que o racismo raivoso do estado e da policia voltou a abrir. Em algo tem razão Obama quando declara que “toda esta violência não é só por Freddie”; a fúria das jovens gerações tem revelado as necessidades mais elementares herdadas por décadas de devastação econômica.

Ascenso da indústria do aço

Durante a primeira metade do século XX, parte do cordão industrial foi lentamente acumulando habitantes no entorno de Baltimore, até chegar a se converter em uma cidade que foi o motor da economia do estado de Maryland até 1950. A indústria do aço chegou primeiro em 1893 com a Companhia Aços Pensylvania, mas foi com a fusão da Aços Bethlehem, em 1916, que conseguiu se desenvolver como polo econômico e atrair milhões de trabalhadores imigrantes brancos e trabalhadores rurais negros do Sul, com promessas de uma vida melhor.

Na borda da planta metalúrgica e do primeiro estaleiro construtor de navios de carga e transporte, a empresa desenvolveu uma política social construindo um bairro operário segregando os trabalhadores por cor mediante a determinação das casas em tamanho e localização. Com este mesmo critério racial também subsidiaram igrejas e colocaram de pé as primeiras escolas a fim de formar as próximas gerações de trabalhadores metalúrgicos com baixa qualificação destinados a continuar os trabalhos na indústria do aço; um dos mais insalubres de toda a nação.

A formação e os trabalhos qualificados foram rapidamente reservados para os brancos. O bairro que recebeu o mesmo nome que o moinho de aço da planta, Sparrows Point, ficou superlotado de habitantes até 1930, quando começou a expulsar residentes, trabalhadores da siderúrgica Aços Bethlehem, para a cidade de Baltimore. De um lado da cidade se estabeleceram os trabalhadores imigrantes brancos e na outra ponta os negros.

Apesar da divisão fomentada pela burguesia do aço, a enorme experiência que traziam dos sindicatos europeus aqueles imigrantes brancos se combinou com a combatividade da comunidade negra, que, já em 1933, havia realizado um exitoso boicote aos comerciantes locais que se negavam a contratar empregados negros. Até 1941, os 15.714 trabalhadores da Aço Bethlehem conquistaram a representação sindical e obtiveram pela primeira vez os salários de convênio, seguros sociais e licenças médicas, entre outros direitos.

O boom experimentado pela indústria durante a Segunda Guerra Mundial fez com que até 1959 o número de trabalhadores metalúrgicos da zona siderúrgica cresceram a uma pico máximo de 35 mil. Foi a segunda e terceira geração as que, sobre a base da sindicalização, conquistou um nível de vida de classe média que permitiu pela primeira vez o acesso a uma moradia mais digna e a educação universitária para seus filhos, planejada com o objetivo de procurar uma vida fora das fábricas.

A caída do aço e o auge dos especuladores imobiliários

No começo da década de 70, a abertura de importações neste ramo fez com que a maior planta de produção de aço dos Estados Unidos, Sparrows Point de Bethlehem, começasse um processo de demissões massivas e ataques aos direitos que seus trabalhadores haviam conquistado. Nesta e na década seguinte, a planta passou de 35 mil para 8 mil trabalhadores e, no total, o saldo de postos de trabalho industriais que se perderam em Baltimore foi de 100 mil entre 1950 e 1990, que é o mesmo que 75% do emprego industrial, o único com sindicalização. Nunca mais a cidade pode recuperar a qualidade de vida e os direitos que seus trabalhadores haviam conquistado nestes anos.

O mesmo colapso foi a base para o aprofundamento da pobreza urbana que terminou por exacerbar-se com a atuação dos especuladores imobiliários durante as décadas seguintes até a atualidade.

Apoiando-se na discriminação racial e na devastação provocada pela caída na indústria, os grandes proprietários de imóveis impuseram um mecanismo perverso mediante o qual conseguiram que milhares de famílias brancas emigrassem da cidade desfazendo-se de suas casas à baixos preços, para logo vende-las pelo dobro de seu preço original a famílias negras enganadas por créditos impossíveis de serem pagos, mas fáceis de serem obtidos. O resultado 20 anos depois aparece com um terço de moradias desocupadas e o enorme crescimento das periferias de Baltimore, que passaram de 387.656 habitantes em 1950 para 1 milhão e 800 mil de pessoas na última década.

A taxa de pobreza entre os residentes negros de Baltimore esteve desde a década de 70 quatro vezes acima da cifra entre a população branca. Assim mesmo, esta cidade que chegou a concentrar em seu auge 75% da população total de Maryland, chega ao fim do século XX representando apenas um quarto do total, com 6% de trabalhadores industriais, enquanto o resto são trabalhadores em serviços, com maioria de mulheres (muitas “chefes” de família) ganhando baixos salários, em péssimas condições de trabalho e jornadas extensas.

Emigração da classe média negra e auge da juventude

As contradições anteriores acrescentaram a polarização entre a classe média e os contingentes de pobres urbanos, tendo como consequência não só a emigração branca impulsionada pelo racismo, mas também da população negra que havia conseguido manter um nível de vida de classe média, sobrevivendo à devastação econômica da cidade.

Baltimore se converteu então na casa de milhões de famílias pobres que não podem ascender a uma melhor condição de vida. Em definitivo, enquanto o racismo se alimenta diariamente desde o estado na opressão e violência que este exerce, o terreno do qual emerge a disputa é o de classe; como expressa a valentia dos jovens negros em seu slogan “Black Lives Matters” levam adiante uma luta que começa contra o chefe de polícia e a prefeita de Baltimore, ambos negros.

Justamente por essas condições econômicas, que mantém mais de 50% dos negros da cidade desempregados, já seja porque talvez a rebelião que explodiu violentamente com a morte de Freddie Gray abriu uma fenda de onde está fazendo nascer, com a mesma fúria que a devastação econômica, uma juventude que pede aos gritos que sua vida valha a pena ser vivida.




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